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O Mito de Er

O mito de Er é a narrativa que marca o fim da obra A República de Platão. Trata-se de um relato fantástico feito por Sócrates cujos temas centrais são o julgamento escatológico, a reencarnação ou metempsicose e a necessidade da ordem cósmica. A história tem início com a morte de um soldado panfiliano chamado Er, filho de Armênio, que perdera a vida em combate e cujo corpo havia sido encontrado e recolhido no campo de batalha ainda intacto dez dias depois. No décimo segundo dia, quando lhe eram prestadas as homenagens, realizados os rituais fúnebres e seu corpo encontrava-se já prostrado na pira funeral, Er ressuscita e relata as experiências fantásticas de sua jornada no além-túmulo [1].



O mito de Er é uma espécie de grande síntese imagística da filosofia, poesia, ciência, historiografia, religião e arte visual da Grécia entrelaçadas numa narrativa que serve de corolário à discussão acerca da justiça dos livros anteriores [2]. A sua conclusão nos indica, entre (muitas) outras coisas, o caminho ascensional que é a recompensa da alma virtuosa e, por outro lado, os infortúnios que aguardam aqueles que negligenciaram o cuidado com a alma.


Para Halliwell [3], a complexidade dessa narrativa e os inúmeros questionamentos que ela suscita devem-se a três motivos que encontram-se imbricados: a) porque toma a tarefa profundamente ambiciosa de apresentar uma perspectiva simbólica do todo da realidade, um equivalente figurativo do tema do livro sexto: “the contemplation of all time and all being” (486a); b) porque sua densa textura de alusões comporta uma multiplicidade de significados que não podem ser adequadamente desenvolvidos através de uma única interpretação e; c) porque se apresenta como uma espécie de contraponto desafiador, combinando harmonia e dissonância com o restante de A República.


A história de Er pode ser dividida em três partes que representam três grandes ideias, a saber: o julgamento escatológico, a necessidade cosmológica, e a reencarnação ou metempsicose.


Alberto Buela [4] afirma que a primeira coisa tornada explícita pelo mito é a crença na reencarnação. Segundo o filósofo argentino, metemsomatose seria um termo mais apropriado uma vez que o relatado é uma troca de corpo e não de alma. É importante destacar que essa mudança de corpo é uma decisão livre do homem na qual a divindade não interfere, a não ser como mediadora do sorteio que antecede a escolha da vida futura.


Halliwell [5] faz importantes observações quanto à dimensão mitológica (e literária) do relato. Para o acadêmico inglês, enquanto narração de uma história, o mito de Er não é nem uma reprodução de uma narrativa culturalmente canônica e nem uma completa invenção de Platão. O mito utiliza-se de uma estrutura e elementos simbólicos familiares à mitologia grega e a heróis como Odisseu, Hércules, Orfeu e os relatos de seus feitos extraordinários, ainda que se aproprie do mito de acordo com os propósitos filosóficos que lhe são próprios. Nesse sentido, o mito pode ser interpretado como uma transfiguração filosófica da Odisséia, em que a busca da alma pela felicidade e os perigos e obstáculos que enfrenta nessa caminhada substituem a jornada do herói em seu regresso ao lar.


Não podemos deixar de reparar que a ideia da imortalidade da alma permanece central para o mito de Er. Essa ideia está, evidentemente, pressuposta pelo julgamento no além-túmulo e a transmigração da alma — toda a narrativa é construída a partir da suposição de que a alma sobrevive à morte do corpo. O próprio mito poderia ser considerado como um argumento a favor da crença na imortalidade da alma, se aceitamos que Sócrates toma o relato como fidedigno (embora não possa fazer nada para provar sua validade) [6].


O mito de Er encerra muitas camadas de significado e, não raro, deixa transparecer aparentes contradições ou contrapontos muito difíceis de responder.


Como explicar, por exemplo, consideradas as imagens de vida após a morte apresentadas no decorrer do diálogo, a necessidade de um mito transmitindo uma “revelação escatológica” que não havia sido considerada anteriormente? Por que o tratamento de uma ideia tão abrangente quanto a reencarnação pôde ser adiado até o estágio final da obra se devemos (?) considerá-lo de suma importância para a ideia de uma vida boa e justa? Como considerar o fato de que a alma de Er continua, durante sua jornada no além-túmulo, a se comportar exatamente como uma pessoa encarnada, utilizando linguagem, escutando e percebendo tudo que vem ao seu encontro? [7]


Referências:


[1] HALLIWELL, S. The Life-and-Death Journey of the Soul: Myth of Er, The Cambridge Companion to Plato’s Republic, New York: Cambridge University Press, 2007, p. 445

[2] Ibid. p. 445

[3] Ibid. p. 445

[4] BUELA. Alberto. Los mitos Platónicos vistos desde América. 1. Ed. Buenos Aires: Editorial Theoria, 2009. p. 59

[5] HALLIWELL, Op. cit., p. 447

[6] Op. cit., p. 458

[7] Op. cit., p. 460–461

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