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A multipolaridade de Dugin contra o Brasil


A entrevista de Dugin é nua e crua, fundamentada numa mistura da escola realista com as intenções profundas por trás do eurasianismo, que durante muito tempo o autor russo tentou disfarçar com sua Quarta Teoria Política.


No fundo, tudo para ele é muito simples: o Direito Internacional sempre foi uma engabelação e o que vale no terreno internacional é a lei do mais forte. As ações de um Estado devem sempre levar isso em conta na tentativa de maximizar suas vantagens imperiais.


É basicamente isso o que Dugin diz em sua análise. Ele ainda banca o condescendente, dizendo que é uma realidade perturbadora, mas que é inevitável e faz parte da história do mundo.


Dugin vê as ações de Trump como similares a de Putin. Não diz isso com essas palavras, mas é a descriçao que proporciona: os EUA se tornaram um Império no sentido estrito do termo (ou seja, oitocentista) e reivindicam soberania sobre o continente americano. O que ocorreu na Venezuela, ainda segundo ele, não foi nada mais que uma espécie de anexação. América para os Americanos: Doutrina Monroe, que seria a raiz da geopolítica ianque.


Para Dugin, isso não tem nada demais da perspectiva russa. "Não temos colônias lá", afirma de modo revelador. Desde que Trump se contente com o hemisfério ocidental, tudo bem para ele. Afinal, os russos tampouco podem ajudar venezuelanos, cubanos ou qualquer outra população latino-americana da intervenção ianque. É uma confissão explícita de impotência no "quintal" estadunidense, que era severamente negada por russófilos.


Alguns russófilos chegavam a sugerir que o Brasil entrasse em guerra contra vizinhos contando com a ajuda russa. Certa feita, li um deles dizendo que eles poderiam nos ajudar no Conselho de Segurança caso os EUA invadissem a Amazônia. Rísível. Eles levavam isso a sério de um modo totalmente estúpido.



Pois Dugin está dizendo que os russos não podem fazer isso e também que não devem caso Trump se contente com o hemisfério ocidental. O mundo teria de ser dividido entre os mais fortes. O olhar é de um darwinismo internacionalista bastante cru, bastante datado, que cheira a século XIX, como tantas vezes avisei.


O problema estaria nas intervenções ianques na Eurásia para ajudar ucranianos e israelenses. Aí é que a porca torce o rabo segundo ele, pois intervém em um espaço que ele julga pertencer ao "luminoso povo russo".


Enfim, é a ideia duginiana de divisão do planeta em meridianos e entre potências do Norte Geopolítico. Se bem que agora ele substitui o Japão pela China em seus cálculos, algo que evitou fazer até o início dos anos 2010 (na "Geografia sagrada" de Dugin, a China é um país do Sul Global, uma região 'naturalmente' subordinada).


Dado que o próprio sociólogo explicitou de vez do que o duginismo se trata no fim das contas, já não há mais nenhuma justificativa para alguém manter essa teoria requentada e que não oferece absolutamente coisa nenhuma para a América Latina e, mais especificamente, para o Brasil.

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