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Sobre hospitais, escolhas e o Likud

Diante do bombardeio do hospital Batista de Gaza, muita gente preferiu se agarrar ao puro wishful thinking para negar a responsabilidade de Israel. Já vi isso acontecer em diversos outros casos. Neste específico, ele assume a forma do seguinte argumento: é preferível acreditar na democracia israelense do que em movimentos terroristas como o Hamas e o Jihad Islâmica.


Mas o partido ''eleito democraticamente'' em Israel é o Likud. Ora, nos últimos dias eu falei que a esquerda sionista, de matiz socialista, foi a força predominante no Estado judeu até meados dos anos 1970. E foi responsável por episódios como a limpeza étnica na primeira guerra árabe-israelense, em 1948 [chamada pelos árabes de Nakba, ''A Catástrofe"], e por casos de terrorismo como o Lavon Affair [a Operação Susana]. Foi responsável também pelas ocupações ilegais dos territórios palestinos e árabes após a Guerra dos Seis Dias.


Mas a esquerda sionista deixou de ser a força predominante em Israel. No fim dos anos 1970, a direita sionista ascendeu ao poder, e progressivamente foi eclipsando os antigos trabalhistas. Esse processo se consolidou de vez com o fracasso das negociações de paz com a OLP, que atravessaram os anos 1990. Nos últimos vinte e cinco, trinta anos, o Likud domina o governo israelense. Deixe-me então falar sobre esse partido.


Começo pela foto abaixo. É Menachen Begin, Primeiro-Ministro de Israel entre 1977 e 1983, o homem que desbancou os Trabalhistas no Estado Judeu e representou a ascensão da atual direita. A história política de Begin está entrelaçada com a do Likud. Ela se inicia com o Revisionismo Sionista, de Jabotinsky, que representava a ala oposicionista aos socialistas entre os anos 1920 e 1940.


Jabotinsky era um ultra-nacionalista que defendia que todo o Mandato Britânico na Palestina deveria se converter em território do Estado de Israel, incluindo aí a Transjordânia [atual Jordânia]. Para impor esta ideia, Jabotinsky fundou e liderou uma milícia paramilitar chamada Irgun, que realizava uma série de atentados terroristas contra os ingleses e os árabes.


O Irgun teve participação importante no sufocamento da Revolta Árabe-Palestina entre 1936 e 1939, e alguns de seus atentados terroristas alcançaram infâmia internacional, como o Domingo Sangrento, em que pelo menos 10 civis árabes terminaram mortos. O Irgun comemorava o evento como uma ''Revolta Macabeia'', se referindo ao levante liderado por Judas Macabeu contra o governo selêucida no século II a.C. Outro atentado de triste memória foi a bomba plantada em um mercado popular em Haifa, que matou 18 árabes, dentre eles seis mulheres e três crianças. São só exemplos, já que as atividades do Irgun se estenderam até 1948, quando foi integrado à IDF [Forças Armadas Israelenses].


Pois bem, Menachen Begin entrou para o Irgun em 1942, tornou-se o principal comandante da milícia dois anos depois, e com a integração de seus quadros na IDF, fundou um partido político para dar continuidade ao legado do Movimento Revisionista de Jabotinsky, o Herud, ao qual voltarei mais adiante. Antes disso, é necessário falar de uma dissidência nascida no Irgun em 1940.


Durante a Segunda Guerra Mundial, o Irgun decidiu colaborar com os britânicos. O raciocínio era que a colaboração no esforço de guerra poderia ser recompensada com um Estado judeu depois do fim do conflito. Mas nem todos concordaram com essa avaliação. Um membro de nome Avraham Stern decidiu trilhar um caminho próprio, e fundou uma nova milícia paramilitar chamada Lohamei Herut Israel ["Guerreiros pela Liberdade de Israel"], mais conhecida pelo acrônimo Lehi.


O Lehi desenvolveu uma complexa política visando se aproximar do eixo nazi-fascista durante a segunda guerra mundial. Segundo eles, as restrições impostas pelo Mandato Britânico à compra de terras e imigração judaica faziam dos ingleses os inimigos do povo judeu. Os nazistas seriam apenas antissemitas, mas não seus inimigos. Eles poderiam ser manipulados. Stern tentou criar um acordo com os nazistas: O Lehi os ajudaria contra os ingleses e os alemães criariam um Estado Judeu após o fim da guerra. Todo mundo sairia ganhando, já que a limpeza étnica que os nazistas planejavam para os judeus, acreditava Stern, poderia ser realizada através da expulsão de todos eles para o novo Estado Sionista.


Desse modo, o Lehi se engajou em uma série de atos terroristas contra os britânicos. Sua principal inspiração era o IRA [O Exército Revolucionário Iraniano]. Aliás, o Lehi se declarava oficialmente terrorista em suas publicações oficias, como o famoso artigo Terror, em que se lê: "Nem a ética ou tradição judaica desqualificam o terrorismo como meio de combate. [...] Mas, primeiro e antes de tudo, o terrorismo é para nós parte da batalha política conduzida nas atuais circunstâncias". Os atos de terrorismo do Lehi não se davam apenas na Palestina, eles alcançavam a Europa também.


Não devemos exagerar as divergências entre Irgun e Lehi. Logo depois do fim da II Guerra Mundial, ambos se uniram em uma estratégia conjunta para forçar os britânicos a entregar o Mandato na Palestina e fundar um Estado Judeu. Não só eles se coordenaram, mas também a Haganah, milícia sob controle dos socialistas sionistas. Os três grupos foram os pilares do Movimento de Resistência Judaica, que se abraçou de vez ao terrorismo, incluindo o atentado ao Hotel Rei Davi, em 1946, que matou mais de 90 civis dentre ingleses, judeus e árabes.


Lehi e Irgun também se envolveram em um episódio vexaminoso durante a primeira guerra árabe-israelense, também chamada de "Guerra de Independência" pelos sionistas. Em meio à Nakba, eles provocaram o massacre da aldeia Deir Assain, que ficava próxima à Jerusalém. Dos quase 600 moradores palestinos, cerca de 200 foram assassinados, a maior parte deles em suas próprias casas.


A foto abaixo ajuda a entender a influência do Lehi em Israel. Trata-se de Yitzhak Shamir, Primeiro-Ministro de Israel em 1983/84, e depois de novo entre 1986 e 1992. Shamir fez parte do Irgun, e rompeu com o grupo junto de Stern. Quando este foi fuzilado em 1942, Shamir assumiu a liderança do grupo Lehi. Com o fim do grupo, entrou para o Mossad [serviço de inteligência israelense] em meados dos anos 1950. No fim dos anos 1960, entrou para o partido Herud, que mencionei anteriormente, e que era liderado por Menachen Begin, antiga liderança do Irgun.



Alguns membros do Grupo Lehi foram condenados pela Justiça de Israel no início dos anos 1950 depois que assassinaram o Conde sueco Folke Bernadotte, um herói na libertação dos judeus de campos de concentração durante o Holocausto. Mas todos foram perdoados pela Justiça. Israel criou desde os anos 1980 a condecoração Lehi, conferida a israelenses por coragem e bravura em guerra.


Voltando ao partido Herud, quando de sua fundação muitos judeus progressistas da Diáspora se pronunciaram contra ele em carta coletiva, datada de 1948, assinada por Albert Einstein e Hannah Arendt dentre outros. Na carta pública, o Herud é denunciado como um partido extremista com claros vínculos nazi-fascistas.


Nada disso barrou o partido. Durante algum tempo ele foi marginal na política israelense, dominada pela esquerda sionista. Mas teve um crescimento expressivo quando montou uma coalizão com o Partido Liberal. O Gahal, ainda liderado por Begin, obteve uma expansão significativa de cadeiras no Knesset a partir do fim do anos 1960.


Na ocasião, Israel já passara a ocupar os territórios palestinos e árabes como consequência da vitória na Guerra dos Seis Dias. Enquanto a esquerda sionista pretendia trocar as terras por acordos de paz e reconhecimento mútuo com os governos árabes, a direita em torno do Herud proclamava abertamente que Israel deveria consolidar a posse dessas terras a partir de uma política de assentamento de colonos, principalmente na Cisjordânia.


O Herud se associou com pequenos movimentos conservadores e centristas em 1973, ano do trauma da Guerra do Yom Kippur, e fundou o Likud, nascido primeiramente como uma aliança de partidos sob liderança de Begin. O Likud era o centro do Movimento Grande Israel , cujo nome dispensa comentários. Em 1977, com o descrédito da esquerda sionista por causa dos impasses militares, e da condenação do sionismo pela ONU [1975], consegue chegar ao poder.


Uma vez no poder, Menachen Begin conduziu o Acordo de Camp David com o Egito de Sadat, pacificando as relações com o maior país árabe. Em decorrência disso, ganhou o Prêmio Nobel da Paz. Parece que concederam o prêmio cedo demais, pois dois anos depois Begin estava atacando o reator nuclear iraquiano, e em 1982 invadiu o Líbano para expulsar do país a OLP, dando início a uma ocupação militar que ficou marcada pelos massacres de Sabra e Shantila, e pela derrota nas mãos de um partido shia surgido para expulsá-lo da terra dos cedros, o Hezbollah. Apesar de desmoralizado, a "Doutrina Begin", de ataques preventivos contra seus inimigos, se internalizou de vez em Israel.


São essas as figuras que modelaram o maior partido de direita de Israel, o Likud, que vence eleições seguidamente desde meados dos anos 1990. O Likud se aproveitou de mudanças demográficas importantes em Israel, da aliança com os EUA, e com o crescimento do sionismo religioso de judeus ortodoxos para demolir os Acordos de Oslo, aumentar exponencialmente a política de assentamentos na Cisjordânia, reivindicar Jerusalém como capital israelense, e promover a divisão da liderança palestina a fim de obstaculizar para sempre a criação do Estado Palestino. Faz parte desta estratégia ampliar o reconhecimento e os acordos de paz com Estados árabes [Acordos de Abraão] para isolar o movimento palestino, e voltar o foco internacional contra o Irã, que comanda um arco de poder xiita no Iraque, Líbano e Síria.


Portanto, o governo israelense atual se trata de um partido central da direita sionista, cujo DNA está no ultra-nacionalismo expansionista, no supremacismo étnico, e no terrorismo do Revisionismo Sionista, do Irgun, do Lehi. Não impressiona que chamem os palestinos de ‘’animais’’, promovam deslocamento forçado de civis, se abracem à limpeza étnica, e bombardeiem residências, escolas e hospitais.

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