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A explosão evangélica não é ruptura: é continuidade

O evangelicalismo se abrasileirou e tem mais traços em comum com as religiosidades brasileiras do que poderia parecer


No próximo censo, cujo ano de referência é 2022, a proporção de evangélicos/protestantes no Brasil deve ficar por volta de 30% da população, e certamente acima desta proporção nas capitais e metrópoles. Talvez até acima de 35%, se recortarmos apenas as classes ditas ''populares''.



Desse modo, as religiosidades evangélicas terão quintuplicado sua proporção entre os brasileiros em um período de apenas quarenta anos.


O censo de 2010 foi o primeiro que mostrou o número de católico-romanos diminuindo em termos absolutos, uma amostra inequívoca que é das fileiras da religião então dominante que os evangélicos retiram seus conversos.


Esse crescimento explosivo a partir dos anos 1980 aponta que não é qualquer protestantismo/evangelismo que faz sucesso no país. As Igrejas tradicionais chegaram ao Brasil ainda no século XIX, e não aumentaram seu peso durante esse processo de transformação de filiação religiosa. Continuam pequenas e, além disso, são altamente secularizadas.


A sensibilidade evangélica chega com as ondas pentecostais, que alguns especialistas dizem ter sido três. Somente com a terceira dessas vagas, iniciada nos anos 1970, é que temos a varredura evangélica. Ou seja, a mudança de equilíbrio entre as religiões brasileiras é fruto da agência neopentecostal.


Houve uma série de modificações em relação às ondas pentecostais/evangélicas que lhe são anteriores e em relação às igrejas protestantes tradicionais. É nessas mudanças que se fundamenta seu sucesso proselitista [E, claro, também nas modificações ocorridas também na sociedade brasileira, mas este não é o foco deste texto].


Enquanto o protestantismo tradicional e o pentecostalismo são moralmente rigorosos e tendem a dessacralizar o entorno social, o neopentecostalismo faz o contrário. Ele abranda o moralismo do ''crente'' típico - sem abandoná-lo de vez, evidentemente -- e, além disso, acentua o caráter mágico do mundo. A terceira onda evangélica não expulsa a Divindade do meio do cotidiano e da natureza, e não faz Dela um 'Deus ocioso' tampouco. Até o dinheiro é fetichizado, na verdade.


O importante é frisar a existência de uma gramática comum, acentuadamente mágica e 'extática', entre muitas igrejas neopentecostais e as religiosidades afroameríndias e catolicismo popular. Os termos dessa gramática são muitas vezes ressignificados e ganham valores e sinais inversos, mas eles estão lá, como um traço de continuidade marcante.


As igrejas neopentecostais foram tão bem sucedidas em sua linguagem que acabaram por contaminar até os demais movimentos cristãos. Embora grande parte deles critique certas posturas das organizações da terceira onda evangélica, acabam sendo influenciadas em maior ou menor grau. E isso inclui até o movimento carismático católico.


A ''neopentecostalização'' dos movimentos cristãos pode ser percebida também nos instrumentos de propaganda religiosa: há uma espetacularização dos cultos [incluindo a TV e rádios], acompanhada por traços de arroubo emocional e muito transe. A Igreja não precisa chegar aos extremos da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) e congêneres (que emulam as ''possessões''/incorporações de um terreiro) para apresentar essas mesmas linhas de desenvolvimento, com ênfase em carismas, dons e êxtases.


Embora as igrejas neopentecostais apareçam nas estatísticas como uma parte do universo evangélico, elas são na verdade o núcleo dinâmico e inovador dessa maré de seitas diversas, e que afeta indiscutivelmente até a religião dominante do país, a católica, da qual rouba fiéis. Além disso, existe uma continuidade com uma perspectiva mágica que trespassa a religiosidade brasileira inteira, independente da adesão declarada a essa ou aquela fé.


A primeira conclusão é que a onda evangélica não proporciona uma transformação dos elementos básicos da religiosidade brasileira. A estrutura é em geral a mesma. É interessante pensar como os neopentecostais fazem da ''macumba'' o seu inimigo declarado, mas acabam se alimentando mesmo é de fiéis católicos. Fazer da macumba um inimigo é meio de atrair fiéis da religião majoritária a partir não de uma negação mas de um apelo ao mágico e ao extático.


Eis uma chave importante na explosão evangélica, são principalmente seus traços de continuidade com a religiosidade brasileira que a explicam, não suas rupturas. O neopentecostalismo só se tornou imensamente popular em nossas bandas quando ''se abrasileirou'' o suficiente para atrair a população.

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