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René Daumal e a Ciência das Soluções Imaginárias (por Jeremy Klemin)

Tradução de Maurício Oltramari de "René Daumal and the Science of Imaginary Solutions" (Jeremy Klemin)


Aos 16 anos, o futuro escritor, editor e tradutor René Daumal decidiu inalar tetracloreto de carbono com um grupo de outros jovens poetas franceses. Inalar deliberadamente tetracloreto de carbono ou qualquer outra solução destinada à limpeza geralmente é uma má ideia, mas Daumal fez isso mesmo assim, porque queria “ver”, queria pairar entre a vida e a morte para compreender melhor ambas. Daumal nasceu em 1908 e, no final da década de 1920, ele e os outros editores (todos surpreendentemente jovens) de uma importante revista de crítica literária chamada Le Grand Jeu (O Grande Jogo, em tradução livre) haviam se distinguido de André Breton e o resto dos surrealistas.



Devido ao seu fascínio pelo além, Daumal iniciou um estudo amplo e intensivo do budismo e do hinduísmo. Ao longo desse processo, ele dominou o sânscrito e, pela primeira vez, traduziu vários textos importantes do sânscrito para o francês. Não são poucos os modernistas ocidentais que flertaram com a filosofia oriental, simplificando ou distorcendo grosseiramente conceitos quando serviam aos seus propósitos ideológicos. Daumal não era desses. Ao escrever sobre sua experiência com tetracloreto de carbono, concluiu que o seu contato com o “outro mundo” era fundamentalmente indescritível ou, mais precisamente, era algo incapaz de ser articulado através da linguagem.


A obsessão de Daumal pelo “outro lado” permaneceria no centro de sua vida de escritor. Num ensaio sobre fantasmas, Daumal escreve: “Toda lembrança da morte, ao induzir o homem a conceituar sua própria ausência, leva-o ao absurdo”. Foi esse contato com o absurdo que levou ao interesse de Daumal pela 'patafísica, uma pseudofilosofia inventada por Alfred Jarry que, em muitos aspectos, serviu como precursora tanto dos surrealistas quanto dos dadaístas (especialmente os dadaístas).


A grosso modo, a 'patafísica é uma “ciência de soluções imaginárias”, mas pode ser melhor definida como uma ciência do particular irredutível. Para compreender uma ideia universal, você deve tirar X (a instância particular de uma ideia universal) de seu contexto. Somente “percebendo o vazio que [X] deixa para trás”, podemos compreender a essência de X sem que sejamos impedidos pelas limitações da linguagem. Daumal estava interessado nos particulares que constituem os universais, nas coisas reduzidas às suas formas mais essenciais. Como afirma o padre Sogol, um dos principais personagens da obra-prima de Daumal, Mount Analogue (O Monte Análogo): “Uma coisa é ou não é, e ponto final”.


Embora definisse a 'patafísica literalmente como o oposto da física, Daumal estava sintonizado com o otimismo desmedido da ciência do início do século XX e sentia-se confortável falando até mesmo sobre as excentricidades científicas mais obscuras. Daumal sentia-se tão confortável escrevendo sobre ciência quanto sobre religião, e conseguiu manter-se atualizado com a física contemporânea porque trabalhou como revisor da seção da Encyclopédie Française sobre ciências exatas. Em seus ensaios, ele pula de uma esquisitice científica para outra, discorrendo um tanto sobre o Dr. Robert E. Cornish, um cientista maluco da vida real que conseguiu ressuscitar fox terriers que foram declarados clinicamente mortos. Cornish insistiu em fazer testes em pessoas, mas, por razões práticas e ideológicas, não obteve autorização para testes em pacientes humanos. Em outra parte, Daumal escreve sobre a ciência por trás dos lobisomens e sobre como perfurar um poço do conhecimento num mictório público. Esse tipo de lógica interna é um dos princípios orientadores de O Monte Análogo, no qual o Padre Sogol (logos ao contrário) calcula a localização de uma montanha cujo cume é inalcançável, maior que o Evereste, situada numa ilha invisível a olho nu. Mais adiante no livro, Sogol descreve os experimentos que conduziu para “medir com precisão o poder do pensamento humano”.


O amplo repertório de Daumal é divertido, e seu compromisso com a 'patafísica ocasionalmente passa do absurdo ao profundo; mas a seriedade de Daumal é a razão pela qual ainda vale a pena ler seu trabalho. O Monte Análogo é quase inteiramente alegórico: trata de como alcançar uma compreensão do divino; embora seja uma tarefa totalmente impossível, ainda é uma aventura significativa. O caminho espiritual de cada pessoa é tudo menos imutável, e todos somos responsáveis ​​por ajudar uns aos outros ao longo de nossas próprias trajetórias. Numa coleção de notas de Daumal sobre “alpinismo”, ele escreve: “Se você chegar a um impasse ou a um local perigoso, lembre-se de que as pegadas que você deixou podem deixar em apuros as pessoas que vierem atrás de você. Então, volte pela sua trilha e apague todos os vestígios que você deixou [...]. Esteja pronto para responder aos seus semelhantes pelos rastros que você deixa para trás”. É responsabilidade dos que estão espiritualmente tranquilos ajudar as gerações mais jovens a navegar nos seus próprios labirintos, mas também é dever daqueles que atingiram um impasse na sua própria trajetória fornecer sinais de alerta para aqueles que estão mais abaixo na montanha.


Daumal morreu de tuberculose aos 36 anos, pouco depois de escrever sobre suas experiências com tetracloreto de carbono. Por causa de sua morte prematura, O Monte Análogo permanece inacabado numa frase interrompida. Deixou bem menos vestígios do que talvez pretendesse, mas a pureza da sua visão e a lucidez da sua escrita sugerem que sempre irá figurar entre os excêntricos escritores franceses do século XX. O Monte Análogo nos diz muito pouco sobre como devemos viver ou o que devemos fazer para encontrar sentido diante do absurdo, mas enfatiza a importância de se tentar encontrar sentido. É difícil não pensar no colega francês e absurdista Albert Camus e nas suas famosas frases ao final de O Mito de Sísifo: “A própria luta pelas alturas é suficiente para encher o coração de um homem. É preciso imaginar Sísifo feliz”. Para Daumal, o grande esforço rumo a nossas próprias alturas interiores, enquanto ajudamos aqueles que nos seguem, é a única luta que importa. A maior parte do seu trabalho, penso eu, foi a sua própria tentativa de garantir que tanto os seus triunfos quanto os seus erros fossem úteis para a posteridade.

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