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Lima Barreto, um Imortal

Rio de Janeiro, 13 de maio de 1909


O Sol vai alto na capital da república. Um jovem mulato, de paletó desgrenhado e caminhar resoluto atravessa a praça botafogana. Seu nome é Afonso Henriques de Lima Barreto, um ignoto que trabalha como amanuense ali próximo, no Ministério da Guerra. Traz consigo uma pasta cheia de textos e alguns selos do Museu Postal, nos quais figuram as efígies do Marechal de Ferro. Vai aos Correios para entregar uma carta que contém duas notícias para o amigo Noronha: está sem dinheiro para viver, e seu primeiro livro finalmente está pronto.



Lima Barreto, que naquele dia completava 28 anos, nascera por ali mesmo nos arredores do Largo do Machado, exatos sete anos antes da Lei Áurea. Filho primogênito de mestiços pobres, vira sua mãe Amália Augusta, professora do primário, morrer quase às vésperas do decreto real, enquanto o pai João Henriques, tipógrafo, tornava-se um fardo devido às crescentes perturbações mentais. Desde então, Barreto fora obrigado a trabalhar para o sustento dos três irmãos menores.


Mas, por sorte, um apoio pretérito do pai à causa monarquista lhe havia legado um padrinho abastado e de suma importância para sua vida: o Visconde de Ouro Preto, cuja ajuda financeira permitiria a Barreto estudar e terminar o secundário no Colégio Pedro II, um dos mais tradicionais da capital.


No início daquele século, o Rio de Janeiro fervilhava com a chegada de grandes contingentes de imigrantes europeus e ex-escravos, atraídos pela oferta de trabalho assalariado. A população crescia em ritmo acelerado e os cortiços se multiplicavam pela Cidade Velha e adjacências, convivendo com as pestes de febre amarela, varíola, cólera-morbo e de extrema pobreza. Ao mesmo tempo, obras modernizantes buscavam dar à cidade que até pouco tempo fora capital do Império uma aura nova, mais próxima dos ideais republicanos e positivistas.


Em suas andanças diárias de casa para a escola e dali para o trabalho, Barreto transitava entre estes dois mundos e desenvolvia uma visão tenaz sobre aquela evolução. Pensava em tornar-se engenheiro para trabalhar nas obras e até chegou a se matricular no curso da Escola Politécnica, mas a doença do pai e a precisão de dinheiro o impedira de progredir, de modo que resolveu prestar concurso de escrivão. Foi aprovado em 1904 e logo assumiu a vaga que manteria até o fim da vida, a de amanuense — responsável direto pelas circulares do Ministério da Guerra, que frequentemente enviava aos jornais seus ditames e querelas.


Foi por este meio que Lima Barreto chegou ao jornalismo. Em 1905, uma série de textos seus comentando o progresso da cidade seria publicada pelo Correio da Manhã. Desta mesma data, uma carta íntima enviada ao amigo Mário Galvão traduzia seu sentimento sobre o assunto:


“Ontem inaugurou-se a avenida. Stá bonita; cheia de canteirinhos, candelabros, etc.; mas os edifícios são hediondos, não que sejam feios. Ao contrário, são garridos, pintadinhos, catitas; mas lhes falta, para uma rua característica de nossa pátria, a majestade, a grandeza, acordo com o local, com a nossa paisagem solene e mística. Calculas tu que na cidade de granito, na cidade dos imensos monólitos do Corcovado, Pão de Açucar, Pico do Andaraí, não há na tal avenida-montra, um edifício construído com esse material. Choveu a mais não poder, assim mesmo ela esteve cheia, de tropa e de povo”.


Bom de pena, Barreto logo ganhou espaço no meio jornalístico. Publicou também no Jornal do Commercio e no Jornal do Brasil, e, em 1907, integrou a equipe fundadora da, hoje clássica, revista Fon-Fon, do poeta Mário Pederneiras. Mas como sua relação com Pederneiras não era das melhores, demitiu-se no mesmo ano e deu início à sua primeira empreitada literária, a revista Floreal, assim nomeada em homenagem ao calendário revolucionário francês. Ali, Barreto observava o universo da imprensa e discutia a cultura escrita local, criticando o parnasianismo inacessível das altas castas ao mesmo tempo em que adotava uma linguagem epistolar e coloquial.


É mais ou menos por aí que Barreto começa a incomodar.


Tido por muitos como um vadio — ou um flâneur, como no poema do Baudelaire –, Barreto estava sempre andarilhando, bebendo e se metendo nos cantos da cidade que tanto o entristecia quanto maravilhava. Tal como o Bruxo do Cosme Velho, a quem admirava profundamente, era antes de tudo um carioca da gema, fadado ao olhar cáustico e satírico sobre a vida urbana. E naquela Primeira República, em que os signos do Império iam a cada dia sendo soterrados pela nova ordem militaresca, seu mundanismo literário excessivo era visto quase sempre como um tipo escabroso de degeneração. É por isso que Lima Barreto faz da revista Floreal sua praça de combate, nela manifestando o desejo de oferecer aos novos escritores um caminho alternativo para “escapar às injunções dos mandarinatos literários”.


Em 1908, ano da morte de Machado de Assis, Barreto publicou na Floreal aqueles que seriam os primeiros capítulos de “Recordações do Escrivão Isaías Caminha”, seu primeiro romance. Mas a publicação já não ia bem (sua edição mais vendida distribuíra apenas 38 cópias) e as dificuldades financeiras lhe impediam de continuar.


Pobre e sem vintém, Barreto encerra esta empreitada na quarta edição e se distancia dos jornais. É graças às cartas trocadas com Mário Galvão e Antônio Noronha, seus melhores e mais antigos amigos, que sabemos da tristeza e da apatia que o abateram nesses tempos. Desgostava o trabalho com os militares, desgostava a cidade, os jornais, os projetos pessoais malogrados, o governo dos Estados Unidos do Brasil… Desgostava a vida.


Mas é também numa carta, esta particularmente jocosa, em que Antônio Noronha lhe caçoa a péssima caligrafia, que os ventos começam a mudar. O confrade, que por aquelas estava em Lisboa, informa a Lima Barreto que financiará a conclusão do seu bendito livro desde que o termine até o ano que vem.


É 1909. Estamos novamente na praça que Barreto chamava “botafogana”. É o seu aniversário de 28 anos e ele traz numa pasta a carta para Noronha e a versão revisada das “Recordações do Escrivão Isaías Caminha”, um texto quase autobiográfico que logo mais será enviado ao editor português Antônio Maria Teixeira, da Livraria Clássica de Lisboa, também amigo do Noronha. O texto acompanha a trajetória de um jovem mulato que, vindo do interior, sofre com o preconceito racial e de classe no Rio de Janeiro. Traça ainda uma sátira implacável ao jornalismo daquela cidade e aos círculos eruditos que o cercavam. Assim como outras tantas obras da época, o livro é inicialmente publicado em Portugal, mas chega ao Brasil no final do mesmo ano pelas mãos do livreiro Francisco Alves, que em menos de um mês esgota suas cópias.


Vinda de fora, a verve satírica de Lima Barreto é recebida com inesperada atenção. Acentua-se o fato de que as personagens são obviamente pessoas reais que circundavam o autor, mas cujos nomes haviam sido modificados de modo caricatural. Cenas realmente vividas por Barreto eram narradas sem reservas, muitas vezes ele próprio intervindo e suplantando a voz do narrador Isaías Caminha. O “romance com chave”, como era chamado o estilo, coloca Barreto numa situação delicada com seus desafetos, dado que estes saltam de sua intimidade para o conhecimento público. É então vetado por jornais e atacado pela intelectualidade raivosa.


Todavia, em outros meios mais próximos das margens, Lima Barreto vai encontrar umas e outras críticas favoráveis à sua “literatura militante à la Eça de Queiroz”. Agora, o reles amanuense tornava-se inegavelmente um conhecido romancista.


Nos meses que se seguiram ao primeiro livro, a capital foi tomada pela campanha presidencial civilista de Ruy Barbosa, que preparava-se para enfrentar o Marechal Hermes da Fonseca, então apoiado pelo presidente Nilo Peçanha. Embora trabalhasse para os militares, Lima Barreto era um entusiasta da campanha de Barbosa, que àquela altura já se houvera consagrado na II Conferência da Paz (pela qual recebera do Barão do Rio Branco o epíteto de “Águia de Haia”) e também fundado a Academia Brasileira de Letras, sentado à décima cadeira. Mas o entusiasmo de Barreto tinha ainda outros motivos: secretamente, junto a Antônio Noronha e sob o pseudônimo de Isaías Caminha (personagem principal do seu romance), editava um folhetim intitulado “O Papão”, contrário à candidatura de Hermes da Fonseca. Ali denunciava a “marcha estúpida” da República e repudiava a tolice média com que o “império dos alferes” tangia o país, de “canhões apontados para o Rio”.


Às vésperas daquela eleição, registra-se que Barreto enviou a seguinte missiva para Ruy Barbosa:


“Queira, Senhor Conselheiro Ruy Barbosa, aceitar os meus parabéns e o voto ardente que faço pela vitória do seu nome nas urnas. É em nome da liberdade, da cultura e da tolerância, que um ‘rôto’ como eu, se anima a lhe declarar tão grandes sentimentos de suas ambições políticas, que consistem simplesmente em não desejar para o Brasil o regímen do Haiti, governado sempre por manipansos de farda, cujo culto exige sangue e violência de toda ordem.”


Assinado: Isaías Caminha.


Mas Hermes da Fonseca venceu com toda sorte de fraudes, e Barreto, munido desta fúria, retornou aos cadernos para escrever em apenas um ano aquela que seria sua obra-prima, o “Triste Fim de Policarpo Quaresma”.


Outra vez sem dinheiro e editora que ousasse publicá-lo, recorreu ao Jornal do Commercio para uma veiculação episódica em folhetins que saíram entre agosto e outubro de 1911. O livro inteiro só seria publicado em 1915, depois do flerte com o esquecimento e dos problemas do autor com o alcoolismo, que lhe renderam uma internação. Porém, quando saiu, chegou na cena literária uma obra cheia de originalidade que, num futuro não tão distante, seria chamada pelos críticos de “pré-modernista”.


Ali Barreto tratava de temas que só seriam explorados mais tarde, pela Semana de 1922, como o nacionalismo ufanista importado da Europa, a exaltação da terra, a idealização da natureza virgem e o interesse intelectual pelo folclore. Além disso, outra vez preocupava-se em retratar as classes desfavorecidas com fidelidade, bem como as tensões políticas da vida nacional.


O romance “Triste Fim de Policarpo Quaresma” contava a história do Major homônimo e sua luta quixotesca para salvar o Brasil durante o governo do Marechal Floriano Peixoto, ainda no início da Primeira República. Nacionalista convicto, Quaresma se alimentava apenas de comida brasileira enquanto pesquisava a língua, os usos e os costumes dos índios.


O livro se divide em três partes: na primeira, Quaresma é publicamente caçoado ao propor a adoção do tupi-guarani como língua oficial da pátria e acaba indo parar num hospício. Na segunda, muda-se para o campo com o objetivo de se tornar agricultor, mas logo vê sua terra e a si mesmo serem tomados pelas saúvas. Na parte final, com o início da Revolta da Armada de 1893, decide se alistar entre os defensores voluntários do regime florianista e vê-se, enfim, vitorioso. Mas tão logo a revolta é contida, o presidente dá início a uma violenta perseguição aos derrotados, lhes fuzilando sem piedade. Aterrorizado, Quaresma dirige uma carta ao presidente lhe pedindo que interrompa a sangria; em resposta, é preso e condenado à morte por fuzilamento.


A tragédia de Policarpo Quaresma é pautada pela mesma ironia e pelo humor sombrio que já havia demonstrado em “Recordações do Escrivão Isaías Caminha”, mas aqui não mais temos um romance com chave. Os personagens reais têm seus nomes preservados e a linguagem, ainda mais coloquial, se aproxima do naturalismo, tornando a crítica ao parnasianismo em voga ainda mais contundente. Mas o cerne da obra, que faria três anos depois Monteiro Lobato indicar sua leitura “de cabo à rabo”, não é a forma, ou o tom, ou mesmo a qualidade da crítica social. É, sim, o sonho que Policarpo Quaresma constrói enquanto procura um Brasil que [ainda] vai existir. Quixotescas no melhor sentido, suas atitudes são todas movidas pela angústia em ver sua Nação esquecida de si mesma, perdida nas diatribes de um mundo de fora e de muito longe. O sonho de Policarpo Quaresma é, portanto, um sonho de Brasil, e talvez seja este o grande legado deste grande livro de Lima Barreto.


Mesmo com o reconhecimento da obra por parte do público e de autores como Monteiro Lobato, Barreto permaneceria ainda por anos proscrito da crítica oficial. Também não fazia por onde ser aceito, já que sua pena jamais se encolhia e aproveitava dos breves espaços nas revistas ABC e Careta para provocar a Deus e o mundo. Em 1919, publicaria seu terceiro romance “Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá” pela editora Revista do Brasil, de Monteiro Lobato, que pela ocasião escreveria numa carta a um amigo: “A Revista cresce e engorda como bananeira, e a seção das edições toma corpo! Ontem saiu o romance do Lima Barreto”.


A parceria, da qual viria uma amizade, trouxe ao terceiro romance novos espaços e os livros de Barreto começaram a circular distantes do Rio de Janeiro, vendendo bem em São Paulo, no Recife e além. Isto lhe instigou a pleitear uma vaga na Academia Brasileira de Letras, ao que foi respondido com um sonoro silêncio.


Segundo a antropóloga Alessandra El Far, “A figura de um boêmio beberrão e de modos impetuosos seria incompatível com o padrão dos bons costumes assinalados pelo célebre autor de Dom Casmurro (…), uma vez que os acadêmicos ainda se recusavam a aceitar um homem de letras de conduta pouco conveniente às cadeiras da imortalidade”. Com efeito, Machado de Assis expressara em cartas a Joaquim Nabuco o desejo de fazer da ABL um selecionado grupo de “grands seigneurs”, e, embora tivesse morrido no mesmo ano da fundação da casa, aquela cultura se mantivera vigente entre os senhores que a comandavam.


Um ano mais tarde, e já combalido de uma segunda internação, Lima Barreto envia outra carta à ABL e também ao seu presidente, Ruy Barbosa. A missiva não teve resposta, mas dessa vez seu nome foi incluído entre os três candidatos à vaga. Barreto terminou em último, com apenas três votos nos quatro escrutínios. Ainda segundo El Far, “apesar de escrever em vários jornais e de ter publicado romances, Lima Barreto não pertencia às rodas literárias e sociais frequentadas pelos acadêmicos, pois vinha de uma classe pouco favorecida e desempenhava a função de amanuense. Ademais, usando de linguagem pouco moderada, Lima Barreto tornara-se um dos principais críticos da sociedade carioca do seu tempo. A Academia, por sua vez, não escapava ilesa de sua pena: em diversas crônicas esta fora alvo de ironias que desqualificavam sua atuação no meio literário brasileiro”.


Ironias por ironias, o fato é que Lima Barreto terminou sendo preterido tanto por Ruy Barbosa, por cuja campanha tanto lutara, quanto pelo fantasma imorrível de Machado de Assis, seu escritor favorito. Ainda ensaiou uma terceira tentativa em 1921, mas retirou-se antes da eleição, num gesto de resignação ou protesto.


Continuou escrevendo em silêncio por cerca de um ano em sua casa, no bairro de Todos os Santos, e ocasionalmente publicando em jornais. Até que, numa manhã de novembro, sentiu um aperto fulminante no peito e morreu. Tinha 41 anos. Partiu sem ter casado e não deixou filhos.


Muitas obras suas seriam publicadas postumamente, entre elas “Os Bruzundangas”, uma sátira bem-humorada sobre um país fictício, e “Clara dos Anjos”, um romance trágico comparado por muitos com “O Primo Basílio”, de Eça de Queiroz. Crônicas, peças incompletas e diários íntimos seriam descobertas e editadas nas décadas de 40 e 50, quando Barreto passa a ser reconhecido como um grande visionário da literatura brasileira.


Embora jamais aceito pela ABL, seu corpo encontra-se até hoje num jazigo ao lado do Mausoléu dos Imortais, no cemitério de São João Batista.


Barreto tem sido tema de inúmeros trabalhos acadêmicos e artísticos. Já foi homenageado por samba enredo, por documentários e por feiras literárias. Suas obras viraram peças e filmes e continuam a inspirar efusivos debates sobre a história brasileira, a condição do negro e do pobre no nosso país e, sobretudo, o ideal de Nação que podemos e devemos cultivar.


Para muitos, o nacionalismo “policarpista” inspirado pela sua maior obra é interpretado de maneira caricatural e frequentemente diminuída. Mas para nós, que construímos a Frente Sol da Pátria, o Triste Fim de Policarpo Quaresma guarda em si um profundo exemplo da obstinação necessária à construção da Revolução que irá restaurar a brasilidade e reafirmar a força do espírito nacional. Afonso Henriques de Lima Barreto, o jovem mulato brasileiro com nome de rei português, celebrou no dia 13 de maio seus 142 anos como um verdadeiro e definitivo Imortal.

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