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Atlantis, um álbum para ser apreciado no silêncio


Capa de Atlantis, ilustrada por Marius Olsen

Ao nos depararmos com Atlantis pela primeira vez, podemos sentir que a obra ora soa fácil como uma canção popular, ora bastante difícil de absorver e compreender.


A constante mistura de temas musicais e literários, instrumentos e timbres, bem como a vasta exploração das modulações harmônicas, alternâncias de ritmos e formas musicais pode fazer o ouvinte inexperiente se sentir perdido no oceano composicional de Andras Atlason e por vezes frustrado com a expectativa de continuidades temáticas em suas canções.


No entanto, à medida que se vai ouvindo mais vezes e mais atentamente, o que podia parecer uma obra dispersa, vai se tornando cada vez mais coesa e agradável, até que de repente se tem noção da sua magnitude artística. O ouvinte então poderá começar a se dar conta das raras combinações de seus temperos musicais, que passam a conquistar seu paladar, até que se queira ouvir o álbum repetidamente.


O álbum evoca constantemente a atmosfera mítica dos antigos aedos, que cantaram canções sobre um lugar perdido, se para sempre, ou a se buscar, vai depender do coração do ouvinte. Somos surpreendidos diversas vezes por combinações exóticas entre os contrapontos do violino e do oboé, cantando elegantes temas da música erudita e as angústias das personagens das letras, enquanto o baixo e a bateria sustentam o grave vocal de levadas marítimas.


Ilustração do litógrafo Marius Olsen para a música "Atlantis"

Diversas vezes temos a impressão de escutar o compasso das ondas do mar, às vezes mansas e regulares, como numa calmaria de uma noite enluarada, enquanto o aedo canta na proa da nave, introduzindo a viagem da vida de seus tripulantes. Às vezes percebemos um oceano tempestuoso, de ondas furiosas, em que guerreiros remam bravamente, cantando em seus corações as vontades do encontro com sua morada final.


Muitas das músicas nos apresentam modulações repentinas ao entrarmos num refrão ou num poslúdio, as quais nos conduzem por vezes a retornos inesperados ao verso, resolvendo tensões musicais raras de forma particularmente elegante e pouco usual.

Por vezes temos a impressão de ouvir fragmentos de Steven Wilson, como nos aludem a guitarra e o sintetizador algo fantasmagóricos de “Havið sang”, para sermos subitamente apresentados a ecos de DorDeDuh evocados pelo riff da guitarra e da melodia folclórica de um flautista virtuoso. Em “Krummavísur” temos a impressão marcante de estar diante de um legítimo herdeiro das brilhantes orquestrações progressivas de Anglagard, quando ouvimos o grave sincopado nervoso do baixo e a euforia ensandecida da flauta, sem falar na aparição repentina de um coro de tipo gregoriano sintetizado como melotron. Em “Í kulda sól” somos levados a sonhar no embalo singelo da melodia do piano e do sintetizador à la Debussy.


Toda essa mistura entre temas folclóricos e medievais refinados, a atmosfera marítima das canções, e a rara orquestração de instrumentos distintos, é costurada sobre um veemente pano de rock progressivo, de modo que, mesmo diante de atmosferas eruditas ou antigas, não se perde de vista a modernidade da composição e seu diálogo com o pioneirismo experimental, o que nos convida a posicionar a obra no patamar Avant Garde.


Ilustração do litógrafo Marius Olsen para a música "Barco Fantasma"

De quebra, as músicas entoam letras das almas de Fernando Pessoa e do imaginário popular escandinavo, nos lembrando que de fato escutamos canções sobre o mar e as Ilhas Perdidas, sejam aquelas que antigos marinheiros buscaram nos mares do mundo, sejam as que todos buscamos no nosso pequeno universo.


Como um Orfeu lutando para se situar e cantar os confusos mares da modernidade, fazendo de sua parafernália musical a sua cítara, Andras Atlason resgata para nossos tempos a elegância perdida da ode lírica, trágica, melancólica e grandiosa. Na busca por sua terra sem ter lugar, sempre presente, o compositor materializa sua Atlântida nessa valiosa obra-prima.


Um álbum para ser apreciado no silêncio, aos bons tragos do melhor vinho e estalidos da lareira.


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