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Copa de futebol feminino e a Liga saudita - esporte e geopolítica

O que a Copa do Mundo de futebol feminino tem a ver com o crescimento da Liga saudita de futebol masculino? Os investimentos árabes no futebol levaram parte da mídia corporativa descobrisse o conceito de ''soft power'', ainda que o usem de forma ideologizada. Assim, jornalistas com grande espaço nos principais veículos, como André Rizek, sempre se referem às monarquias da Península Arábica como "ditaduras sanguinárias" que manipulam o futebol para o Sportswashing, ou seja, com o escopo de limpar a reputação do regime, associando-a ao bom desempenho desportivo.


A terminologia é toda feita para comparar, ainda que implicitamente, os regimes árabes e outros a organizações criminosas e máfias. Rizek e cia. gostam de frisar que essas "ditaduras sanguinárias matam jornalistas" para incrementar a ojeriza moral.



Longe de mim defender a organização jurídica e política vigente na Península Arábica. Para mim, todo e qualquer regime fundamentado em interpretações da shari'a é estranho e um tanto bizarro. Evidente que são modelos incompatíveis com nossa cultura e nossos valores. Coisa bem diferente, no entanto, é acreditar de fato que nossa cultura e nossos valores são parâmetros universais para julgar outros povos, civilizações e arranjos, e que podemos ''ensinar'' e ''exigir'' de outras populações com histórias e perspectivas completamente distintas um modo de organização institucional similar ao nosso. A "exportação da democracia", feita sob a justificativa de ''libertação dos povos", destruiu recentemente Líbia e Iraque, mergulhando-os em guerras tribais, induziu a expansão de movimentos teocráticos fundamentalistas [como o Estado Islâmico], e até mesmo à ressurgência do escravismo. É necessário entender que nem mesmo o Estado Nacional é modelo facilmente aplicável na África e na Ásia, continentes que em breve vão representar quase 80% da população do planeta.


O pseudo-universalismo da mídia corporativa, tão zeloso ao denunciar os interesses dos governos árabes no futebol, também falha em perceber as motivações geopolíticas do Ocidente em suas celebrações esportivas. Sportwashing é um termo em inglês que pode ser aplicado também à NBA, ao desempenho dos EUA nas Olimpíadas, à seleção francesa de futebol masculino ou à Premier League. Neste terreno, todos estes eventos e competições são objetos de propaganda e disputa, nenhum deles é neutro ou isento de pressões políticas. Nem EUA, nem Inglaterra, nem França agem ao redor do mundo para defender os interesses da "humanidade" e sim os de seus próprios Estados. As justificativas usadas para a ação são sempre aquelas mais capazes de mobilizar suas sociedades, os valores mais caros às suas populações, mas os objetivos e meios são sempre um interesse nacional bem pragmático. A história do imperialismo norte-americano, francês e inglês não nos deixa mentir. Provocaram mudanças de governo, patrocinaram "ditaduras sanguinárias" [na expressão de Rizek e cia.], desenharam fronteiras, incentivaram o tráfico internacional de drogas, se envolveram em guerras infindas etc. A diferença é que o raio de ação norte-americano ou inglês é muito mais amplo do que de qualquer Shaykh saudita. A própria ideia de ''esporte'' moderno ou a posição do futebol como uma das mais poderosas linguagens do planeta é indissociável do poder inglês que construiu pela força econômica e bélica um ''império onde o sol nunca se punha''.


As relações internacionais e o jogo de poder mundial são tão complexos que fica até difícil traçar linhas definitivas. Enquanto Rizek e cia. denunciam os regimes árabes, eles permanecem como aliados históricos das grandes potências ocidentais. É difícil dissociar os sauditas do imperialismo inglês e norte-americano, ainda que este terreno esteja em permanente mutação. Inclusive no âmbito esportivo, pois o mesmo capital que os árabes usam para realizar a Copa do Mundo ou incentivar agora a Liga saudita é usado também para o poderio da Premier League, a glória de Guardiola e seu Manchester City, ou o projeto francês em torno do PSG. Não há como olhar para a disparidade construída entre os grandes clubes europeus e os do restante do mundo a partir dos anos 1990, e da qual a Champions League é expressão acabada, e se recusar a notar o projeto da União Europeia, que tem pouco a ver com a "libertação dos povos do mundo", ou com a "exportação da democracia", e muito mais com uma nova consolidação de um dos pólos do Norte Geopolítico.


A mesma complexidade incide sobre as emoções da mesma mídia corporativa quando se refere à seleção de 1970, instrumentalizada para propaganda interna e externa de um Brasil governado por Generais aliados da política externa norte-americana em defesa da ''civilização ocidental'' e do ''mundo livre'' contra a ''barbárie comunista''. Uma ditadura que foi apenas a primeira daquelas que tomaram conta da América do Sul nos anos 1960 e 1970 em um momento específico de delimitação das 'áreas de influência' das superpotências no xadrez mundial naquele período histórico.


E aqui chegamos ao futebol feminino. Durante décadas, os EUA se ressentiram de sua incapacidade de projetarem poder a partir do futebol. Tentaram de diversas maneiras: levaram Pelé e Cruyff para o país, realizaram a Copa de 1994, mas não funcionou bem. A oportunidade se apresentou com o crescimento do futebol feminino no país em um cenário em que a modalidade era pouca explorada internacionalmente. A realização da Copa na Rússia em um momento de crescimento das tensões geopolíticas e declínio do pode relativo norte-americano levaram a uma intervenção dos EUA na FIFA com a justificativa de que a entidade tinha sido tomada por amplos esquemas de corrupção. E uma das consequências do imbróglio foi a criação de um fundo de investimento e do compromisso da Federação Internacional, e de suas parceiras de mídia, na promoção do futebol feminino ao redor do globo. Em termos geopolíticos, a exposição da Copa do Mundo de futebol feminino é oportunidade de expansão do soft power norte-americano em um esporte em que ele era até então irrelevante.


Claro que o apoio de Rizek e cia. na promoção do futebol feminino não se dever, prioritariamente, ao desejo consciente de apoiar o status quo mundial, centrado na hegemonia dos EUA, aquela mesma que constrói mil bases militares ao redor do mundo, e bombardeia o Líbano, o Iraque etc. Estes jornalistas acreditam que defendem a igualdade de gênero, os direitos individuais, a emancipação da mulher. Se nascessem na Arábia Saudita, talvez o fizessem em nome de Allah, o Justo, o Misericordioso, ou de qualquer outro valor que considerassem belo, moral, verdadeiro, fundamental, necessário [e universal!]. Suas idiossincrasias não alteram, porém, seu papel no âmbito que estamos analisando, o mesmo que os leva a falar de Sportwashing.


Tampouco os isenta de três 'erros' políticos. A alienação mencionada acima é um deles. A segunda, é imaginar que a política mais apropriada pros EUA ou pra Europa Ocidental é a politica mais adequada ao Brasil. Talvez seja bom para os EUA denunciar a Copa na Rússia. Mas é para o Brasil? Talvez seja bom para a mídia ocidental frisar que a Liga Saudita se dá em um país regido pela Shari'a, enquanto esquece que a Premier League e a Champions League , suspeitas de lavagem de dinheiro do crime organizado internacional, são objetos de propaganda do Norte Geopolítico. Mas é para o Brasil? Terceiro, ainda mais grave, está em reduzir o futebol à sua dimensão política, quando na verdade envolve questões culturais e identitárias de muito maior profundidade. A camisa da seleção brasileira não deve ser reduzida ao bolsonarismo, e Pelé tampouco a ''garoto propaganda'' de Médici.


O mesmo raciocínio vale para o papel do futebol na identidade inglesa, ou para o sentimento de pertencimento árabe. Vale também para o futebol feminino. Assim como usei a camisa canarinho para torcer pra Neymar e cia. em dezembro último, torcerei para as meninas do Brasil nas próximas semanas. Mas ao fazer isto, não é necessário se deixar cegar ou instrumentalizar por esta ou aquela potência no jogo de poder mundial. É possível fazê-lo a partir de uma perspectiva política, e mais importante ainda, a partir de um olhar [cultural] brasileiro. Afinal, se o futebol se expandiu pelo mundo pela força do neocolonialismo inglês, fomos capazes de reinventá-lo em nossos próprios termos, e mobilizá-lo em torno da difusão de nossas particularidades e virtudes, em prol daquilo que deve ser descrito com orgulho como a construção de uma Civilização Brasileira. Este deve ser nosso compromisso como sul-americanos e brasileiros. Não com o papel de difusores dos interesses desta ou daquela potência do Norte Geopolítico. E neste sentido, sim, podemos e devemos ser uma Pátria de Chuteiras.

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