top of page

As favelas e a irrupção do espaço medieval



Le Corbusier no livro Urbanismo, publicado em 1925, trata do que ele chama de caminho dos homens e caminho das mulas. O caminho dos homens é o resultado de um esforço racional que molda a natureza e o espaço com um gesto firme. O caminho das mulas vai se moldando ao território pelo percurso dos animais que transportam homens e mercadorias.


Para Le Corbusier, o caminho das mulas moldou todas as cidades da Europa. E também as brasileiras. Diz Murilo Marx no livro Cidade Brasileira: “Como as cidades medievais, acomodando-se a terrenos acidentados e à imagem das portuguesas, as povoações brasileiras mais antigas são marcadas pela irregularidade”. Ouro Preto é um belo exemplo de uma cidade que se amolda ao terreno. Brasília é o exemplo oposto, uma cidade que moldou completamente o território – foi terraplanada toda de uma vez e tem um lago criado artificialmente.


Murilo Marx destaca como são significativos os nomes das primeiras povoações do país: Rio, Recife, Bahia, nomes dos locais geográficos aos quais as cidades viriam a se moldar. Com o desenvolvimento das cidades, essas características originárias foram sendo alteradas.


Para que o caminho dos homens se interpusesse ao caminho das mulas foi preciso destruir muita coisa: o Monte do Castelo, onde primeiro se desenvolveu a cidade do Rio de Janeiro, veio abaixo com jatos d’água que formariam o Aterro do Flamengo. Diz Murilo Marx: “A Esplanada do Castelo (surgida no lugar onde foi derrubado o Morro do Castelo, no Rio de Janeiro) espelha hoje a vitória da praia, do porto, da baixada, do comércio, enfim, da vida mais burguesa e dinâmica, sobre a acrópole, a cidade e as instituições antigas”.


No Recife, a Igreja do Corpo Santo, a mais antiga da cidade, onde estavam enterrados heróis da batalha contra os holandeses, foi destruída, assim como os arcos do Bairro do Recife, as chamadas portas da cidade. Em São Paulo, destruiu-se a antiga Sé para dar lugar à nova, assim como tantas igrejas antigas. E os palacetes Prates, obras ecléticas de uma beleza extraordinária, foram postos abaixo para a construção de arranha-céus genéricos. Rios e riachos foram canalizados para virarem ruas, avenidas.


Tudo isso inspirado no que Haussmann fez em Paris. O responsável pela reforma urbana da capital da França, determinada por Napoleão III, derrubou muito da Paris medieval para dar lugar a modernas avenidas, como a Champs-Élysées. Não é à toa que o Theatro Municipal do Rio de Janeiro e o de São Paulo são inspirados na Ópera de Paris, construída para coroar as reformas de Haussmann.


Posteriormente, as ideias de Le Corbusier se tornaram muito influentes no Brasil. Principalmente quando Getúlio Vargas oficializou o modernismo com a construção do Ministério da Educação e Saúde, hoje Edifício Capanema. O prédio foi feito a partir do desenho original do próprio Le Corbusier, e contou em sua realização com nomes como Lucio Costa e Oscar Niemeyer.


Lucio Costa veio a ganhar, anos depois, o concurso internacional – que contou com arquitetos e urbanistas de várias partes do mundo – para projetar a nova capital, Brasília. O modernismo, no Brasil, chegava à consagração plena – o país se tornara um dos poucos com uma capital inteiramente moderna. E era um modernismo específico, de inspiração corbusiana – Brasília se parece com a Ville Radieuse de Le Corbusier, apesar de ter uma proporção mais humana.


O desenvolvimentismo dos militares levou o modernismo e as grandes obras públicas a patamares inéditos. A ponte Rio-Niterói e a Transamazônica são exemplares. Há um vídeo bastante significativo feito pelo Banco Nacional do Desenvolvimento, em 1972, em que se diz a seguinte frase: “Os aglomerados humanos conhecidos como favelas gradativamente estão desaparecendo”. O motivo era o financiamento feito pelo banco de grandes conjuntos habitacionais. As favelas não desapareceram, na verdade só aumentaram. O ideal desenvolvimentista dos militares nunca chegou a se realizar.


O que é uma favela? É um assentamento urbano informal, caracterizado pelas construções sem planejamento. Elas ocupam os morros, até mesmo locais adversos e irregulares, assim como nas cidades coloniais. As grandes cidades brasileiras, pretensamente modernizadas, com arranha-céus e estradas retilíneas, viram a irrupção do espaço medieval.


Não que as favelas sejam exemplo de desenvolvimento orgânico, são antes uma advertência de que a modernização e o desenvolvimentismo estatal – feito à base da canetada – não deram lá muito certo. As duas facetas da cidade brasileira – a moderna, estilo Barra da Tijuca (bairro que foi projetado por Lucio Costa, significativamente), e a medieval (as favelas), precisam ser integradas – e isso passa por um desenvolvimento orgânico e sustentável, baseado na proporção humana e na exploração do território brasileiro para além dos espaços urbanos.


0 comentário

Comments


bottom of page