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Carnaval: a festa indomável no espírito brasileiro




A Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro -- em que nasci e cresci -- já está mergulhada no clima do Carnaval. Os blocos pipocam em todos os lados; o calor, por quase insuportável que seja, nos conecta com um "espírito carioca" que parece exigir cerveja gelada, praia, samba, pouca roupa, e nos recorda que esta é uma terra tupinambá.


E na medida em que a Festa se aproxima, surgem também aquelas narrativas clichês, tais como: i. ou idealizam uma época em que todos gostavam e pulavam o Carnaval, lamentando a oposição que a festa sofre hoje em dia em parte da cidade; ii. ou criam a ilusão de que o Carnaval do Rio foi, em algum momento, "menos sensual", "menos violento e luxurioso". São duas perspectivas falsas.


O Carnaval sempre sofreu forte contestação de alguns grupos religiosos, moralistas, acadêmicos, que desejavam, de toda maneira, que nos enquadrássemos na civilização europeia iluminista que era considerada em círculos de elite como o ápice da aventura humana. [Um discurso que continua vivo, embora com adornos diferentes dado seu conteúdo explicitamente racista e colonialista.] E não era qualquer Europa que se pretendia imitar, mas a "Ocidental", ou antes, Iluminista, a civilização cujo eixo era Londres-Paris-Berlim. Prova disso é que o entrudo, manifestação de herança portuguesa e cultivada até mesmo dentro do Palácio Imperial, causava desgosto em muitos jornalistas e intelectuais, que o combateram com denodo, convictos de que jamais seríamos uma país digno do nome se aquela brincadeira não fosse extirpada o quanto antes das ruas da capital. O chefe de polícia Alexandre Joaquim Siqueira se esforçou bastante pra suprimir o entrudo no início da República, e alguns festejos à europeia foram importados e incentivados para substituir toda aquela “barbárie”.


Outra brincadeira de origem portuguesa fazia muito sucesso entre os populares, o Zé Pereira, fantasia acompanhada por bumbos e tambores. Os jornais clamavam contra a selvageria, “digna de zulus e cafres boçais”, segundo a Gazeta de Notícias. Outros colocavam sua esperança na força do Estado, acreditando que “os ruídos bárbaros são convidados a desaparecer de uma cidade que começa a cultuar a civilização.”


A matriz do discurso é aquela do século XXI. As justificativas mudam os acessórios, mas continuam essencialmente as mesmas. As palavras de Artur Azevedo, um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, ainda ressoam pelos cantos da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro e onde quer que existam foliões no país. Segundo ele, se algum gringo desembarcasse no Rio em época de Carnaval teria a impressão de estar “n’alguma terra dominada por selvagens africanos”. O literato lamentava as composições que grassavam durante a festa, “que pareciam ter saído do cérebro de um negro-mina que houvesse enlouquecido”. O Carnaval trazia ao Brasil, ainda segundo Azevedo, dois grandes perigos monstruosos: a sensualidade e as expressões culturais negras.


O Carnaval popular nunca foi matéria de consenso. É justamente o contrário, é o âmbito de luta, de confronto, de disputa sobre identidades e espaços públicos. A tentativa de domar a festa, de moldá-la ao gosto europeu ou da classe média eurocêntrica, tampouco apresenta qualquer novidade. Carros alegóricos, desfiles de automóveis [corso], máscaras venezianas etc. foram trazidas para tentar sufocar a brasilidade mestiça que teimava em florescer e explodir à vista de todos. Os muxoxos e as sabotagens de nada adiantaram antes, e de nada vão adiantar hoje. Estas iniciativas serão todas devoradas e remodeladas segundo o verdadeiro espírito brasileiro, que não é só o da festa, mas é o da festa também.


As elites que desejam participar desta brasilidade, em vez de negá-la em nome de parâmetros que nos são alheios, também podem encontrar modelos na História, como o de Afonso Arinos, que dava conferências sobre as tradições e o folclore pátrio à alta sociedade da cidade de São Paulo, fazendo seus convidados assistirem a apresentações de cateretê, para contragosto deles próprios, que, segundo Nicolau Sevcenko, desejavam se provar como perfeitamente europeus. Uma fantasia alienante da qual zombaremos mais uma vez durante este mês.

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