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Privilégios pretos? Movimento Pardo cresce, contrariando o Movimento Negro hegemônico

O final de novembro foi marcado por intenso tráfego de comentários, repostagens e compartilhamentos nos perfis de Instagram de Beatriz Bueno Avelino - @parditude - (autora da monografia "Partitude, mestiçagem e identidade no Brasil - Uma Crítica à Rigidez Binária e a suas Implicações para a População Parda") e de Denis Mousa - @denis_mousan - (historiador e pesquisador). Os dois se destacam por escrever a respeito da questão dos "pardos" e mestiços, desafiando, assim, uma narrativa hegemônica que divide, de forma binária, a população brasileira em "brancos" e "negros" apenas.




O ponto de partida para a controvérsia foi a publicação e divulgação do artigo de Beatriz Avelino "Impedidos de entrar em Wakanda - Reflexões sobre Parditude, Manifestações Midiáticas e Desafios de Pertencimento", apresentado para o 44o Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação.



Existe hoje uma miríade de casos de "negros" – na verdade, pardos e mestiços - que são humilhados nas bancas de heteroidentificação por não serem "negros o bastante" para acessar os benefícios das cotas raciais (em provas, concursos etc). E isso é só a ponta do iceberg racial no país

O artigo de Bia (como ela é conhecida) trata de um tema comum para quem vive no Brasil real, mas propositalmente ignorado pelo Movimento Negro hegemônico e seus xerimbabos brancos (grupo este majoritariamente formado pela classe média urbana atolada em sentimento de culpa). O fato é que os pardos e mestiços, 47% da população brasileira, estão se dando muito mal com essa gambiara do Estatuto da Igualdade Racial (EIR), que junta pretos e pardos numa mesma categoria genérica, a categoria falseada "negro" [Nota do Sol da Pátria: Nessa terminologia, os "pretos" seriam aqueles que normalmente são vistos como negros no Brasil, ou seja, pessoas com traços tipicamente de origem africana. Já "negros" seriam uma categoria mais abrangente - basicamente todos os não-brancos]. Ou seja, para o citado Estatuto, a população "negra" no Brasil é formada pela soma de "pretos" e "pardos". Assim, nesse contexto, quando citam dados sobre "negros", usando tal terminologia, estão se referindo, na verdade, a essa categoria genérica que inclui também mestiços e pardos.


Existe hoje uma miríade de casos de "negros" – na verdade, pardos e mestiços - que são humilhados nas bancas de heteroidentificação por não serem "negros o bastante" para acessar os benefícios das cotas raciais (em provas, concursos etc). E isso é só a ponta do iceberg racial no país. Mais a fundo, há uma geração inteira de jovens que ficou num limbo de identidade racial - são pessoas desorientadas e confusas, barradas em bancas de quotas raciais para que uma nova espécie de elite minoritária negra de fato (algo entre 8 e 13%) possam usufruir dos benefícios reparatórios conforme concessões de uma elite branca brasileira que prefere se livrar de seu complexo de culpa sem olhar bem a quem dá a sua esmola - culpa esta que historicamente não incide nem sobre os descendentes de imigrantes europeus pós-escravidão e muito menos sobre a maioria parda de 47% do país.


As ideias do pesquisador congolês radicado no Brasil, Kabengelê Munanga consistem em um dos pilares da política racial no país hoje, materializada no Estatuto da Igualdade Racial. Contudo, quando forçado a olhar para o pardo, categoria racial cuja existência inclusive muitos se recusam a sequer admitir, o próprio Kabengelê acabou por admitir a fragilidade com que a política racial foi construída no país - e o fez mesmo sem mudar um milímetro sua posição sobre o tema (a de que pardos não podem e nem devem ter autonomia para falarem por si próprios e devem permanecer tendo a função de uma espécie de apêndice da minoria preta).


Primeiro, Kambengelê, em seu artigo (chamado "Rediscutindo racismo, negritude e mestiçagem"), admite que a junção forçada entre pretos e pardos (dentro da mesma categoria de "negros") é algo que atende um cálculo sobretudo político sem qualquer fundamento sociológico – ainda que seus defensores criem falácias do tipo "raça enquanto conceito social" ou "marcador genético". A experiência do pardo-mestiço, de fato, é uma experiência sociológica própria – como argumenta, com brilhantismo, Beatriz Bueno.


Kabengelê admite ainda o óbvio: as experiências raciais no Brasil, EUA e África do Sul são bem diferentes, sendo que, na África do Sul mesmo, o mestiço desempenha uma categoria à parte. Porém, ele argumenta que, no Brasil, por razões assumidamente de conveniência política, reproduzir o parâmetro norte-americano seria "interessante" por juntar pardos e pretos numa única categoria como forma de, assim, "fortalecer" esse grupo [artificial].

Bem, hoje, graças à experiência sociológica gerada pelo Estatuto da Igualdade Racial (EIR) – com pardos sendo humilhados e expulsos das "Wakandas", já sabemos para quem é interessante e quem se fortalece com essa política [uma pequena minoria, - artificialmente inflada - minoria esta que é o foco prioritário das políticas públicas defendidos pelo ativismo negro majoritário].


Kabengelê também deixa entrever a falácia do pensamento de que "mestiçagem é estupro" (a ideia equivocada de que historicamente só surgiram pessoas mestiças no Brasil pela prática branca de estuprar escravas negras). Ele o faz quando admite que historicamente existiram sim, casamentos e uniões interraciais consensuais e "amorosas" (palavra dele) - para o desespero da fanfarra identitária, da mídia e da pesquisadora mainstream israelita, hoje hegemônica, Lilia Schwarcz.

Por fim, cito frase da própria Beatriz Avelino:


"Me afirmar mestiça, é afirmar a realidade e só afirmado a realidade se pode transformá-la"

Recomendo que se leia a resposta dela dela ao Munanga no seu perfil - parte 1 e parte 2.



Nota do Sol da Pátria: É natural e até previsível o surgimento da expressão "parditude" (na mesma linha da "branquitude" e outros anglicismos estranhos). O risco desse tipo de discurso está em confeccionar (mais uma) categoria rígida, estanque, que não conseguirá capturar as nuances e ambiguidades das categorias brasileiras. Afinal, existe, frequentemente, nas falas e modo de pensar dos brasileiros, uma espécie de recusa à racialização. Categorias como "moreno", "pardo" e outras da linguagem quotidiana descrevem pessoas de aparência e ancestralidade ambígua, que não são claramente nem "brancas" nem "negras" nem indígenas ou asiáticas, mas alguma outra coisa ou ainda a mistura de algumas dessas (ou até de todas essas). Ou seja, a categoria "pardo" não é homogênea e descreve tanto pessoas com traços duplamente europeus e africanos (mulatos, na linguagem popular presente em sambas etc) quanto pessoas de traços duplamente europeus e indígenas - esta última combinação, note-se, não tem historicamente identificação com o universo afro e é mais comum no Norte do Brasil e região amazônica.


O sociólogo Rogers Brubakers, em seus trabalhos, fala sobre "etno-empreendedores" que tentam mobilizar populações a "assumirem" determinada identificação para assim forjarem uma consciência de grupo, que às vezes não é muito firme. Parece que o Brasil hoje é palco de, literalmente, disputas identitárias nesse sentido (disputas de identidade).


Historicamente, como no-lo ensina Darcy Ribeiro, a maioria da população no Brasil (com exceção de grupos como as nações indígenas, os quilombolas, sírio-libaneses, judeus, ciganos - ou romani - etc) não possui identidade étnica [forte]. A identidade no Brasil é formada sobretudo por outras molduras (regionalidade, religião, classe social, até mesmo time de futebol etc). É evidente que a percepção da cor (às vezes com conotação racializada) molda atitudes no Brasil, inclusive envolvendo o problema do racismo, com a herança escravocrata - mas o senso de grupo focado em raça não chega a ser forte o suficiente a ponto de formar identidades étnico-raciais [fortes], diferentemente do que ocorre em sociedades com histórico de segregação. Por exemplo, nos EUA até mesmo o sotaque e dialeto falado pelos negros, os afroamericanos, é bastante diferente daquele da maioria branca, até mesmo na sintaxe dos aspectos verbais. Já nós, brasileiros, somos, para o bem ou para o mal, uma civilização mestiça, como demonsta Gilberto Freyre, por mais que a crítica(em geral mal fundamentada) chie. Categorias importadas de outras civilizações não são, assim, as mais apropriadas para formularmos política pública aqui. É, portanto, desastroso um "binarismo" racial que não contemple e que invisibilize as pessoas com fenótipo/ascendência indígena, aquelas com traços indígenas, os caboclos, caiçaras, pardos, "morenos", mulatos, cafuzos e mestiços em geral.


Assim, o surgimento de uma discussão sobre "pardos" re-introduz um elemento faltante na conversa e é extremamente necessário e bem-vindo. Que se recuperem também as categorias "mulato" e "caboclo"!







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