top of page

A Academia de Platão

Se alguém se declarasse um platonista na antiguidade, certamente estaria dizendo, ao menos, que os sentidos não poderiam ser considerados um meio confiável para adquirir conhecimento. Além disso, estaria convencido de que as coisas que encontramos no mundo físico não são nada além de visões efêmeras e não entidades puras. Esse mundo pouco poderia revelar acerca da verdadeira essência, das leis ou das causas que o fundamentam.


Se alguém — pensaria o platonista — estivesse decidido a considerar os fenômenos do mundo sensível uma base segura para o conhecimento, estaria sujeito à ilusão da multiplicidade e da mudança: o que pode parecer belo num momento ou para alguém não é sempre e indiscutivelmente belo, uma pessoa pode ser confundida com outra mesmo que com essa não guarde lá muita semelhança, etc.


É com essa reflexão, recolhida de Neoplatonic Saints, de Mark Edwards, que proponho um breve olhar historiográfico da Academia Platônica. O propósito aqui é apenas fornecer algumas indicações das inclinações doutrinárias dessa escola desde a morte de Platão até o neoplatonismo de Plotino.


As ruínas da Academia Platônica

Segundo Maria Gatti, o platonismo não pode ser considerado um sistema fechado e simples, mas uma escola de pensamento com um desenvolvimento histórico diversificado e complexo.


Para a acadêmica italiana, apesar das diferentes formas que assume ao longo da história, o platonismo está sempre fundado em certos traços metafísicos e ético-ascéticos. Entre esses, a autora destaca, em especial, quatro: a) que a realidade está constituída por dois níveis, o sensível e o inteligível, e o segundo opera como fundamento para o primeiro — que não encontra razão para sua existência em si mesmo; b) o homem possui duas partes que correspondem analogicamente aos dois níveis de realidade, o corpo (sensível) e a alma (inteligível); c) a vinculação entre ética e escatologia no marco de uma concepção religiosa do mundo; d) a crença de que é imperativo separar a alma do corpo.


Com a morte de Platão, em 347 d.C., a liderança da Academia Platônica foi assumida por Espeusipo (c.408 — c.339 a.C.) e, posteriormente, por Xenócrates (c.396 — c.314 a.C.), após a morte do sobrinho de Platão em 339 d.C.. Esses dois pensadores desenvolveram a filosofia de Platão de maneiras ao mesmo tempo compreensíveis (à luz das doutrinas do mestre) e contestáveis: eles enfatizaram o que seria denominado pela tradição como “redução” das Ideias aos primeiros princípios, isso é, o Um e a Díade.


Essa tendência está de acordo com a ideia das “doutrinas não-escritas” de Platão e, portanto, a convicção na autenticidade do platonismo desses autores é dependente da aceitação de que Platão de fato possuía esse conjunto de doutrinas.


Nessa primeira geração da Academia já haviam tentativas de sistematizar os ensinamentos de Platão, contudo, como a tradição da Academia se estende até o ano de seu fechamento em 529 d.C., houveram, nesse espaço de tempo, diversas abordagens de pensadores com intenções e programas diferentes reclamando a herança platônica.


Quanto à história da Academia Platônica, Sexto Empírico (c.160 — c.210 d.C.), na obra Esboços Pirronianos, discriminou cinco fases: 1) a primeira Academia de Platão e aqueles que o sucederam: o astrônomo Eudoxo de Cnidos (c.408 — c.355 a.C.), Heráclides do Ponto (c.390 — c.310 a.C.), Espeusipo, Xenócrates, Polemo (c.350 — c.270 a.C.), Crates (c.365 — c.285 a.C.) e Crantor (c.344 — c.275 a.C.); 2) a segunda Academia de Arcesilau (c.315 — c.240 a.C.), filósofo cético; 3) a terceira Academia dos céticos Carnéades (c.214 — c.128 a.C.), Clitômaco de Cartago (c. 186 — c.110 a.C.) ; 4) a quarta Academia de Filão de Lárissa (c.159 — c.84 d.C.), filósofo eclético e cético, e Charmadas (c.164 — c.95 a.C.); 5) a quinta Academia de Antíoco de Ascalão (c.130 — c.68 a.C.), pensador eclético que considerava que o estoicismo era, em essência, idêntico ao platonismo e aristotelismo.


Para Antíoco, a única diferença entre a doutrina estoica e o platonismo e aristotelismo se encontrava na forma em que as filosofias se expressavam e em alguns dogmas da física, lógica e ética.


No âmbito do discurso filosófico, segundo Reale e Antiseri, houve já nos primeiros discípulos de Platão um declínio do pensamento platonista, especialmente em razão de suas tendências “imanentistas” e matemáticas e, finalmente, por seu caráter antimetafísico que culminou no ceticismo que viria a se desenvolver na segunda e terceira Academias e no ecletismo que ganhou forma nas doutrinas da quarta e quinta Academias. Edwards afirma que o ceticismo parece ter sido a tendência dominante no platonismo durante o período helenístico. A concepção mais dogmática que admite a existência de um mundo inteligível que transcende o mundo físico dos particulares sensíveis era prontamente descartada.


Em 86 a.C., o estadista e general romano Sula conquista Atenas e se apodera também da Academia e do Liceu de Aristóteles. Nesse episódio, a Academia sofre a destruição de sua sede e testemunha o progressivo abandono de seus ensinamentos, que alcança o ponto culminante com o ecletismo e o ceticismo adotado pelos filósofos recém-mencionados. Não obstante, na segunda metade do século I a. C., o platonismo voltaria a renascer, agora em Alexandria, com o filósofo Eudoro (fl. c.25 d.C.). Daí em diante o platonismo voltou, paulatinamente, a se expandir por todo o mundo antigo até chegar ao apogeu da grande síntese concebida por Plotino no século III d. C.


Contudo, o platonismo que se desenvolve a partir de Eudoro até o século III está caracterizado por muitas incertezas, oscilações e contradições; é uma espécie de fusão entre o antigo e o novo platonismo, daí o termo “medioplatonismo” utilizado pelos estudiosos para caracterizar as doutrinas que floresceram nesse período. É somente em Plotino que esse pensamento filosófico ganha as características do que se convencionou chamar de “neoplatonismo”.


Por outro lado, é importante notar que no Império Romano o platonismo era também uma religião — Edwards utiliza a expressão “religião filosófica” ao tratar da relação entre platonismo e religião na antiguidade tardia. Segundo o autor, embora no período clássico quase tenha sido possível viver sem nenhuma forma de culto ou devoção, na antiguidade tardia as práticas religiosas eram muito mais ostentosas e, por vezes, definiam completamente os diversos aspectos da vida de uma pessoa.


Alguns platonistas desse período, como Lúcio Apuleio (c.124 — c.170 d.C.), não poderiam ser considerados filósofos no “sentido estrito” do termo, como foi, em contrapartida, Ático com seus escritos antiperipatéticos. Vale lembrar que essa época testemunhou o surgimento de “novas formas de literatura que variavam do solene ao picaresco” [tradução nossa] [1]; a este propósito recordamos o romance Asinus aureus [2] ou Metamorphoses de Apuleio, que está repleto de contos sobre magia e é notadamente espelhado nos mitos platônicos.


Pierre Hadot nos recorda que nos três primeiros séculos após o surgimento do cristianismo floresceram também as seitas gnósticas e as religiões dos mistérios. Essa época viu florescer uma espécie de sentimento de estranhamento em relação à esse “mundo inferior”, como se o homem fora para cá banido e aprisionado no corpo e na realidade sensível. A popularização do platonismo teve um papel importante para a formação desse pensamento: a ideia geral de que o corpo é uma prisão ou uma tumba e, consequentemente, a necessidade de separar do corpo a alma — uma vez que nessa encontra-se a verdadeira natureza do homem, de ordem puramente espiritual e incorpórea [3].


Edwards atribui o sucesso do platonismo no período helenístico, em grande medida, à sua capacidade de absorver e “apropriar-se de quase tudo que possuísse valor religioso no Império” [tradução nossa] [4]. Nesse contexto, era perfeitamente possível para um platonista sírio, egípcio ou fenício, ou o que fosse, declarar-se um platonista religioso sem abdicar da antítese convencional entre mito e dialética.


Entretanto, sob outra perspectiva, e retornando aqui ao tema do surgimento do neoplatonismo, segundo Dillon e Gerson, outro fator relevante no desenvolvimento dessa corrente de pensamento é o seu enfrentamento com o emergente pensamento filosófico cristão. Se o ponto de partida do neoplatonismo se dá em Plotino, geralmente se considera que seu término coincide com o fechamento da Academia Platônica em Atenas por ordem do Imperador Bizantino e cristão Justiniano em 529 d.C..


É evidente, contudo, que esse evento não significa o fim do platonismo, uma vez que pensadores filiados ao cristianismo, judaísmo e islamismo se apropriaram de elementos do platonismo para o desenvolvimento de suas diferentes teologias.


Referências:


[1] “[…] new forms of literature that ranged from the solemn to the picaresque.” EDWADS. Mark

[2] “O Asno de Ouro”, em tradução para o português.

[3] Não esqueçamos, todavia, que Plotino se opôs de maneira resoluta às doutrinas gnósticas que ameaçavam desvirtuar os seus discípulos.

[4] “[…] appropriate almost everything that was of religious value in the Empire”. EDWADS. Mark


0 comentário

Comments


bottom of page