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O caráter indômito da cultura popular



Existe um caráter indômito da cultura popular que faz parte de sua força vital. Sempre haverá nela traços politicamente incorretos e ela nunca será plenamente domesticada pelos patrulhamentos moralistas de seus inimigos. A cultura popular não se encerra em nenhuma fórmula maniqueísta ou moralista simples - nem mesmo as histórias infantis e contos de fada. Assim como a vida, que ela espelha e também cria, ela é marcada pela ambiguidade, pelo chiaroscuro e, nas festividades, também pela sacanagem, malandragem, o riso irreverente - que já ecoava na idade média europeia, no riso pascal, na festa do asno. Riso que tanto incomoda burocratas, medíocres e bom mocistas.


Autores como Peter Burke, Carlo Ginzburg e Mikhail Bakhtin estudaram a relação circular entre cultura popular e cultura letrada. O que chamamos de cultura erudita ou clássica sempre esteve em diálogo com a cultura do povo. Shakespeare, Goethe, Rabelais e tantos outros autores clássicos escreviam suas obras apropriando-se (no bom sentido) de estruturas e temas da cultura popular e as suas obras, por sua vez, eram recitadas ou encenadas nas feiras, na praça pública. Apesar dessa relação umbilical, os mesmos autores citados também estudaram a guerra que parte da elite letrada começou a travar contra a cultura popular, na idade moderna.


Era uma guerra travada pela “elite iluminada”, em nome dos valores da Razão, do Iluminismo e do Progresso - guerra para “educar” e “civilizar” o povo, então visto como bárbaro. Hoje a mesma guerra é travada pela mesma elite soberba. É uma guerra cultural, como está na moda dizer hoje, com contornos espirituais - de uma espiritualidade seca, higienizada, hospitalar e sem vida. Mas o povo sabe: a soberba antecede a queda.


Hoje a mesma guerra contra o povo é travada com uma diferença: eles dizem que é em nome do povo mesmo e das minorias.


Um exemplo foi a recente posse do presidente da república. Lembramos que ela não teve a tradicional salva de tiros de canhão - em respeito aos cachorros das madames e também às pessoas autistas. É uma ideia simpática, mas sempre é possível ser mais e mais inclusivo, por que não? (não só na posse, mas em tudo.) Existem pessoas que têm fobia de cavalo, fobia de crianças, existem hoje até os “childfree”, que não é uma fobia nem um transtorno nem uma condição especial - é um tipo de filosofia, parece. São pessoas que odeiam risadas de crianças, as próprias crianças, a vida e, dizem, eles próprios.


Sabemos que há pessoas que têm fobia de palhaços, logo palhaços deveriam ser banidos de apresentações, circos etc... É possível ir mais longe, sempre mais e mais.


É claro que a acessibilidade é necessária: as rampas de acesso a cadeirantes nos transportes públicos e nas vias públicas e a infra-estrutura e sistema de suporte e apoio fornecido por um Estado de bem estar social. Mas não é com nada disso que os bom mocistas estão preocupados. Eles até dirão, contraditoriamente que autistas e pessoas com TDAH etc não são neurotípicos, mas, asseguram, não possuem nenhum "problema" - ora, se uma pessoa tem necessidades especiais, é claro que ela tem uma condição que, em muitas coisas, limita e dificulta a vida e, por conta dessas limitações, nem tudo lhe convém.


Mas não se trata de reformar a saúde pública aqui: trata-se de redesenhar, pela engenharia social, a cultura popular, o vocabulário, as festividades, as torcidas de futebol, os palavrões, as regras do coito e as próprias formas de manifestação de afetos - a imaginação do povo.


Nesse exato momento, na Ásia, na Oceania e na África, onde estiver havendo aclamação de um rei, chefe local ou presidente, haverá tambores, fogos, tiros, barulho. É universal.


O novo alvo da elite letrada progressista é o carnaval. Como os “sábios” de Lapucia das Viagens de Gulliver (de Swift), os nossos “sábios” reescreverão dicionários, recriarão calendários e determinarão quem pode se fantasiar de quê no carnaval. Um carnaval disciplinado de acordo com as sensibilidades de uma elite universitária que usa linguagem neutra.


Eles não vão parar por aí.


Os bom-mocistas são a nova versão dos inimigos da cultura popular, como parte do clero ocidental já fora no início da modernidade. Eles banirão toda festa e ainda não estarão satisfeitos.


Rei Momo sempre perde a batalha para a Quaresma - que sempre chega. Porém, todo ano - e nunca falha - é Carnaval de novo. O Sol sempre bilhará.


Pão, terra, tradição!

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