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O apagamento dos mestiços no Brasil



O apagamento e a violência simbólica contra mestiços no Brasil pode ser parte de uma estratégia dos EUA para não reconhecer internamente esta categoria.


O alerta foi feito por Bourdieu e Wacqant em 2002 e há razões para crer que eles estavam certos.


“O imperialismo cultural repousa no poder de universalizar os particularismos associados a uma tradição histórica singular, tornando-os irreconhecíveis como tais.” Assim tem início o artigo de B&W de 2002.


Não é de hoje que se fala sobre o apagamento de pardos e mestiços, caboclos, caiçaras, cafuzos, mamelucos e todas as outras categorias de identificação racial no Brasil em favor da tese birracial que divide o mundo entre brancos e negros.


Em “As artimanhas da razão imperialista”, Bourdieu e Wacqant, já haviam explicitado em artigo de 2002 sobre o fato de que percepção racial particular dos EUA estar sendo importada, ou mesmo imposta à realidade brasileira, a partir de uma colonização do pensamento universitário.


Permita-me antes apresentá-los. Para quem não conhece, Bourdieu é considerado um dos maiores sociólogos de nosso tempo. Sua extensa obra é tema de estudo nas ciências sociais. Wacqant, seu discípulo realizou seu trabalho de campo como sociólogo treinando boxe juntamente com jovens negros americanos numa violenta periferia de Chicago. Ambos são considerados autoridades em temas como colonialismo, imperialismo, racismo etc. Fui apresentado a ambos no departamento de antropologia da UFPR em 2018.


Contudo, o texto em questão me permaneceu oculto até que o professor de filosofia Crisóstomo de Souza a publicou em suas redes socais.


Bem, resumidamente Bourdieu e Wacqant dizem que no Brasil, havendo uma percepção própria da questão racial, onde a mestiçagem emerge como fator preponderante na formação étnica e na identidade dos brasileiros, já havia um movimento no sentido de importar, e implantar, a noção estadunidense sobre o tema, onde há apenas duas identidades raciais possíveis: branco e negro. ¹


Ainda segundo o texto, isso não se dá por acaso, mas devido a uma operação comum do imperialismo que é a de colonizar os espaços, inclusive os espaços mentais, com seus próprios conceitos locais².


Bourdieu e Wacqant vêem nisso uma forma de violência simbólica, sendo nesse sentido, a ‘globalização’, não mais do que a americanização do mundo. Dirão ainda os autores que tal operação não é possível sem a colaboração de agentes internos. ³


O texto não faz suas insinuações a partir de névoas ou suspeitas apenas, mas aponta claramente as operações de financiamento à universidade brasileira e a exigência de que seja utilizado o mesmo instrumental teórico das universidades dos EUA, ou seja, a teoria birracial. (4)


O artigo traz um último fato, e sobre ele, uma reflexão.


Havendo nos próprios EUA um movimento para reconhecimento dos mestiços como categoria racial (5) – algo que talvez possa ter sido influenciado pela própria noção racial brasileira – não haveria por trás dessa operação de exportação-importação cultural, uma tentativa de na verdade, apagar um novo problema racial interno, surgido da mestiçagem mais recente em solo americano? (6)


As afirmações de Bourdieu e Wacqant, feitas pelos célebres sociólogos há mais de 20 anos atrás podem ser encontradas nas caixas de comentários dos grandes sites sobre temas raciais.


Ou seja, mesmo 20 anos depois, com a universidade e a mídia tendo incorporado essa visão, o povo brasileiro ainda se enxerga como um povo mestiço, com uma gradação variável e não com uma linha divisória impenetrável que opõe ‘opressores e oprimidos’ a partir do tom de pele.


Só para que fique claro: isto está muito longe da concepção errônea de que ‘não existe racismo no Brasil’, mas sim, de que ele incide de maneira diversa sobre nossa população e que a aplicação da tese birracial estadunidense tem resultado como uma nova forma de racismo, em que é negado o lugar e a identidade das pessoas mestiças.


_________________________


(1) “Em um campo mais próximo das realidades políticas, um debate como o da "raça" e da identidade dá lugar a semelhantes intrusões etnocêntricas. Uma representação histórica, surgida do fato de que a tradição americana calca, de maneira arbitrária, a dicotomia entre brancos e negros em uma realidade infinitamente mais complexa, pode até mesmo se impor em países em que os princípios de visão e divisão, codificados ou práticos, das diferenças étnicas são completamente diferentes e em que, como o Brasil, ainda eram considerados, recentemente, como contraexemplos do "modelo americano".”


(2) “A maior parte das pesquisas recentes sobre a desigualdade etno-racial no Brasil, empreendidas por americanos e latino-americanos formados nos Estados Unidos, esforçam-se em provar que, contrariamente à imagem que os brasileiros têm de sua nação, o país das "três tristes raças" (indígenas, negros descendentes dos escravos, brancos oriundos da colonização e das vagas de imigração europeias) não é menos "racista" do que os outros; além disso, sobre esse capítulo, os brasileiros "brancos" nada têm a invejar em relação aos primos norte-americanos. Ainda pior, o racismo mascarado à brasileira seria, por definição, mais perverso, já que dissimulado e negado. É o que pretende, em Orpheus and Power (1994),10 o cientista político afro-americano Michael Hanchard: ao aplicar as categorias raciais norte-americanas à situação brasileira, o autor erige a história particular do Movimento em favor dos Direitos Civis como padrão universal da luta dos grupos de cor oprimidos. Em vez de considerar a constituição da ordem etno-racial brasileira em sua lógica própria, essas pesquisas contentam-se, na maioria das vezes, em substituir, na sua totalidade, o mito nacional da "democracia racial" (tal como é mencionada, por exemplo, na obra de Gilberto Freyre, 1978), pelo mito segundo o qual todas as sociedades são "racistas", inclusive aquelas no seio das quais parece que, à primeira vista, as relações "sociais" são menos distantes e hostis. De utensílio analítico, o conceito de racismo torna-se um simples instrumento de acusação; sob pretexto de ciência, acaba por se consolidar a lógica do processo”


(3) ”A violência simbólica nunca se exerce, de fato, sem uma forma de cumplicidade (extorquida) daqueles que a sofrem e a "globalização" dos temas da doxa social americana ou de sua transcrição, mais ou menos sublimada, no discurso semi-erudito não seria possível sem a colaboração, consciente ou inconsciente, direta ou indiretamente interessada, não só de todos os "passadores" e importadores de produtos culturais com grife ou dégriffés (editores, diretores de instituições culturais, museus, óperas, galerias de arte, revistas etc.) que, no próprio país ou nos países-alvo, propõem e propagam, multas vezes com toda a boa-fé, os produtos culturais americanos, mas também de todas as instâncias culturais americanas que, sem estarem explicitamente coordenadas, acompanham, orquestram e, até por vezes, organizam o processo de conversão coletiva à nova Meca simbólica.”


(4) “Além do papel das fundações filantrópicas, deve-se, enfim, colocar entre os fatores que contribuem para a difusão do "pensamento US" nas ciências sociais a internacionalização da atividade editorial universitária. A integração crescente da edição dos livros acadêmicos em língua inglesa (doravante vendidos, freqüentemente, pelas mesmas editoras nos Estados Unidos, nos diferentes países da antiga Commonwealth britânica, bem como nos pequenos países poliglotas da União Européia, tais como a Suécia e a Holanda, e nas sociedades submetidas mais diretamente à dominação cultural americana) e o desaparecimento da fronteira entre atividade editorial universitária e editoras comerciais contribuíram para encorajar a circulação de termos, temas e tropos com forte divulgação prevista ou constatada que, por ricochete, devem seu poder de atração ao simples fato de sua ampla difusão. Por exemplo, a grande editora semicomercial, semi-universitária (designada pelos anglo-saxões como crossover press),Basil Blackwell, não hesita em impor a seus autores determinados títulos em consonância com esse novo senso comum planetário para a instalação do qual ela tem dado sua contribuição sob pretexto de repercuti-lo. Assim, à coletânea de textos sobre as novas formas de pobreza urbana, na Europa e na América, reunidos em 1996 pelo sociólogo italiano Enzo Mingione, foi dado o título Urban Poverty and the Underclass, contra o parecer de seu responsável e dos diferentes colaboradores, uma vez que toda a obra tende a demonstrar a vacuidade da noção de underclass (Backwell chegou mesmo a se recusar a colocar o termo entre aspas).16 Em caso de reticência demasiado grande por parte dos autores, Basil Blackwell está em condições de pretender que um título atraente é o único meio de evitar um preço de venda elevado que, de qualquer modo, liquidaria o livro em questão. É assim que certas decisões de pura comercialização editorial orientam a pesquisa e o ensino universitários no sentido da homogeneização e da submissão às modas oriundas da América, quando não acabam por criar, claramente, determinadas "disciplinas", tais como os cultural studies, campo híbrido, nascido nos anos 70 na Inglaterra que deve sua difusão internacional a uma política de propaganda editorial bem-sucedida. Deste modo, o fato de que essa "disciplina" esteja ausente dos campos universitário e intelectual franceses não impediu Routledge de publicar um compendium intitulado French Cultural Studies, segundo o modelo dos British Cultural Studies (existe também um tomo de German Cultural Studies). E pode-se predizer que, em virtude do princípio de partenogênese étnico-editorial em voga atualmente, ver-se-á em breve aparecer uma manual de French Arab Cultural Studies que venha a constituir o par simétrico de seu primo do além-Mancha, Black British Cultural Studies, publicado em 1997.”


(5) “Os pesquisadores afirmaram que os americanos mudaram sua autoidentificação racial ou de origem por muitos motivos. O que lhes chamou a atenção foi o fato de terem sido os hispânicos – entre os quais os de origem brasileira devem ser incluídos – os que mais mudaram sua autoclassifição de uma década para a outra. Ao contrário, foram relativamente poucos os que em 2000 se autoclassificaram como brancos não hispânicos, pretos ou asiáticos a modificarem sua categoria no censo de 2010. Hispânicos mudam de categoria por vários motivos, dizem os pesquisadores. Algumas pessoas podem mudar sua categoria depois de descobrirem que têm um antepassado de raça diferente. Ou podem decidir que há benefícios em incluir-se em certos grupos, como vantagens na admissão em universidades ou faculdades. O fato é que estes dados recentemente divulgados mostram que as artimanhas da razão imperialista de Bourdieu e Wacquant, ou seja, a universalidade da categoria raça dos norte-americanos, está sofrendo sérios revezes e encontrando resistência até mesmo em solo norte-americano”, – Escreveu a antropóloga Yvone Maggie em artigo publicado em 2014 no site G1 intitulado: “As artimanhas da razão imperialista em xeque – milhões de americanos mudam sua raça ou etnicidade de um censo para outro.”


(6) “Mas todos esses fatores reunidos não podem justificar completamente a hegemonia que a produção exerce sobre o mercado mundial. É a razão pela qual é necessário levar em consideração o papel de alguns dos responsáveis pelas estratégias de import-export conceitual mistificadores mistificados que podem veicular, sem seu conhecimento, a parte oculta e, muitas vezes, maldita dos produtos culturais que fazem circular. Com efeito, o que pensar desses pesquisadores americanos que vão ao Brasil encorajar os líderes do Movimento Negro a adotar as táticas do movimento afro-americano de defesa dos direitos civis e denunciar a categoria pardo (termo intermediário entre branco e preto que designa as pessoas de aparência física mista) a fim de mobilizar todos os brasileiros de ascendência africana a partir de uma oposição dicotômica entre "afro-brasileiros" e "brancos" no preciso momento em que, nos Estados Unidos, os indivíduos de origem mista se mobilizam a fim de que o Estado americano (a começar pelos Institutos de Recenseamento) reconheça, oficialmente, os americanos "mestiços", deixando de os classificar à força sob a etiqueta exclusiva de "negro"? (Spencer, 1997; DaCosta, 1998). Semelhantes constatações nos autorizam a pensar que a descoberta tão recente quanto repentina da "globalização da raça" (Winant, 1994 e 1995) resulta, não de uma brusca convergência dos modos de dominação etno-racial nos diferentes países, mas antes da quase universalização do follk concept norte-americano de "raça" sob o efeito da exportação mundial das categorias eruditas americanas”.

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