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Saiba o que Dugin e as feministas têm em comum

Em sua Noomaquia, Dugin afirma que, ao estudar as estruturas do imaginário e obras sobre filosoria e estética, descobriu um terceiro Logos ao lado do apolíneo e dionisíaco: o cibelino.


"Cheguei à conclusão de que há algo além desses dois Logos, que existe um terceiro. Além do Logos Dionisíaco, algo mais está oculto. Na sombra de Apolo há Dionísio, mas na sombra de Dionísio há outro. Eu o chamei de Logos de Cibele.[...] Cibele é o nome de um deus anatólio muito antigo, a Grande Mãe dos Hatti, um povo pré-indo-europeu muito especial que vive na antiga Anatólia antes dos hititas, que mais tarde adotaram essa divindade, integrando-a em seu panteão religioso. Depois deles, o culto a Cibele também foi desenvolvido pela população indo-européia dos frígios, cuja deusa principal era precisamente a “Grande Mãe”. O culto da Grande Mãe foi baseado na castração ritual do homem. Os sacerdotes de Cibele foram castrados tornando-se eunucos e isso fazia parte da grande visão do matriarcado, do reinado da Grande Mãe, onde o papel do homem é completamente diferente do que sabemos. Uma posição completamente diferente da posição dionisíaca, já que o culto a Dionísio era o centro atraente dos bacantes, das mulheres, mas também dos homens, e, nesse caso, é o homem no centro da existência humana." [Dugin, 2018]


Estupefato com sua descoberta, Dugin se pergunta: "Por que o Logos de Cibele foi descoberto tão tarde? Por que ninguém nunca falou de três Logos antes?"


Mas o russo sabe que não é bem assim. Suas idéias de uma Europa pré-Histórica mergulhada no Matriarcado e no Culto à Deusa-Mãe são copiadas de ''mitologias'' ocultistas da segunda metade do século XIX e que se consolidaram depois em boa parte do pensamento feminista na forma de uma Utopia ancestral de Poder Feminino.



Para resumir a história, a tese matriarcal ganha status acadêmico com o jurista suíço Johann Jakob Bachofen, em sua famosa obra "Direito Materno", de 1861, que associa, por meio de uma particular interpretação de mitos, a matrilinearidade à ginecocracia [governo das mulheres].


Bachofen propõe uma linha evolutiva para a cultura humana fundamentada na relação entre os sexos. Para ele, esta relação era o motor da história, incluindo suas transformações e revoluções.


O primeiro estágio, segundo Bachofen, era o ''afroditismo'', de intensa promiscuidade sexual e escravização das mulheres pelos homens. Uma revolução ginecocrática "amazônica" teria colocado fim ao nomadismo e iniciado a civilização, inaugurando um período ''lunar'' associada à agricultura e a mitos ctônicos sob a égide da deusa Deméter. As mulheres conquistam o domínio do Estado e implantam uma severidade de costumes insustentável, que conduziria ao terceiro estágio, o dionisíaco, em que há a valorização do casamento monogâmico e certa pacificação da relação entre os sexos. Esta era abre caminho para a afirmação do direito paterno, com os homens se sentindo livres da maternidade e da natureza e tendendo a reduzir o papel das mulheres mais uma vez à da fase do afroditismo. Eis o estágio apolíneo, sempre ameaçado por uma nova revolução "amazônica" dado o novo desequilíbrio entre os sexos.


Para que este esquema se adapte à ''noologia'' de Dugin falta o salto dado pela linguista, e também sufragista, Jane Ellen Harrison em sua obra "Prolegômenos ao estudo da Religião grega", de 1903. Suas pesquisas em Creta lhe deram a convicção que a Europa era habitada por povos que viviam no matriarcado antes da chegada dos invasores arianos. Seu conceito de Matriarcado está vinculado à uma religião primeva marcada pelo culto a uma Deusa Maternal, da fertilidade e da agricultura. Seria uma utopia de paz e liberdade que chegou ao fim pela invasão dos "bárbaros setentrionais", nômades indo-europeus comedores de carne, que estabeleceram a patrilinearidade e o culto a Zeus e Apolo.


Estas ideias saídas da pena de uma feminista faziam parte de uma atmosfera mística e acadêmica que ressoava tanto nas obras de Ludwig Klages -- e dali em Walter Benjamin e em parte da Escola de Frankfurt --, quanto em Julius Evola ou em Margaret Murray e Gerald Gardner. Podem ser encontradas em produtos da cultura pop de massas, desde Mad Max: Fury Road, filme de George Muller; até Brumas de Avalon, de Marion Zimmer Bradley.


E, claro, alimentam a obra de Dugin, que diz assumir a perspectiva "apolínea" dos invasores indo-europeus ['arianos'] que teriam colocado fim ao Matriarcado original e agrário.


Em termos acadêmicos, estas ideias têm uma montanha de furos, que foram expostos, debatidos e reformulados ao longo dos últimos setenta anos de pesquisas. Fora de nichos místicos e da militância de grupos feministas, quase ninguém defende a existência de uma Pré-História mergulhada no Matriarcado Primordial, seja ele lido como um governo explícito das mulheres ou uma civilização pacífica moldada pelo culto à Suprema Deusa-Mãe.


Assim como sua ideia de Império Russo, a Noomaquia e a Filosofia da História de Dugin não deriva exatamente da Tradição, mas de um conjunto específico de ideias do ocultismo europeu oitocentista que impulsionaram movimentos acadêmicos e ideológicos de natureza eminentemente moderna.


Eis a "Tradição" dos duginistas.

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