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A Ucrânia é pressionada pela Polônia e países vizinhos a chegar a um acordo de paz

Sol da Pátria - traduzido e adaptado de http://infobrics.org/post/38415/


Em uma onda de um amplo vazamento de documentos secretos dos Estados Unidos, cuja autenticidade não foi contestada pelo Pentágono, veio à tona que o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, tem planejado ações audaciosas, como o bombardeio do oleoduto Druzhba, que fornece petróleo russo à Hungria (um membro da OTAN), e até mesmo a ocupação de aldeias russas e alvejar a Federação Russa com mísseis de longo alcance. O Washington Post noticiou sobre isso em 13 de maio.



Como escreveu Seymour Hersh – jornalista investigativo norte-americano vencedor do Prêmio Pulitzer – na semana passada, este é um grande problema para os EUA e seus aliados. O acordo de Zelensky com o Ocidente, implícito ou formalizado em conversas a portas fechadas, consistia em utilizar as armas fornecidas pelo ocidente para atingir as forças russas somente "dentro das fronteiras da Ucrânia", já que as potências ocidentais consideram Donbass como território ucraniano, mesmo depois de Kiev ter – por mais de 8 anos de conflito – consistentemente atacado e alienado a população de Donbass.


De qualquer forma, ao utilizar armas ocidentais para lançar ataques fora da disputada região de Donbass e dentro do território reconhecido globalmente como parte da Federação Russa, Zelensky estaria cruzando uma linha vermelha. De acordo com as fontes da comunidade de inteligência dos EUA citadas por Hersh, países como Hungria, Lituânia, Letônia, Estônia e República Tcheca, liderados pela Polônia, têm pressionado o presidente da Ucrânia “para encontrar uma maneira de acabar com a guerra, mesmo renunciando, se necessário, e para permitir que o processo de reconstrução de sua nação tenha início”. A Alemanha também desempenha um papel importante nisso. Hersh informa que, de acordo com relatórios da CIA, Zelensky não está “cedendo” e está perdendo o apoio dos países vizinhos mencionados.


Para os EUA, os planos de Zelensky representam, no mínimo, uma quebra de confiança. Durante sua famosa coletiva de imprensa conjunta em dezembro de 2022, Biden foi muito claro com seu colega ucraniano, que estava ao seu lado, quando disse que fornecer mísseis de longa distância à Ucrânia “poderia causar o desmembramento da OTAN”. Biden acrescentou que seus aliados da OTAN “não pretendem entrar em guerra com a Rússia. Eles não querem causar uma terceira guerra mundial.”

Isso significa que Washington basicamente queria continuar armando e utilizando Kiev como “proxy” numa guerra – na área de conflito da fronteira – contra Moscou, mas sem permitir a escalada do conflito. Como escrevi à época, o problema com essas manobras é que os atores “proxy” às vezes são imprevisíveis e as tensões podem aumentar demais e sair do controle. Poderia ser esse o caso de Zelensky agora?


Para a Europa, há outros problemas também, que por enquanto são sentidos de forma mais direta. Os mais de oito milhões de refugiados ucranianos estão agora no centro de uma crise migratória europeia e, embora não façam parte da União Europeia, os cidadãos da Ucrânia podem viajar sem necessidade de visto pela Zona Europeia de Schengen. Algumas nações europeias cujas economias foram gravemente afetadas pelo confronto que já dura 15 meses estão começando a reintroduzir algumas formas de controle de fronteira. A única coisa que poderia resolver a crise dos refugiados seria, obviamente, um acordo de paz.


Entre os setores da elite política de Kiev, também se fala em um acordo de paz – o problema é que a extrema-direita ucraniana nunca aceitaria qualquer tipo de acordo. Como escrevi, em 27 de maio de 2019, Dmytro Yarosh (então conselheiro de Valerii Zaluzhny, comandante-em-chefe das Forças Armadas da Ucrânia) simplesmente declarou que o presidente Zelensky “perderia a vida” e “amanheceria enforcado numa árvore em Khreshchatyk” se ele “traísse” os ultranacionalistas ucranianos negociando um acordo para o fim da guerra civil em Donbass. Essas mesmas facções militares e paramilitares ainda têm muito poder em Kiev, para dizer o mínimo, e continuam com a mesma opinião.


Isso torna os relatórios de Hersh bastante críveis, especialmente quando ele escreve que, de acordo com um oficial americano não identificado, Zelensky “prefere ir para a Itália do que ficar e possivelmente ser assassinado por seu próprio povo”. Isso significa que um acordo de paz pode custar muito dinheiro, considerando todos os escândalos de corrupção que permeiam os altos escalões de Kiev, que também podem respingar no Partido Democrata dos EUA e na própria família do presidente dos EUA, Joe Biden. Nos países vizinhos, de acordo com Hersh e citando sua fonte: “os líderes europeus deixaram claro que 'Zelensky pode manter o que tem – uma vila na Itália e valores em contas bancárias offshore – ' se ele chegar a um acordo de paz mesmo, que para isso, que seja preciso dar dinheiro a Zelensky, se é a única maneira de conseguir um acordo'.”


Mateusz Piskorski, analista político que escreve para o jornal polonês Myśl Polska, observa que as fontes de Hersh podem estar sendo indiretamente confirmadas por outros acontecimentos, como o fato de que um grupo de lobby foi criado para apoiar a transferência de caças F-16 para a Ucrânia e, até agora, não há indícios de que a Polônia ou outros países do leste europeu e da Europa Central estejam participando deste grupo juntamente com o Reino Unido e os Países Baixos. No entanto, Piskorski também escreveu que a Polônia é, em larga medida, guiada por “instruções” de Washington, e não pelo próprio interesse nacional.


Escrevi sobre como Varsóvia tem se disponibilizado para ser usada por Washington como um “proxy” em sua busca pela hegemonia regional na Europa. O problema, outra vez, –do ponto de vista norte-americano–, é que os “proxies” às vezes podem se tornar imprevisíveis ou podem se cansar de serem usados. Por exemplo, uma escalada de guerra com a Rússia não favorece de maneira alguma os planos poloneses de uma confederação polaca-ucraniana. Resta saber até que ponto os EUA estão dispostos a aproximar o mundo de uma guerra nuclear mundial, antes que líderes responsáveis comecem a se engajar na diplomacia em busca de um acordo de paz. Parece que alguns dos líderes europeus já estão fazendo isso.

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