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Zé do Caixão, horror caipira e cinema brasileiro

À Meia-Noite Levarei Sua Alma, a meu ver, é tão significativo e poderoso como Asfalto Selvagem, Deus e o Diabo na Terra do Sol, Noite Vazia e Os Fuzis, lançados em 1964, mesmo ano da estreia do horror protagonizado pelo Zé do Caixão. E seminal, porquanto apresenta um horror tingido de cores locais, o Horror Caipira

No período que compreende o final dos anos 1960 e início da década de 1980, imagine uma vasto quadrilátero (que compreende ruas em que a prostituição barata e o crime em geral cumprem papel hegemônico) caracterizado pelo abandono de patrimônio histórico e abarrotado de personagens apagadas, portadoras de marcas de maldições -- não se trata do cenário macambúzio do filme Taxi Driver, tampouco de narrativa cyberpunk, termo cunhado por Bruce Bethke em uma breve história sobre uma gangue de hackers adolescentes, até porque o fator alta tecnologia está ausente nessa imensidão marginalizada. A região de que falo era conhecida como Boca do Lixo, situada em São Paulo - uma denominação policialesca, dizem. No entanto, a designação emplacou nacionalmente, mais pelo cinema de vanguarda feito lá do que pela associação aos marginais que a dominavam.


O clássico Taxi Driver

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Muito emboa o cinema da Boca do Lixo não constitua um bloco rígido, monolítico, ao menos em um aspecto o rótulo parece preciso: qualifica um tipo de cinema que desabrochou sem apadrinhamento de ógãos oficiais ou de graúdos grupos privados; auto-suficiente, lucrativo e extremamente popular. Era debochado, ressignificando o termo Boca do Lixo, por isso mesmo não pretendia ser uma Vera Cruz, estúdio à Hollywood.


A despeito de fazer cinema bem antes da emergência da Boca, José Mojica Marins, que partia há 05 anos para singrar os mistérios do Aeon, acabou sendo vinculado às suas poduções, tornando-se talvez sua figura mais célebre -- seja dito de passagem, seu metalinguístico Exorcismo Negro foi idealizado por Massaini Neto, filho de Oswald Massaini, ícone da Boca do Lixo.


José Mojica Marins, o Zé do Caixão
José Mojica Marins, o Zé do Caixão

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Paulistano de cepa espanhola, Marins nasceu em 13 de março de 1931 (uma sexta-feira 13). Por intermédio do pai, gerente de uma sala de cinema nas cercanias da Lapa, São Paulo, apaixona-se do cinema. Na adolescência, ganha a câmera amadora com a qual faz seus primeiros registros em celulóides, gravando, por exemplo, morte de galinhas. Aos 17 anos dirigiu Reino Sangrento, o qual narra a história de um jovem que desperta no palácio de um sádico sultão, embrião do Zé do Caixão.


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Em 1953, surge a Atlas, sua própria produtora; Em 1955, malfadado esforço para concluir seu primeiro longa em 35 mm, o inacabado Sentença de Deus. Finalmente, concretiza um filme, o Sina de Aventureiro (1958). Calcado na popularidade do espanhol Marcelino, Pão e Vinho, faz Meu Destino em Tuas Mãos, drama sentimental, quase um musical, intercalado com canções entoada pelo menino Franquito, prodígio da década de 1950.


"Marcelino, Pão e Vinho", de Ladislao Vajda
"Marcelino, Pão e Vinho", de Ladislao Vajda

Franquito, o "menino prodígio"
Franquito, o "menino prodígio"
Sina de Aventureiro
Sina de Aventureiro, faroeste caboclo


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Como se vê acima, a obra de José Mojica é multifaceta, abarcando desde o habitual horror, passando por dramas sentimentais, até filmes eróticos, perpassados tanto por aventuras como por terror e suspense. Em todo o caso, foi mediante Zé do Caixão, um coveiro que esposa uma incongruente cosmovisão que sintetiza Nietzsche e Darwin, é que o realizador se encontrou. À Meia-Noite Levarei Sua Alma, a meu ver, é tão significativo e poderoso quanto Asfalto Selvagem, Deus e o Diabo na Terra do Sol, Noite Vazia e Os Fuzis, lançados em 1964, mesmo ano da estreia do horror protagonizado pelo Zé do Caixão. E seminal, porquanto apresenta um horror tingido de cores locais, o Horror Caipira.


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Ele só não antecipou o gore porque Herschell Gordon Lewis lançara Blood Feast em 1963, mas seu Delírios de um Anormal é de 1978, seis anos antes de A Nightmare on Elm Street, do mestre Wes Craven. Não é desarrazoado supor que Mojica Marins não tenha visto esse filme de Herschell quando da estreia, sobretudo considerando a demora para que filmes estrangeiros circulassem no Brasil.





Enfim, este sucinto laudatório não visa englobar todas as inovações promovidas pelo cineasta paulistano, tantas que estão contempladas em teses, livros. Seu cariz transgressor tem de ser o norte para tantos quantos sejam os interessados em renovar nosso cinema a partir de uma perspectiva livre de certa ideologia adestradora, apartada dos valores do povo, ainda que tenha roupagem rebelde e progressista. E a fonte do sucesso de José Mojica Marins é precisamente sua leitura da alma do povo, tronco fixo no humus negro do qual ele extraía a fresca seiva para suas criações, explorando lendas urbanas, causos, crendices, lendas e medos dos antepassados dos caipiras.






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