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184 Anos de Machado de Assis, o Bruxo do Cosme Velho

Dia 21 de junho seria o aniversário do maior escritor brasileiro e patrono da Imprensa Nacional, Joaquim Maria Machado de Assis. Aproveitamos a data para refletir brevemente sobre o papel de Machado de Assis na consolidação da literatura nacional, segundo ele próprio, ainda adolescente no século XIX.


"Ao lado de Camões, Machado de Assis é um dos maiores estilistas da língua portuguesa, consolidando uma literatura de cariz nacional, mobilizando a busca por um modo de se expressar que fosse, com efeito, brasileiro".

Realismo x romantismo?


Embora salte aos olhos que a obra do Bruxo tenha duas fases bem demarcadas, é no mínimo inadequada sua classificação como "romântica" e, em seguida, "realista". Essa classificação é mais usada para simplificação didática, só serve para exames como Enem. E olha que estamos desconsiderando o fato de o escritor ter começado na poesia, no teatro e na crítica literária -- "Crisálidas", seu primeiro livro de poemas, fora publicado em 1964, e Ressureição, seu primeiro romance, foi lançado em 1872.


Aliás, não é desarrazoado defender que a 1ª fase do romance machadiano, efetivamente, traga críticas ao romantismo, ainda que sutis. Já nessa altura, é possível observar o desenvolvimento embrionário da perspectiva amadurecida em um Dom Casmurro, como a descrição quase analítica e a observação relativamente distanciada da personalidade feminina -- pelo menos em comparação com o cânone romântico. Além disso, já está presente, também em desenvolvimento embrionário, a ironia que marca o estilo do autor.


A partir de um molde (o enredo e alguns mitos) tipicamente romântico, ele subverte o romantismo de dentro, se temperando para a fase seguinte, tida, outrossim erroneamente, como realista. Ora, por que vocês acham que Machado foi chamado de Bruxo do Cosme Velho? Bruxos e magos também manipulam palavras. No inglês, soletrar e magia têm origem no mesmo vocábulo e há sete poemas em língua galesa atribuídos a Myrddin-Merlim, o Mago.


Machado troçava do realismo enquanto movimento literário e do positivismo (vide o Humanitismo de Quincas Borba), uma das suas fontes:

" (...) a realidade é boa, o realismo é que não presta para nada."

"Voltemos os olhos para a realidade, mas excluamos o Realismo, assim não sacrificaremos a verdade estética."


Instinto de nacionalidade


No texto "Notícia da atual literatura brasileira: Instinto de nacionalidade", publicado pela em 24 de março de 1873, em O Novo Mundo, Machado de Assis reflete sobre o que faz de um escritor um escritor de seu país, pari passu em diálogo com o cânone literário universal, demonstrando que, sim, o Brasil tem todas as condições e motivos históricos para uma poderosa nacionalidade literária:


"Não há dúvida que uma literatura, sobretudo uma literatura nascente, deve principalmente alimentar-se dos assuntos que lhe oferece a sua região; mas não estabeleçamos doutrinas tão absolutas que a empobreçam. O que se deve exigir do escritor antes de tudo, é certo sentimento íntimo, que o torne homem do seu tempo e do seu país, ainda quando trate de assuntos remotos no tempo e no espaço. Um notável crítico da França, analisando há tempos um escritor escocês, Masson, com muito acerto dizia que do mesmo modo que se podia ser bretão sem falar sempre do tojo, assim Masson era bem escocês, sem dizer palavra do cardo, e explicava o dito acrescentando que havia nele um scotticismo interior, diverso e melhor do que se fora apenas superficial."


Se temos um escritor que foi homem do seu tempo e da posteridade, do Brasil, da França e da Escócia, este escritor é Machado de Assis, que só não entrou no cânone literário universal já no início do século XX porque não era francês ou inglês. Sua universalidade hoje é confirmada pelas inúmeras traduções de suas obras.


É do supramencionado "Crisálidas" o verso que anos depois seria usado como divisa da Academia Brasileira de Letras, perfeito para sintetizar a magnitude de Machado de Assis, com o que concluímos esta breve homenagem:


"Esta a glória que fica, eleva, honra e consola."

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