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Neste 1o de Maio, uma carta de Getúlio Vargas

Em 1946, pela primeira vez em muitos anos o governo federal deixou de comemorar o primeiro de maio, dia do trabalhador, e o 3 de outubro, aniversário da Revolução de 1930.



Na estância da família, em São Borja, Getúlio Vargas enviou uma carta privada à sua filha Alzira, que morava no Rio e era sua principal articuladora política na capital da República.


Nela, o Pai do Trabalhismo expressava seu contínuo desprezo pela democracia liberal; e revelava o que pensava das críticas que recebia por ter agido com violência e imposto um regime discricionário.

Getúlio Vargas tinha de tomar uma decisão. Gozar da boa vida na fronteira rio-grandense ou retornar à luta contra interesses maximamente poderosos.


Todos esses documentos foram doados décadas depois à FGV por Alzira, a quem Getúlio confiava a guarda e arquivamento de todos os seus documentos, inclusive os mais confidenciais.


''Aqui estou, no silêncio e no isolamento, comemorando meu melancólico 3 de outubro, iniciado há dezesseis anos, num período ruidoso de lutas e de esperanças. Admito que tenha praticado erros. Mas suponho que entre esses não está incluído o propósito de fazer pacificamente uma revolução social. Procurei amparar os humildes, os pobres, os desprotegidos. Por isso se reuniram contra mim os poderosos, os interesses criados, a necessidade de voltar a um regime de privilégios, de negociatas e monopólios particularistas, sob o pretexto de restabelecer a democracia. A democracia era isso mesmo.
Eu saí do governo e estou numa encruzilhada, onde se apresentam três rumos diferentes. Um é de abandonar qualquer espécie de atividade política, recolhendo-me ao silêncio, não ser motivo de alardes, receios e perturbações. Este seria para mim o mais cômodo, o que me permitiria viver em paz, ficando longe dos ruídos do mundo.
Outro seria adaptar-me ao ambiente, conciliar-me com os interesses criados, não criticar, não fazer reparos, achar tudo bom. Para quê? Para esperar por melhores dias? Valeria a pena o sacrifício, ante um futuro incerto?
Outro, finalmente, seria enfrentar a luta com disposição, com energia, contra todos os interesses, a felonia, o poder, a violência, o dinheiro! Seria uma luta dura.
Para quê?
Pela satisfação do dever cumprido? Terei mesmo esse dever? Serei eu compreendido? Não atribuirão tal atitude a motivos menos nobres?
Eis, minha filha, o que fui pensando e transmitindo ao papel nesta melancólica tarde de 3 de outubro.
Que pensas?"

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