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Identidade e identitarismo — para além das “ilhas” pós-modernas, a Identidade é fundamental

Muito se fala hoje em identitarismo. Não se fala tanto em identidade. O ser humano (ser social e político) é necessariamente um ser identitário - não no sentido pós-moderno, mas no sentido de ser uma criatura que necessariamente possui identidades ou “identificações” - frequentemente mais de uma. O problema do identitarismo pós-moderno é que ele insulariza identidades; transforma-as em ilhas isoladas desalinhadas e incompatíveis com outras identificações.



Embora adote um discurso processualista, não-essencialista, que retrata o mundo como coisas em processo, fluindo, na sua práxis político-identitária, por outro lado, essa nova ideologia é fetichizante e engessadora: tomada pela síndrome do carimbador maluco (da canção de Raul Seixas), a militância identitária quer forçar e enquadrar as pessoas em categorias bem definidas. Meninas que gostam de brincar com meninos e de se vestirem de certa forma (as maria-rapaz de Cabo Verde, as tomboy inglesas, as menina-molecas) são colocadas na camisa-de-força da identidade de “homem trans”. Pessoas que, no Brasil, são descritas com palavras como “morenas”, “mulatas” e inúmeras outras são pressionadas a se posicionarem politicamente como negras (num apagamento das ancestralidades ameríndias) ou empurradas para a categoria “branco”. Um dos maiores debates no meio identitário é justamente sobre se a cantora Anitta é branca ou negra - não parece haver outra opção além dessas duas. Nas descrições raciais, que, historicamente sempre abarcaram várias categorias no Brasil (cafuzo, caboclo, mulato etc), os identitários impõem o binarismo racial. Já nas categorias de gênero, promovem a multiplicação febril de identificações.


Ora multiplicando, ora binarizando, na prática, o identitarismo, além de reenquadrar e desalinhar identidades, insularizando-as, também promove diferentes formas de segregacionismo racial, de gênero e outras - como quando promove “espaços de convivência” só de negros ou só de mulheres, como “espaços seguros”. Com uma roupagem progressista, na prática, o identitarismo promove formas de apartheid e neo-puritanismo vitoriano, por meio da higienização e domesticação da fala.


[vide “Carnaval: a festa indomável no espírito brasileiro” - https://www.soldapatria.org/post/carnaval-a-festa-indom%C3%A1vel-no-esp%C3%ADrito-brasileiro - e também “O caráter indômito da cultura popular” - https://www.soldapatria.org/post/o-carater-indomito-da-cultura-popular ]


Nas bolhas identitárias no Twitter, identitários reclamam da presença de jurados brancos nas escolas de samba, como se fossem brancos julgando negros - ignorando o fato de que a cultura do samba, embora tenha ecos e origens afrobrasileiras, sempre foi aberta a brancos, negros, caboclos, mulatos etc: basta pensar em Zeca Pagodinho, Noel Rosa, o bacharel do samba Mário Reis, Paulinho da Viola, Dorival Caymmi, Roque Ferreira, Francisco Alves, Osvaldinho da Cuíca, Roberta Nistra e tantos outros, hoje e nas últimas décadas. Os identitários então, não raro denunciam a existência de pagodeiros e sambistas brancos como exemplo de “apropriação cultural” - ou ainda promovem como simplesmente “negros” pessoas que no geral não são consideradas negras no sistema classificatório brasileiro fora das bolhas elitistas universitárias. “Mulato”, por exemplo, é uma categoria nativa brasileira, presente nas canções populares, nos cordéis, sambas e na fala quotidiana.


No mundo ideal identitário, só existem brancos e negros, com um menu de dezenas de gêneros; neste mundo, pessoas que são brancas não participam de nenhuma cultura musical que seja associada à negritude, em uma estranha e distópica “utopia” segregacionista.


Aqui cabe introduzir um pouco de teoria antropológica contemporânea sobre identidades - se o(a) leitor(a) tiver paciência:


As diferentes identidades (ou “identificações”) de uma pessoa situam-se dentro de “enquadramentos” ou “molduras”, como propõem os autores do artigo “From Identification to Framing and Alignment: A New Approach to the Comparative Analysis of Collective Identities”, publicado em 2017. Exemplos de “enquadramentos” seriam “nacionalidade”, “religião”, “etnia” etc. Por exemplo, parafraseando os autores do artigo citado: “argentino” e “brasileiro” são ambas categorias de identificação dentro de um mesmo enquadramento ou moldura - no caso, a moldura da nacionalidade. E por isso mesmo geralmente são mais ou menos incompatíveis - ou, no mínimo, a identificação dupla gera alguma tensão ou dúvida.


Em alguns casos, as categorias de identificação podem estar “alinhadas” com categorias superordenadas. Por exemplo, “escocês” alinha-se exatamente assim com “britânico”, ou seja, é possível ser escocês e britânico, ao mesmo tempo, sem problema algum - pelo menos, por enquanto e de modo geral. Isso, claro, pode mudar, se ocorrer, com amplo apoio popular, a secessão da Escócia, por exemplo (há um movimento separatista e as opiniões dividem-se). Então, pode haver, note-se, uma controvérsia ou disputa sobre alinhamentos.


Esses autores também comentam sobre relações sintagmáticas e paradigmáticas entre categorias de identificação. Parece complicado, mas é simples.


Relações sintagmáticas baseiam-se em categorias compatíveis, que são compatíveis justamente porque elas vêm de diferentes enquadramentos de referência. Já as relações paradigmáticas são aqueles casos que envolvem categorias dentro do mesmo enquadramento e que, portanto, não estão alinhadas - e, assim, são incompatíveis e mutuamente exclusivas. Novamente, parece complicado, mas é bastante simples:


Por exemplo, a identificação “italiano católico” não é problemática e as duas coisas são compatíveis justamente porque uma categoria diz respeito à religião e a outra, à nacionalidade. Porém, a identificação “católico muçulmano” seria, a princípio, incompatível. Na prática, normalmente geraria no mínimo certa tensão, uma confusão ou estranhamento, possíveis contestações etc.


Resumindo: as relações paradigmáticas são do tipo “ou isso ou aquilo”: via de regra, um indivíduo, por exemplo, ou é polonês ou ucraniano e, havendo dupla identificação (no caso, por exemplo, de quem tem mãe polonesa e pai ucraniano), pode haver pressões para que o indivíduo “escolha” uma das identificações - e mesmo pressões e contestações referentes à lealdade dele, principalmente em situações de conflito. Nem todos os países reconhecem a dupla cidadania etc etc.


Existem ainda as relações taxonômicas, que são parecidas com as relações sintagmáticas: é o que acontece quando um “grupo” X é, sem controvérsia, entendido como sendo um tipo de Y. Assim, “nordestino”, por exemplo, é um tipo de “brasileiro”. Não há incompatibilidade porque, novamente, são enquadramentos diferentes: “nordestino” é uma categoria que está no enquadramento da regionalidade (entendida como região do Brasil), enquanto que, nesse exemplo, “brasileiro” é uma categoria de nacionalidade.


Note-se que, no caso de um movimento separatista envolvendo uma região, a categoria que estava enquadrada na moldura da regionalidade pode ser reenquadrada, passando então a ser entendida, por uma coletividade, como sendo da moldura da nacionalidade - imagine um movimento político que defende o Nordeste independente, por exemplo.


Da mesma forma, no caso hipotético de um movimento separatista paulista, ocorreria, naquele grupo, uma operação de reenquadramento, por meio da qual “paulista” passaria a ser entendido como uma categoria enquadrada na moldura da nacionalidade, transformando-se, assim, uma relação que antes era alinhada e taxonômica (ser “paulista” estava alinhado com ser brasileiro) em uma nova relação “paradigmática”, de incompatibilidade. Ou seja, o re-enquadramento acarreta num re-alinhamento.


Em casos, como “muçulmano alemão”, em tese, de acordo com este modelo, não deveria haver incompatibilidade nenhuma. Porém, como notam os autores citados (EIDSON et al, 2017, p. 344), existe um debate a esse respeito em andamento na sociedade alemã hoje, debate esse que ocorre na imprensa, nas discussões dos partidos políticos etc. Alguns setores da sociedade alemã parececem considerar que um alemão protestante é “mais alemão” do que um alemão muçulmano. Essas pessoas estão “enquadrando” as categorias de forma diferente. O que ocorre é que, para elas, não se trata simplesmente de uma questão de fé e de cidadania, mas antes, na visão delas, de uma questão de culturas e civilizações incompatíveis: o Islã, para elas, não seria só uma religião, mas antes uma civilização - incompatível com a ocidental.


E o que tudo isso tem a ver com o identitarismo? A tendência nos meios identitaristas hoje é de transformar categorias que estavam superordenadas em categorias separadas e até incompatíveis.


Por exemplo, a identidade de “mulher” existe. Pessoas do sexo feminino normalmente se identificam como “mulheres” e possuem alguns interesses em comum na sociedade, na saúde pública, por exemplo, e na questão da licença-maternidade, entre várias outras. Embora no Brasil não exista um grau tão forte de sentimento grupal racial como, por exemplo, nos EUA (onde existe histórico de leis de segregação, guetos e até dialetos diferentes), existe, sem dúvida, uma identidade negra brasileira: pessoas que são negras possuem algum grau de identidade de grupo.


Para o identitário, porém, entre o homem negro e a mulher negra existe um abismo quase intransponível e, mais ainda, a identidade de mulher negra não está alinhada com a identidade de mulheres em geral. Mulheres negras não são simplesmente pessoas que são mulheres e também são negras e, sendo assim, possuem interesses em comum com as mulheres em geral (inclusive as mulheres brancas) e ainda com as pessoas negras em geral (inclusive homens). Nada disso: a identidade mulher-negra e a de mulher-branca e homem-negro são até hostis entre si. Se o feminismo é, como defendem, supostamente a defesa dos interesses das mulheres, o “feminismo negro”, nessa visão, não possui apenas especificidades em relação ao feminismo em geral - mais do que isso: o feminismo negro seria um outro feminismo, totalmente diferente e até antagônico.


Assim, se multiplicam as identificações hifenizadas: mulher-trans-branca-não deficiente e assim por diante, ad nauseam. Essas identificações são hierarquizadas ou julgadas, de forma maniqueísta, com base no grau de “privilégio” e o ato de “checar os privilégios" é um novo ritual de auto exame e culpa.


Na questão racial, o identitarismo brasileiro tende, como vimos, a um binarismo, rejeitando as ambiguidades e renegociações típicas da sociedade brasileira.


Finalmente, o identitarismo, assim como o pós-modernismo, busca “desconstruir” todas as “grandes narrativas” enquanto promove uma multiplicação das pequenas narrativas (seja de forma binária ou não) - isso se reflete também na questão das identidades. Toda identificação, para o neoidentitário, é válida, inclusive pelo critério individualista da autoidentificação. Toda identidade é válida - menos a nacional. Esta, para eles, é uma “invenção”, uma “ficção” que tem de ser constantemente denunciada e desconstruida, enquanto categorias como gender-fluid, “não-binárie”, “genderfuck”, demigênero, aporagênero e inúmeras outras são essencializadas, fetichizadas e entendidas como categorias naturais - como é visível na questão das “crianças trans”. Nesses casos, entende-se que a pessoa “é” aquilo, “nasceu” daquele jeito, quase como se tivesse uma alma que é de determinada maneira.


Nas ciências médicas e psicológicas, o diagnóstico tem caráter heurístico, mas os identitários também trabalham para enquadrar posições em determinado espectro diagnóstico como identidades essencializadas, reificadas, tribos urbanas e nichos de mercado. Essa própria engenharia social, parte dum fenômeno de globalização da psiquê norte-americana*, é também constitutiva de novos diagnósticos e novos distúrbios psicológicos, fenômeno que a psicologia intercultural (ou cross-cultural psychology) já sabe existir há muito tempo (vide as “síndromes ligadas à cultura” ou “culture-bound syndrome”).


[*cf. o livro "Crazy Like Us: The Globalization of the American Psyche" de Ethan Watters]


Como tecnologia social, a indústria identitária é, inadvertidamente ou não, uma força centrífuga e alienante, que promove e exacerba o atomismo social e o conflito étnico e conflito de identidades e grupos no geral.


Sua práxis política e seu empreendedorismo político cria nichos, mas não é capaz de oferecer nenhuma solução estrutural em questões macro que demandam a perspectiva nacional.


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