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Zabé da Loca, 99 anos



Isabel Marques da Silva nasceu em 1924, ali perto de Buíque, nas veredas do Vale do Catimbau pernambucano. Cabocla miúda e de olhos azuis, passou a infância entre as pedras, plantando, caçando e pescando feito índia. Ainda pequenina, viu o irmão Aristides, que havia fugido da estiagem, voltar para casa com uma flautinha de taboca -- um pífano rudimentar -- e tocar o assobio mais alegre que já ouvira. Foi Ari quem lhe ensinou a tocar, mas logo depois disso sumiu para nunca mais ser visto. Dali em diante Zabé nunca mais largaria o “pife”.


Dos quinze irmãos, Zabé perdeu oito para as secas. Mas antes que chegasse sua vez, seu pai tomou o rumo do Planalto da Borborema, entrou em terras paraibanas e fincou pé na pequena Monteiro, a futura “Princesa do Cariri”. Ali pelos sítios a jovem Zabé passava a vida ao largo da cidade trabalhando na roça, nas casas, no que tivesse para hoje, e nas horas vagas ia pro mato tocar pife para os passarinhos. Ainda muito nova casou-se com um peão de nome Delmiro e logo foi morar com ele numa taipa ao pé da serra do Tungão.


Muito humildes, Zabé e Delmiro tiveram apenas três filhos: uma menina que não puderam criar, um menino que cresceu doente e outro que os ajudava na roça e de noite tocava pife com a mãe. Quando muito cedo Delmiro morreu, Zabé ficou sozinha com os dois meninos no frágil casebre até vê-lo sucumbir num temporal de verão.


Sem teto, Zabé e os meninos subiram juntos a serra e se abrigaram sob a maior gruta que ali encontraram. Durante meses dormiram quase ao relento, enquanto erguiam as paredes de taipa que fechariam a morada. De manhã iam para a roça, de tarde iam pro rio e no fim do dia cozinhavam a janta num fogareiro de pedra enquanto faziam música. Apesar das dificuldades, a loca de Zabé sempre recebia visitas e sua pessoa era muito querida pela comunidade monteirense. Zabé contava com ajuda de muitos, sobretudo da menina Josivani, a quem caberia seus cuidados na velhice, e não raramente era vista tocando pife com o filho e os amigos na roça, divertindo a molecada.


Foram vinte e cinco anos vividos na loca, e seriam muitos mais não fosse a lenda da velha pré-histórica que tocava flauta na caverna ter começado a se espalhar na Paraíba. Em 1994, o causo de Zabé da Loca chegou aos ouvidos de uma Coordenação de Ação Cultural da Secretaria de Reordenamento Agrário, entidade que em parceria com a Fundação Quinteto Violado buscava identificar manifestações culturais no Semiárido Nordestino. Após algumas visitas à loca, os curiosos finalmente convenceram Zabé a reunir seus aprendizes de pife e ir se apresentar na capital João Pessoa.


Ela foi e a verdade é que fez grande sucesso. Conheceu o pessoal do projeto Dom Helder Câmara, que lhe convidou para mais uma apresentação, e depois chegou à turma da Agência Ensaio, que lhe propôs gravar seu primeiro álbum musical. Em 1995, aos 71 anos, Zabé da Loca lançava o compacto “Da idade da pedra”, série de interpretações com edição limitada que nem sequer chegou às lojas, mas que ainda lhe renderia bons frutos.


Nos anos seguintes, com a repercussão do EP, Zabé foi convidada para tocar em muitos festivais. Se apresentou em teatros com orquestras de câmara, com pífanos de todas as partes, com maestros e aprendizes de todas as idades, e em 1997 gravou mais um compacto intitulado “Canto do Semiárido”, agora com composições próprias, tais como “Fulô de mamoeiro”, "Balão" e "Araçá cadê mamãe ", além de uma versão pifeira de "Asa Branca" que até hoje toca nas rádios.


Mas também foi nessa época que Zabé passou pela grande tristeza de sua vida: seu filho mais velho e maior parceiro de pife morreu. Zabé então voltou para a loca e recolheu-se em luto por anos, contando apenas com a amiga Josivani, que lhe acompanhava sempre. Somente em 2003, quando finalmente recebeu uma escritura do INCRA, é que aceitou deixar sua loca para morar numa casa de alpendre no Assentamento Santa Catarina, ali mesmo em Monteiro. A felicidade foi grande, e logo todos souberam: Zabé voltara a tocar.


Ainda naquele ano, aos 79 anos, cada vez mais pequenina e curvada, Zabé recebeu em João Pessoa o título de Cidadã Paraibana e o Prêmio Mulher Forte Ana Maia. Depois retornou ao Pernambuco consagrada como a grande atração do tradicional Festival de Brincantes. Gravou ali mesmo seu terceiro disco, o primeiro com lançamento comercial, reunindo cirandas, xotes, côcos e baiões.


Em 2004, sempre ladeada por Josivani e seu grupo de Monteiro, Zabé comemorou a oitava década de vida numa turnê na capital do Brasil. No Planalto Central, acompanhou o músico Carlos Malta em duas apresentações no Centro Cultural Banco do Brasil e depois foi de avião a São Paulo para se apresentar com Hermeto Paschoal no Fórum Mundial de Cultura. De volta à Paraíba, foi agraciada com o título de Mestre das Artes da Secretaria de Educação e Cultura do Estado e soube, no início de 2005, que duas faixas de seu último disco haviam selecionadas e incluídas na coletânea Nordeste Atômico, lançada no Japão.


A banda de Zabé da Loca, por ela regida e composta por dois pifes, um tarol, um prato e uma zabumba, mesmo sem a formação original, continuava a despertar curiosidade e espanto nas editorias de música do país. Mas Zabé já passava dos 80 e resistia a sair de Monteiro para qualquer canto. Preferia se dedicar ao projeto educacional que a prefeitura criara, da qual fazia parte como professora de pife, o pífano brasileiro. Eram mais de 80 alunos para dar conta, o que ela fazia com tamanha alegria. Mas outros grandes feitos ainda estavam por vir.

Em 2007, a convite do selo Crioula Records e sob direção artística de Carlos Malta, Zabé voltou à maior metrópole brasileira para gravar o disco “Bom Todo”, título que reproduzia sua expressão favorita ao se agradar. Referida nos jornais como “Rainha do Pífano”, Zabé chegava enfim ao auge da tardia carreira musical, sendo eleita "Revelação do ano", no Prêmio da Música Brasileira e recebendo, das mãos do então ministro Gilberto Gil, a Ordem do Mérito Cultural, maior condecoração cultural do país.


Com 84 anos, Zabé voltou para Monteiro e prometeu não mais sair de lá. Vez ou outra recebeu equipes de reportagem de várias emissoras, além de jornais e revistas. Em todas as ocasiões, exceto uma, rejeitou o pedido dos repórteres para que os levassem na sua loca. Não queria voltar. Na única e última vez que aceitou já estava quase surda e sofria para respirar. Havia largado o pife em troca do cigarro, alegando cansaço. Mas subiu a serra do Tungão com curiosa destreza, entrou na loca perfeitamente preservada e lá dentro caiu no choro. Deitou-se na cama de varetas, mexeu no fogareiro, disse para Josivani que se pudesse voltaria para lá, “pois esse canto sim é o meu”.


Zabé da Loca viveu até os 93. Passou seus últimos anos no alpendre, na cadeira de balanço, sendo cuidada pela grande amiga Josivani. Morreu de causas naturais e foi enterrada no cemitério municipal de Monteiro com grandes honras, descansando em seu jazigo com o pife entre as mãos, tudo exatamente como deveria ser.

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