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Como a Mitologia Grega e a Astrologia Islâmica influenciaram a estética do Cangaço

Texto de Gabriel Ferreira, originalmente publicado em: https://medium.com/@mag.arn/como-a-mitologia-grega-e-a-astrologia-isl%C3%A2mica-influenciaram-a-est%C3%A9tica-do-canga%C3%A7o-b2a9ab6092c3


A estrela de oito pontas é um dos símbolos mais emblemáticos na estética do Cangaço. Juntamente com o restante, sua função é formar uma carapaça mística para o Cangaceiro, embora não pareça ter muita relação com a estrela de 6 pontas.


Corisco (Diabo Loiro) e a estrela de 8 pontas no seu chapéu

Segundo Frederico Pernambucano de Mello:


[…] a moda esteve presente no cangaço como em tudo o mais”, porém é o chapéu o ponto de concentração dos acrescentamentos simbólicos que caracterizam o traje do cangaceiro. […] E como que apeavam momentaneamente da condição de cangaceiros, ao simpes desatar do laço simbólico de maior expressão no conjunto do traje.” (MELLO, 2010, p.73).

E é exatamente nos “acrescentamentos simbólicos” que se encontram as estrelas de origem ibero-muçulmana — de oito pontas, com diferentes vazados (que evidencia tanto o estilo dos mestres coureiros que o fizeram, quanto dos próprios cangaceiros).


Na Península Ibérica, a estrela de oito pontas era símbolo de Vênus, que a astrologia Islâmica chamava de Zuhara, que era também um símbolo associado a, ou representando Córdoba, Al Andalus e o domínio islâmico sobre a Península Ibérica. O Picatrix estabelece que “los que fizieron [ Córdoba] fundaronla por el firmamento de las estrelas “. É atestado primeiramente nas moedas feitas pelos conquistadores que incluíram esse símbolo profilático de origem oriental, a estrela de oito pontas, que teria identificado a Península Ibérica com Héspero, a Estrela Vespertina, representando o planeta Vênus à noite.


Moeda de ouro datada de 98 (716/7 d.C.). O anverso contém uma inscrição latina FERITOSSOLIINSPANANXCV (FERITOS SOLIdus IN SPANia ANnus XCV) e uma estrela de oito pontas no centro e o reverso mostra uma inscrição árabe, colocada no centro, “Muhammad rasul Allah” e outra inscrição colocada ao redor: “bismillah este dinar foi cunhado em al-Andalus no ano 98”. Museu Arqueológico Nacional, Madrid (INV. N. 1933/45/1).

Hesperia, nomeada a partir de Héspero, é a terra onde o sol se põe, a terra que se deita no Oeste. Para os gregos, essa terra era a Itália; para os Romanos, a Espanha, apesar de que, eles, da mesma forma, em uma tendência helenizante, aplicassem o nome a sua própria península. Na literatura latina Hesperia é um conceito fluido, referindo-se por vezes Itália, por vezes, Espanha.


Héspero é a estrela da noite, que brilha no oeste pouco depois que o sol se põe; seu gêmeo é a estrela da manhã, Lúcifer (na mitologia grega, Fosforos), que sobe no leste e sinaliza o início do dia. Tanto Hesperus e Lúcifer são nomes dados ao planeta Vênus, que por causa de sua proximidade com o sol aparece no céu noturno perto do ponto onde o sol nasce ou se põe. O poeta grego bucólico Bion chama Héspero de “ dourada lâmpada da adorável filha da espuma [Vênus], jóia sagrada da noite azul profunda, obscura tanto quanto a lua, como tu estás entre as estrelas proeminentes“.


Simon Vouet e Johann Friedrich Greuter, Alegoria de Hesperus, do folheto de tese de Francesco Rapaccioli, encomendado para sua defesa de filosofia no Colégio Romano em 1628, gravura Bibliothèque nationale de France, Paris.

O deus Hesperus, parte vespertina da estrela Vênus, é retratado na parte superior, enquanto o Rei Hesperus figura na parte central inferior.


Isidoro de Sevilha, por exemplo, escrevendo pela metade do século 7, estabelece que “Héspero é a estrela do Ocidente, à qual eles nomearam por conta de Héspero rei da Espanha, também é o mesmo nome de Vênus…”


Segundo antigos mitógrafos, Héspero também era um antigo rei que governou a Espanha, pertencente à raça dos Titãs e irmão do Titã Atlas. Diodorus e Siculus o descrevem como um erudito e culto rei que governou a Espanha por muitos anos e foi distinguido por sua piedade, justiça aos seus subalternos e amor pela humanidade. Ele também devia ter sido um aprendiz de astronomia, sendo tal seu anseio de entender o movimento das estrelas que, eventualmente, ia para os céus e se transformava na estrela que carrega seu nome.


Em seu comentário sobre a Eneida, Sérvio faz a seguinte observação sobre o uso do termo Hesperia por Virgílio para designar a Itália: “Há duas Hesperias, uma que se chama Espanha, a outra que fica na Itália. De qualquer maneira que você queira dizer Itália, ou você adiciona ‘Exterior’ e você quer dizer Espanha, que está na borda ocidental… E esta é a verdadeira Hesperia, nomeada por Héspero, a estrela ocidental, o irmão de Atlas, que, expulso por seu irmão, ocupou a Itália e deu-lhe o nome de seu país anterior “.


A associação entre Héspero e a Península Ibérica também é relatada na Crônica Moçarabe de 754. Significativamente, o motivo da estrela de oito pontas foi recuperado pelos omíadas no século X e incluído em moedas cunhadas em Córdoba e Madinat al-Zahra. Hesperia (𝙄𝙨𝙗𝙖𝙧𝙮𝙖), como um dos nomes antigos da Península Ibérica, também é mencionado em fontes literárias árabes.


Fontes:


- Iconotropy and Cult Images from the Ancient to Modern World. Edited By Jorge Tomás García, Sandra Sáenz-López Pérez


- MELLO, Frederico Pernambucando de. Estrelas de Couro: a estética do cangaço. São Paulo: Escrituras Editora, 2010


- SURIA, Seixas; MARIA, Glaucia. LUIZ GONZAGA E A INVENÇÃO DO NORDESTINO:O DESENHO DE COURO NA FIGURA DO VAQUEIRO.


- NEIVA, Suria Seixas. Desenhos de couro: registro e memória dos desenhos no encouramento do vaqueiro sertanejo. 2017. 196 f. Dissertação (Mestrado em Desenho, Cultura e Interatividade). UEFS, Feira de Santana, 2017.


- Simon Vouet’s Hesperus and the Mythopoetics of Praise.2009, Dialogues in Art History, from Mesopotamian to Modern: Readings for a New Century [Studies in the History of Art, 74], ed. E. Cropper, New Haven and London: National Gallery of Art, 2009, pp. 236–251


- Isidore of Seville, Origines seu Etymologiae,

III.lxxi.19: Vesperus stella [est] occidentalis, quam

cognominatam perhibent ab Hespero Hispaniae rege. Est autem et ipsa ex quinqué stellis planetis, nocte ducens et solem sequens. Fertur autem quod haec stella oriens luciferum, occidens vesperum


- Virgílio escreve que tão radiante é esta estrela, quando sobe do mar dissolve a escuridão

[Eneida 8.590]

Plínio afirma que Vênus somente de todo as estrelas brilham osuficiente para lançar sombras aqui na terra ( História Natural, 2.8).Em seu uso de realces cintilantes e efeitos deslumbrantes de claro-escuro, Vouet


1 comentário

1 Yorum


Misafir
25 Şub 2023

Bacana. Faltou falar da influência judaica e napoleônica.

Beğen
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