A missão da Parditude: Sol da Pátria no lançamento de Beatriz Bueno
- Sol da Pátria

- há 1 dia
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O Sol da Pátria esteve representado marcando presença no lançamento, em São Paulo, do livro "Parditude: Um guia para te resgatar do limbo racial" (Editora Planeta, 2026), de Beatriz Bueno, que encabeça a iniciativa "Parditude" (@Parditude).


Deveremos, em breve, publicar uma resenha do livro lançado, mas desde já podemos destacar alguns aspectos da produção da autora, que é um misto de intelectual em formação, influencer (no sentido positivo) e ativista. O trabalho de Beatriz Bueno, centrado no conceito de “parditude”, explora as vivências específicas da população parda no Brasil (em sua condição mestiça e “multirracial”), destacando suas contradições subjetivas, processos de racialização e o suposto “limbo” identitário (de identidade) em que tal população por vezes se encontra - como seja, nem plenamente absorvida na “negritude” (no caso dos mulatos) e nem na "brancura".
Vale lembrar que há, ainda, os mestiços que são caboclos, cuja ancestralidade indígena tende a ser apagada por um discurso identitarista de “binarismo” racial (“ou é negro ou é branco”), discurso que é também cada vez mais afrocentrado, de maneira distorcida. Beatriz a isso também alude em seu trabalho. A questão é que existe, de fato, um novo dogma racial no Brasil, segundo o qual as pessoas pardas, mulatas, cafuzas, caboclas e “morenas” são simplesmente “negras”, em uma nomenclatura que parece importar a lógica da “regra de uma gota só de sangue” do racismo norte-americano; e que gera, assim, uma terminologia confusa e sem aderência, que acaba por desvalorizar a mestiçagem, atribuindo ao mestiço o estigma da bastardia (“filhos do estupro”), exatamente como fazia o discurso racista do século XIX e primeira métade do século XX - e, mais ainda, ignorando o fato histórico da miscigenação popular (entre brancos, negros e indígenas - pela prática do cunhadismo) em um país em que os senhores de escravos eram, naturalmente, a minoria. Este é o contexto do trabalho de Beatriz, recente expulsa de seu programa de mestrado, que vive hoje uma perseguição kafkaniana.
Beatriz, que está posicionada num campo política de esquerda social-democrata (e feminista), não tem medo de dialogar com a direita, com liberais e conservadores ou com a esquerda marxista e com os nacionalistas - e o faz sempre com classe e respeito. E não tem medo tampouco de abordar o problema da mulher, na perspectiva das mulheres natas, o que faz dela duplamente herege frente aos novos dogmas identitários do trans-ativismo.
Duma perspectiva nacionalista, o importante no trabalho de Beatriz (que está dialogando com e respondendo a um certo discurso Woke/identitário) é que ele resgata a mestiçagem como experiência concreta e cotidiana, e assim potencialmente dialoga com intérpretes clássicos do Brasil de forma não-maniqueísta: reconhece, em Gilberto Freyre (apesar das críticas a autora já lhe teceu, em artigo à Folha de São Paulo), a percepção da mistura como traço estruturante da sociedade brasileira, ainda que criticando o tom harmonizador supostamente excessivo que mascararia hierarquias raciais; por outro lado, aproxima-se também de Darcy Ribeiro (fazendo uso do conceito dele de “ninguém-dade”), ao valorizar o “Povo-Novo” mestiço como potência criativa e civilizatória singular; e até mesmo de Mário de Andrade - porém sempre sem romantizações utópicas, ancorando-se nas dores, nas negações e nas resistências vividas pelos pardos no presente, em meio aos dilemas identitários de uma sociedade cada vez mais polarizada e politizada. Valendo-se de uma linguagem também "identitária" (reivindicando uma identidade e um "lugar de fala" pardo), a autora cria assim um curto-circuito no discurso identitário hegemônico, fazendo surgir uma brecha e uma chave de leitura para que se revele o problema da identidade nacional - esta que hoje parece ser a identidade proibida por excelência.
O trabalho de Beatriz tem, no presente, a missão importante de dizer o óbvio: de que o Brasil é altamente miscigenado (física e culturalmente) e de que mestiços e pardos existem. E de que isso não é ruim. E isso significa dizer que o Brasil não é ruim. E nem é um erro. É o que é, no chiaroscuro de suas contradições, de seus dramas e alegrias.
Pão, Terra, Tradição!





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