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Milícias, polícia e segurança pública - o buraco é mais embaixo



Se fala muito em confronto de Tarcísio com o bolsonarismo em torno da segurança pública de São Paulo, mas isso é só a nova versão de uma velha história sobre o papel, a natureza e os métodos das polícias no enfrentamento do crime organizado nas metrópoles.


A cultura institucional das polícias é organizada para agir ao arrepio da lei e do modo mais truculento possível, o que inclui matar sem dó nem piedade. Nossas polícias sempre foram adeptas do justiçamento e da imposição do terror. Quando eu era criança, nos anos 1980, a Rota paulistana era sinônimo de vigilantismo radical, na mesma linha dos esquadrões da morte tão famosos aqui no Rio de Janeiro desde pelo menos os anos 1950. É um fenômeno cultural-institucional que vai além das milícias.


A vida seria mais simples -- ainda que não necessariamente mais justa -- caso esses esquadrões e milícias se voltassem apenas contra criminosos de alta periculosidade e armados até os dentes. Porém, esta cultura institucional nada republicana discrimina por classe e pela geografia urbana. As polícias sabem onde e contra quem estão livres para exercer a truculência e violar a lei.


A ação das polícias é um dos sinais visíveis das delimitações não escritas entre os direitos reais da população das grandes cidades; deixa bem nítido quem é de fato considerado cidadão;, quem é cidadão pero no mucho;, e quem, aí sim, goza da plenitude dos direitos civis.

Estão iludidos também os que pensam que a violência de classe será sanada fazendo guerra contra as próprias corporações policiais; é confundir a lua com o dedo que a aponta. No fim das contas, o buraco é muito mais embaixo, e passa por uma mudança radical da organização sócio-econômico e da distribuição de poder e propriedade

Por isso também, todas as propostas de reformulação desse modelo e dessa cultura institucional mexem em um vespeiro imenso e que transcende as "fronteiras" das próprias corporações de segurança. Boa parte dos policiais se ressente das restrições ao uso de violência estabelecidas por uma postura republicana. Mas não só: um contingente imenso da sociedade imagina exatamente dessa forma o papel da polícia - um papel de aparato de repressão e terror contra as "classes perigosas", um papel de exército que explicite nossas rígidas distinções sociais.

Esta é a discussão que ninguém quer enfrentar nem à direita nem à esquerda. Uns exigem mais munição; outros, flores e sorrisos e uma igualdade abstrata. E a máquina de moer gente permanece intacta.

A solução não está na polícia. Estão iludidos os que pensam que a violência urbana será sanada com mais tiroteios. A esta altura do campeonato, é uma crença que pode ser qualificada de burra, de mera justificativa para o sadismo ou a sociopatia. Estão iludidos também os que pensam que a violência de classe será sanada fazendo guerra contra as próprias corporações policiais; é confundir a lua com o dedo que a aponta. No fim das contas, o buraco é muito mais embaixo, e passa por uma mudança radical da organização sócio-econômico e da distribuição de poder e propriedade.


Mas esta é a discussão que ninguém quer enfrentar nem à direita nem à esquerda. Uns exigem mais munição; outros, flores e sorrisos e uma igualdade abstrata. E a máquina de moer gente permanece intacta.


PS.: o crime nas metrópoles não será resolvido no âmbito de nenhuma Unidade da Federação (sejam os Estados ou o Distrito Federal). Tem de ser enfrentado diretamente pelo governo federal, que tem de ser fortalecido para agir contra o problema em todas as frentes, que incluem dos mecanismos de lavagem de dinheiro, passando pela infiltração no aparato judicial e policial, e chegando ao tráfico de armas e de drogas realizado no atacado.

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