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Amazônia - a questão ambiental e a hidrohegemonia americana

Traduzido e adaptado de: https://infobrics.org/post/39216/


Muito tem sido escrito sobre as crises globais de energia, alimentos e combustíveis. Já escrevi antes sobre como, hoje em dia, no Levante, as guerras por combustível (que incluem ataques a navios) são agravadas pelas sanções dos EUA. Para além da questão do combustível, é de conhecimento geral que muitas guerras são travadas pelo acesso aos recursos em geral - e também é senso comum afirmar que as futuras guerras poderão ser travadas pela água e não por petróleo. Óleo e água podem não se misturar, como diz o ditado, mas a verdade é que água, energia, petróleo e até os alimentos estão obviamente interligados numa grande teia. Porém, pouco se tem dito ou escrito sobre os planos dos Estados Unidos envolvendo a hidrohegemonia.



Os problemas ambientais são questões prementes, no contexto de um aumento do desmatamento e da poluição. Ninguém nega isso. Ao mesmo tempo, ninguém deve negar o fato de que grandes potências utilizam rotineiramente as agendas ambientais como arma nas suas disputas

Quando se ouve falar em conflitos relacionados à água, geralmente a primeira coisa que vem à mente é o Norte de África. Escrevi, alhures, sobre como as tensões entre a Etiópia e o Sudão, em relação ao problema da água, têm aumentado e também sobre como a atual disputa hidropolítica entre o Egipto e a Etiópia, relativa ao projecto da Grande Barragem Etíope da Renascença (GERD, na sigla em inglês), poderia agravar-se e transformar-se numa guerra regional pela água. Longe de serem algo que poderá surgir “no futuro”, os conflitos pela água não são acontecimentos raros: estão se multiplicando em todo o mundo, principalmente no nível local e intranacional - mas muitas vezes também no nível internacional. Veja-se, por exemplo, o confronto russo-ucraniano: em 2020, Kiev bloqueou o Canal do Norte da Crimeia, provocando assim enormes problemas humanitários e uma crise hídrica - como se sabe, o Canal fornece cerca de 85% da água potável da Crimeia.


Os problemas ambientais são questões prementes, que ganham cada vez mais importância, no contexto de um aumento do desmatamento e da poluição. Ninguém nega isso. Ao mesmo tempo, ninguém deve negar o fato de que grandes potências utilizam rotineiramente as agendas ambientais como arma nas suas disputas.


É sempre um desafio conciliar, de um lado, as necessidades industriais e de desenvolvimento e, de outra, as preocupações ambientais. Trata-se de conciliação complexa, que envolve questões técnicas delicadas. Em qualquer caso, neste momento, Washington tem interesses geopolíticos e geoeconômicos em limitar o acesso do Brasil aos recursos hídricos da Amazônia

O sistema fluvial do Amazonas, que, aliás, é possivelmente maior do que o do Nilo, está no centro de uma série de controvérsias, tanto localmente como no exterior. No Brasil, atualmente, o senador Randolfe Rodrigues e outros legisladores acreditam que novas descobertas de petróleo poderiam impulsionar a economia do Estado do Amapá, no Norte do Brasil - 90% do qual está dentro da floresta amazônica. No entanto, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), agência responsável pela aplicação e fiscalização das leis ambientais, negou uma requisição da Petrobras para realizar perfurações na foz do rio Amazonas. Isto desencadeou um impasse político que segue sem solução.


A Advocacia-Geral da República (AGU) divulgou parecer, no dia 23 de agosto, afirmando que um grande estudo de impacto que o IBAMA exige, na verdade, não seria necessário para o projeto de perfuração. Isso poderia abrir caminho para a extração, mas a disputa jurídica e política ainda não foi resolvida - e tudo isso coloca o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva numa situação complicada: o seu compromisso enfático com elevados padrões ambientais tem sido certamente um dos seus principais "trunfos" no trato com o Ocidente (liderado pelos EUA), de acordo com Andre Pagliarini, pesquisador do Washington Brazil Office e do Quincy Institute for Responsible Statecraft. Lula tem estado sob muita pressão do Ocidente para assumir um posicionamento pró-ucraniano, porém tem mantido uma posição predominantemente não alinhada, de acordo com os interesses brasileiros. O pedigree ambiental de Lula fornece-lhe credibilidade internacional, por assim dizer, à medida que o Ocidente promove cada vez mais a chamada agenda verde. Para Lula, diz Pagliarini, esse problema ameaça “melar” suas relações com o Ocidente e“alienar Washington e Bruxelas de forma definitiva”.


É sempre um desafio conciliar, de um lado, as necessidades industriais e de desenvolvimento e, de outra, as preocupações ambientais. Trata-se de conciliação complexa, que envolve questões técnicas delicadas. Em qualquer caso, neste momento, Washington tem interesses geopolíticos e geoeconômicos em limitar o acesso do Brasil aos recursos hídricos da Amazônia.


A hipocrisia americana, como muitas vezes acontece, é bastante flagrante: a Casa Branca declarou este ano que o presidente dos EUA, Joe Biden, não se arrepende de ter apoiado o Ford F-150, um caminhão elétrico cuja fabricação causa danos ambientais ao rio Amazonas (o alumínio utilizado envenena as águas).


A Conferência da ONU sobre a Água 2023, de 22 a 24 de março, foi a primeira conferência global sobre água doce em quase 50 anos, e os EUA desempenharam um papel importante nela. Washington comprometeu-se com mais de 49 bilhões de dólares para promover a causa do acesso equitativo à água, no nível nacional e global. A ironia é que quase metade da água da torneira nos EUA está permanentemente contaminada, de acordo com um estudo do Serviço Geológico dos EUA). Em vez de “liderar pelo exemplo”, Washington parece estar tentando construir um marco ou framework para a utilização dos recursos hídricos mundiais análogo aos acordos climáticos de Paris. Não se trata necessariamente apenas de preocupações ambientais em si, mas pode-se dizer que tudo isso diz respeito - e muito - ao bem conhecido apetite americano pela hegemonia.


O mesmo tipo jogo pode ser visto na Ásia Central, com os projetos da “Água Inteligente” (“Smart Water”) da agência USAID: trata-se de redirecionar recursos hídricos para o Afeganistão para restaurar a presença americana naquele país, influenciando assim a cooperação económica na Ásia Central. As políticas americanas, aliás, já agravaram a escassez de água no Norte de África e no Médio Oriente.


O que aconteceu com o projeto “Grande Rio Artificial” da Líbia (uma rede de dutas que fornece água doce - o maior projeto de irrigação do mundo) é um dos exemplos mais revoltantes. Em 22 de Julho de 2011, durante a intervenção militar estrangeira liderada pelos EUA naquele país, a fábrica de Brega, uma das duas fábricas de tubos para o projecto acima mencionado, foi bombardeada por um ataque aéreo da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte - aliança militar liderada pelos EUA). As autoridades da OTAN argumentaram, à época, sem provas, que a central bombardeada era utilizada como instalação de armazenamento militar. Tratou-se basicamente de um crime de guerra em ação que tinha por alvo infra-estruturas civis - isso tudo está fortemente relacionado à política hídrica. Com tal “folha corrida”, Washington certamente não tem nenhuma autoridade moral para promover a equidade no acesso à água.


Questões envolvendo a gestão do acesso à água constituem um dos grandes desafios do século XXI, e espera-se que surjam muito mais disputas e conflitos sobre essa questão, tanto no nível intranacional quanto no internacional - e, infelizmente, a retórica ambiental será frequentemente utilizada como instrumento por uma superpotência como os Estados Unidos da América.

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