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Darcy Ribeiro, discípulo de Rondon (discurso de Mão Santa)


Discurso de Mão Santa, de 03 de maio de 2007


Senador Gerson Camata, que preside esta solenidade em homenagem a Cândido Rondon; Srªs Senadoras; Srs. Senadores; autoridades presentes, peço permissão - são tantas as autoridades, que, involuntariamente, eu poderia esquecer alguns nomes, o que seria imperdoável - para saudar, com a força da genética, todas as autoridades na pessoa do neto de Rondon.



Marechal Rondon

Brasileiras e brasileiros aqui presentes e os que nos assistem pelo sistema de comunicação do Senado Federal, sou do Piauí. Aqueles Estados por onde Rondon andou tiveram história diferente. No Piauí, não foi Rondon, mas, sim, Jorge Velho, um português, que matou muitos índios.


Atentai bem! Muitos dos meus Pares já homenagearam Rondon, mas, mesmo assim, também farei uma homenagem a ele. Entendo que uma das funções do Senado da República, Senador Gerson Camata - e aqui estamos para isso -, é o debate de idéias, para despertarmos o povo brasileiro, para fazermos leis boas e justas, para fiscalizarmos o Governo. Aqui, despertamos idéias. Somos nós que temos essa função! E esta homenagem a Rondon foi uma boa idéia.


Aqui estou para trazer à baila o pensamento do Senado, que eu represento como Senador. São 181 anos.


Senador Gerson Camata, quis Deus que V. Exª estivesse na Presidência. V. Exª merece aí estar. Deus escreve certo por linhas tortas.


Qual é a minha ligação com Rondon? Ele morreu em 1958. Lembro-me de que, à época, eu estava interno no Colégio Marista, em Fortaleza, torcendo pelo Brasil, que foi campeão. Eu não conheci Rondon. Eu o conheço por intermédio dos estudos e da Literatura. Mas ele nos marcou muito. Estudávamos sobre ele na escola. Havia escolas sérias, e nós conhecemos a história.


Senador Camata, estou aqui, representando o Piauí; e o Estado que V. Exª representa entra na história. Fui médico, porque quis, numa Santa Casa, onde procurava “fazer o bem sem olhar a quem”. De repente, chegou à minha cidade o que o País tem de mais belo: a juventude do Espírito Santo. Instalou-se um Campus Avançado Rondon, lá em Parnaíba. Então, eu, um jovem médico, acolhi aqueles que faziam Medicina e os levava para a Santa Casa. Um bem nunca vem só. Isso acabou no Brasil. O Campus era tão importante, que muitos ficaram e por lá se casaram. Juntaram-se o Piauí e o Espírito Santo, dando uma melhor gente para este Brasil! Mas ele desapareceu, e Deus me permitiu ser Governador do Estado. O Campus Avançado era tão grande - e eu já o conhecia, porque tive contato com os meninos do Projeto Rondon -, principalmente com toda aquela juventude que se integrava Brasil afora.


Senador Gerson Camata, como eu já tinha conhecimento da existência do Campus, fui à universidade do Estado de V. Exª e o consegui, como Governador. Hoje, na minha cidade, há um centro de fisioterapia - imaginem! -, um hemocentro e ainda mais a Polícia Federal no Campus Avançado. Tenho saudade. Mas foi uma boa idéia do governo revolucionário.


Quem podia expressar melhor do que o Camata, do que o Mão Santa, do que os valorosos Senadores de Mato Grosso do Sul, de Mato Grosso, de Rondônia e do Acre todo esse pensamento? Sem dúvida alguma, está aqui: Darcy Ribeiro, discípulo de Rondon! Aprendemos que Sócrates teve Platão como discípulo, que Platão teve Aristóteles como discípulo. O saber chega até nós. Darcy Ribeiro foi discípulo de Rondon. Ninguém mais do que ele podia traduzir o Senado, que deve ser a única instância de ideal e de respeito para com a Pátria. Essa é a história do Senado!



Darcy Ribeiro

Este livro tem o prefácio de Senador Pedro Simon. Quero dizer que, na história deste Senado, João Calmon, Darcy Ribeiro e Cristovam Buarque marcaram época, sonhando sobre educação no Brasil.


O que dizia Darcy Ribeiro? Senadora Serys, aprenda isso e leve ao Partido de V. Exª o que disse Darcy Ribeiro. Leve isso às professoras do Brasil, ao Presidente Luiz Inácio. Leve apenas o que disse o discípulo de Rondon - aliás, estas palavras foram mencionadas pelo Senador Expedito Júnior: “Matar nunca, morrer se for preciso”. Leve ao nosso Presidente da República, Senadora Serys, V. Exª que é professora, a mensagem do melhor discípulo de Rondon: “Se dermos comida e escola às crianças, elas farão o Brasil grande do nosso sonho”.


Mais adiante, Senador Camata, o historiador comete um erro. Estamos aqui para consertá-lo, Camata. O historiador faz uma análise do primeiro discurso do nosso Senador Darcy Ribeiro, citando: “As causas do atraso”. O historiador, ao apresentar o livro, comete um erro ao dar a Darcy a autoria da frase que diz que “aqui é melhor do que o céu, porque, para ir para o céu, é preciso morrer”. Esta frase não é dele; é de Dinarte Mariz. Darcy a repetiu várias vezes, como eu também repito algumas aqui, como as de Petrônio. Era um sujeito agradável nosso Darcy, que repetia tanto essa frase, que o autor do livro pensou que ela era dele. Isso é normal.


O primeiro discurso de Darcy - atentai bem que esta é a homenagem do Senado, que deve ser a maior instância de ideal, de esperança do País! - foi proferido em 20 de março de 1991. Já estávamos aqui, Camata. O Camata tem muitos quilômetros rodados.


É dito: “Em dia 20 de março de 1991, Darcy Ribeiro fez seu discurso de estréia no plenário do Senado Federal”. Fala-se das causas do atraso: “Um tempo sem Rondon”. Foi o primeiro discurso daquele que foi a luz para a educação, proferido em 1991. Disse o Senador Darcy Ribeiro:


"Invoco, primeiro, o herói de minha juventude e dos primeiros passos de minha vida profissional - o Marechal Rondon. Ele foi, a meu ver, o maior dos brasileiros no plano humanístico. Com Rondon aprendi a amar e a respeitar a natureza brasileira e, especialmente, os índios"

Depois, fala dos militares, da Funai. E prossegue:


"Com Rondon, invoco, também, meu amigo Marçal Tupã’i(1) - um dos homens de mais alta espiritualidade que conheci. Foi ele que saudou o Papa, quando de sua visita ao Brasil. Foi também ele que fez o Santo Padre dizer, na missa de Manaus, os nomes de cinco líderes índios assassinados. Poucos anos depois, Marçal foi, ele também, assassinado".

 Para concluir o pensamento de Darcy, leio o que ele ainda disse:


"Só me cabe dizer aqui, agora, lamentando sentidamente, que esta nossa Nação brasileira não precisa mais de índio nenhum para existir. Mas não existirá jamais, em dignidade e vergonha, se deixar morrerem - morrerem até de suicídio - os poucos índios que sobreviveram(...)."


Senador Camata, Darcy Ribeiro escreveu sobre Rondon em O Indigenista Rondon, na Separata da Revista Cultura, e em Cândido Mariano da Silva Rondon, na Separata da Revista de Antropologia da USP. E há mais um livro: A Obra Indigenista de Rondon. Ele tem vários livros como O Povo Brasileiro: a Formação e o Sentido do Brasil, em que fala da formação do povo do Brasil; é seu melhor livro. Mas, no último, Senador Gerson Camata, Confissões, ele se despede com uma sinceridade extraordinária e conta que esteve na hora final, no momento da morte de Rondon.


Senador Camata, feliz do povo que não precisa buscar exemplos em outras histórias, em outros países. O exemplo está aqui: é Rondon.


Muito obrigado.



NOTAS


1 - O brasileiro Marçal de Souza Tupã'i foi uma liderança da etnia guarani, pregador e líder cristão e pioneiro do movimento indígena no Brasil, tendo sido também intérprete e interlocutor de antropólogos como Darcy Ribeiro, Roberto Cardoso de Oliveira, Egon Schaden e outros. Foi assassinado a tiros por fazendeiros.

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