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Brasil: entre os escombros de um golpe fracassado




Em alguns apoiadores do Bolsonaro e antipetistas existe a ilusão de que domingo vivemos algo diferente de uma tentativa de golpe. Alegam que a multidão que vandalizou as sedes dos Poderes não estava armada, que não tinha uma intenção clara. É uma tentativa de relativizar o ocorrido e colocá-lo no âmbito do "vandalismo", da irracionalidade da turba.


Mas a tentativa de golpe foi evidente. Com intenção, planejamento e estratégia. Com líderes, organizadores, simpatizantes entre autoridades públicas, e financiadores.


O ato foi realizado por uma multidão que durante meses se encontrava acampada diante de quartéis pedindo intervenção militar contra o resultado das eleições. Que pedia fechamento do STF, prisão de Alexandre de Moraes e desejava impedir a posse de Lula.


Permaneceram diante dos QGs militares porque têm simpatizantes na cúpula, como os tuítes de Eduardo Villas Bôas revelam explicitamente; como o atual Ministro da Defesa, José Múcio, revelou ao dizer que tinha amigos e familiares no acampamento [óbvio que ele queria dizer que havia amigos e familiares dos militares da reserva e quiçá da ativa].


Têm simpatizantes conhecidos no sistema político-partidário, no Patriotas, no PL, no União Brasil e em outros partidos, que estão até agora tentando visitar os detentos no ginásio em que passam por triagem antes de serem remetidos a presídios.


Têm financiadores entre empresários de diversas atividades, principalmente de certos setores do agronegócio e do comércio, que bancam ônibus, recursos materiais e até doam grana para os acampamentos. Tem apoio de diversos pastores, que fornecem sustentação ideológica, mobilizam fiéis e se fazem presentes nos atos.


Mais ainda, tinham proteção explícita da Polícia do Distrito Federal, que escoltou a turba até a Esplanada dos Ministérios, e que era comandada por Anderson Torres, ex-Ministro de Bolsonaro que um dia antes do ocorrido zarpou para tirar "férias" nos EUA.


Óbvio que o plano era desestabilizar o governo. Ocupariam os prédios e clamariam manifestações de apoio nos estados, levando o país à crise institucional buscando fragilizar o governo em seu início, quem sabe dando condições para que Bolsonaro negociasse uma anistia para os crimes dos quais será acusado muito em breve e preparando uma queda prematura de Lula. Talvez levariam a um clamor por conciliação nacional, em que Bolsonaro, que fugiu para os EUA antes da posse de Lula, retornaria ao Brasil com capital político renovado. Nos delírios mais acachapantes, Lula cairia e outro assumiria em seu lugar, e o poder do STF seria sacudido, quem sabe até mesmo sob impacto da insubordinação de polícias e FAs.


Claro que estas possibilidades estavam fora da realidade, o que não impede que os golpistas acreditassem na própria capacidade de alcançá-las. Seja como for, leram muito mal o cenário e trocaram os pés pelas mãos, como diversas outras tentativas de golpe em nossa História.


É bem provável que o governo soubesse que eles tentariam um golpe, mas em vez de agir preventivamente, o que poderia causar problemas diante de boa parte do público, esperaram o erro dos golpistas. É uma estratégia para acuá-los de vez deslegitimá-los, promover uma pequena caça às bruxas e fortalecer a própria posição neste semestre, usando a tentativa de golpe para "unir" o sistema político ao seu redor em nome da "defesa da Democracia". É um xadrez político, e o mérito é de quem soube posicionar melhor as peças, dominar o tabuleiro e antever jogadas.


Lula e Alexandre de Moraes saíram empoderados. O bolsonarismo perdeu toda a legitimidade. Os possíveis protestos bolsonaristas que seriam chamados em apoio à fracassada ocupação, se mantidos, vão fornecer ainda mais motivos para o cerceamento do movimento, a prisão de Bolsonaro, cassação de parlamentares e destruição das lideranças direitistas.


Os mais radicais podem empreender ações ainda mais violentas, como os ataques contra Torres de Transmissão ou as tentativas de plantar bombas, além de assassinatos políticos, mas só darão munição para o sistema que vai se abater sobre eles.


A tentativa de golpe bolsonarista fracassou. Era óbvio há meses e meses que fracassaria, que a correlação de forças era desvantajosa para Bolsonaro e sua trupe, e que eles seriam usados para fortalecer a cúpula da Nova República em sua fase autoritária de "Democracia Militante".


A longo prazo, no entanto, o novo "Império" civilista cujo Poder Moderador está encarnado em Alexandre de Moraes não tem qualquer chance de perdurar se não forem entregues resultados socioeconômicos e se não atraírem para a coalizão de forças a militância conservadora. Mas isto esbarra na própria arquitetura política que modela e domina a Democracia Militante, cuja ideologia é o social-liberalismo "identitário".


Nada indica o fim da crise de legitimidade.

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