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Primeira-Ministra da Itália se recusa a condenar saudações fascistas, mas apoia a OTAN, então "tá tudo certo"

Traduzido e adaptado de "Prime Minister of Italy Refused to Condemn Fascist Salutes But Supports NATO" Tradução de Maurício Oltramari


Se acreditarmos em parte da imprensa ocidental, Giorgia Meloni, primeira-ministra da Itália desde outubro de 2022, deveria ser uma espécie de pária dentro das estruturas de poder ocidentais - talvez até uma pedra no sapato dos altos funcionários da aliança euro-atlântica. Mas a realidade não é bem essa.



Meloni não é propriamente fascista - o seu partido, porém, certamente tolera o neofascismo, e alguns dos seus membros trouxeram de volta publicamente a saudação romana (com o braço estendido), como se viu durante um comício em Roma, em janeiro. O fato de ela não ter ficado politicamente isolada após esse escândalo é bastante notável. Ela mesma já fez parte da Frente da Juventude (Fronte della Gioventù), grupo cujas origens remontam ao neofascismo italiano - apesar destas ligações à extrema-direita (no passado e presente), Meloni afirma condenar o fascismo e talvez possa ser considerada mais um exemplo daquela ampla categoria que é o populismo europeu.


Os tribunais italianos decidiram que a saudação romana só está sujeita a punições previstas na lei quando representa um risco para a ordem pública, o que deixa muito espaço para interpretação. Contudo, na quarta-feira, o Secretário-Geral da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), Jens Stoltenberg, reuniu-se com Meloni e elogiou a primeira-ministra italiana pelas contribuições do país para a Aliança Atlântica - a Itália participa regularmente na operação marítima da OTAN e no Policiamento Aéreo do Báltico (BAP). Ao contrário de outros líderes “populistas” europeus, Meloni sempre foi uma fervorosa apoiadora da Aliança. Em julho de 2023, ela aproveitou o tema da migração ao longo de todo o mar Mediterrâneo para pressionar o presidente dos EUA, Joe Biden, a desempenhar um papel mais importante na OTAN na África. Em fevereiro, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky e Meloni assinaram um acordo bilateral de segurança.


Nada disso é surpreendente. Em outubro de 2022, a então nova primeira-ministra emitiu uma declaração dizendo que “a Itália, de cabeça erguida, faz parte da Europa e da Aliança Atlântica. Quem não concorda com esse pilar, não pode fazer parte do governo, ao custo de não se ter um governo.” Seus comentários foram dirigidos ao partido Força Itália (FI) e ao ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi, que faleceu em junho de 2023. Na época, alguns dos comentários pró-Putin de Berlusconi vazaram, o que resultou num grande escândalo, levando Meloni a ameaçar barrar as negociações para se formar um novo governo - “Pretendo liderar um governo com uma linha de política externa clara e inequívoca”, afirmou a primeira-ministra.


A mensagem foi devidamente captada e o partido Força Itália distanciou-se do seu fundador Silvio Berlusconi, que acabou tornando a situação mais fácil para todos morrendo (de leucemia) no ano seguinte. A imprensa italiana noticiou que Meloni estava considerando nomear Antonio Tajani (coordenador nacional do Força Itália) como Ministro dos Negócios Estrangeiros em 2022, mas ficou hesitante após o já mencionado escândalo de Berlusconi. Tajani acabou sendo nomeado e hoje é vice de Meloni (coloquialmente conhecido como vice primeiro-ministro), juntamente com Matteo Salvini.


Seria interessante comparar Meloni com Marine Le Pen (candidata presidencial francesa derrotada em 2022). Esta última prometeu retirar Paris da OTAN, alegando que a Aliança “perpetua a lógica anacrônica e agressiva do bloco da Guerra Fria”. Le Pen foi derrotada e Meloni venceu. Já escrevi sobre como a onda neo-macarthista na Europa tem perseguido líderes dissidentes e partidos políticos, um fenômeno que chamei de “Maidanização” da Europa: inclui a proibição das bandeiras soviéticas e russas no Dia da Vitória, a criminalização de protestos pró-Palestina, e, claro, perseguir ou mesmo proibir partidos políticos “pró-russos” de uma forma neo-macarthista, como visto na França, na Polônia e na própria Ucrânia, que proibiu ao menos 11 partidos políticos até agora. Essa perseguição ao “populismo” pode ser bastante seletiva – partidos como o Alternativa para a Alemanha (AfD) e líderes como Le Pen são os alvos, enquanto Meloni não o é e o partido Lei e Justiça (PiS) da Polônia também não. Não é difícil perceber quais são os critérios aqui.


Grande parte da crescente oposição popular europeia ao apoio adicional à Ucrânia não tem nada a ver com ser “pró-Rússia” ou “pró-Putin” e tem muito a ver com os custos e riscos de envolver os países europeus no conflito. Como escrevi anteriormente, com uma guerra impossível de ser vencida assombrando o continente e com o aumento dos preços da energia, era de se esperar que o “populismo” europeu e a extrema-direita ganhassem cada vez mais influência política: esses movimentos têm capitalizado cada vez mais o crescente descontentamento das camadas populares com a OTAN e com o próprio bloco da União Europeia. Infelizmente, a oposição à Aliança Atlântica (aliança esta liderada pelos EUA) bem como a oposição às políticas energéticas e econômicas suicidas estão amplamente marginalizadas na Europa, ao ponto de quase se tornarem um monopólio do chamado discurso extremista. Eis aí os limites do tema da “autonomia estratégica” europeia!


Voltando a Meloni, suas declarações sobre as questões envolvendo o problema da imigração indicam uma profunda desunião dentro do establishment europeu - em setembro do ano passado, o primeira-ministra italiana disse que impedir a entrada de migrantes no continente deveria ser a principal tarefa dos chefes de estado europeus. Ao mesmo tempo, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, enfatizava a necessidade de se democratizar o acesso de potenciais imigrantes aos canais de imigração (legais) dentro do bloco. Porém, mesmo neste tema, Meloni decepcionou os eleitores anti-imigração: a Itália registra hoje o maior fluxo (ilegal) de imigrantes, um fenômeno que alimenta a xenofobia, os choques culturais e a frustração entre os italianos da classe trabalhadora. A verdade é que a economia europeia é muito dependente da mão-de-obra mais barata que os imigrantes fornecem e retórica não necessariamente se materializa em políticas concretas.


Tudo isto demonstra os limites do chamado “populismo” europeu. De forma resumida, os líderes e coligações de tendência fascista e de extrema-direita (mesmo com saudações públicas fascistas, etc.) são bem-vindos nas estruturas de poder europeias - desde que permaneçam leais à OTAN - da mesma forma em que se "passa pano" rotineiramente para grupos explicitamente neonazistas armados na própria Ucrânia.

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