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119 sem José do Patrocínio

“Se fosse possível reunir todos os artigos, todos os discursos, com que Patrocínio atacou a escravidão e seus defensores, o livro em que ficassem compendiados esses libelos seria o mais belo poema da Justiça [...]”.

- Olavo Bilac.

 

Hoje, dia 29 de janeiro de 2024, completa-se 119 anos da morte de José do Patrocínio, o Tigre da Abolição. Nascido em 9 de outubro de 1853, na cidade de Campos-RJ, Patrocínio era filho biológico do afamado vigário e orador da corte João Carlos Monteiro e de sua escrava, Justina Maria do Espírito Santo, que foi mãe aos treze anos. Por ser filho, ainda que não reconhecido formalmente, do padre, Patrocínio foi criado como homem livre na fazenda paterna, mas a sua condição de liberdade não evitou que o jovem presenciasse as atrocidades a que os escravos da fazenda eram submetidos – provavelmente, essas crueldades animaram o espírito do jovem em sua luta pelo fim da nefasta instituição da escravidão.



Aos 14 anos de idade, após o fim de sua educação primária, Patrocínio partiu para o Rio de Janeiro e passou a trabalhar na Santa Casa de Misericórdia. Pouco tempo depois, ingressou na faculdade de farmácia. Sua entrada na faculdade deu-se em momento dramático, pois os colegas que dividiam a república com Patrocínio estavam voltando para suas cidades de origem e, então, o jovem teria que procurar outro lugar para morar. Foi nesse momento que seu amigo João Rodrigues Pacheco Vilanova o convidou para se instalar na casa de sua mãe, que era casada com o Capitão Emiliano Rosa Sena. Patrocínio, que era homem orgulhoso, aceitou o convite do amigo, mas não de graça: seria o professor dos filhos do Capitão, e isso seria o pagamento pela estadia. A partir daí, Patrocínio passa a frequentar o Clube Republicano, que tinha como sede de suas reuniões a casa do velho Capitão. Nessas reuniões, o jovem estudante teve contato com importantes nomes do movimento republicano carioca, como Quintino Bocaiuva, Lopes Trovão e Pardal Mallet. Não tardou também para que Patrocínio se apaixonasse por Bibi, filha do Capitão Emiliano, e ela por ele. Sabendo do sentimento que os jovens nutriam um pelo outro, o Capitão até ensaiou resistência contra a relação, mas de nada adiantou, e Patrocínio e Bibi casaram-se.


Após seu casamento, Patrocínio iniciou sua carreira de jornalista na Gazeta de Notícias, e sua veia polemista e desafiadora começou a ganhar destaque. Pouco tempo depois, fundou, junto a Demerval da Fonseca, Os Ferrões, quinzenal que teve sua primeira tiragem em 1º de junho de 1875.


Já com experiência e renome conquistados através da pena, Patrocínio iniciou, em 1879, sua marcante carreira como abolicionista. Em sua volta, juntou-se a um seleto grupo de articulistas e oradores, dentre os quais se destacavam Ferreira de Meneses, Joaquim Nabuco, Lopes Trovão, Ubaldino do Amaral, Teodoro Sampaio e Paula Ney – todos da Associação Central Emancipadora. Após a morte de Ferreira de Meneses, em 1881, Patrocínio comprou, com a ajuda de seu sogro, a Gazeta da Tarde. Nesse momento de sua vida, Patrocínio já era figura proeminente na luta abolicionista, o que lhe possibilitou fundar a Confederação Abolicionista, que teve seu primeiro manifesto escrito pelo próprio Patrocínio, e foi apoiada por nomes como André Rebouças e Aristides Lobo.


Outro fato marcante na vida de Patrocínio se deu no ano de 1882, quando, a convite de Paula Ney, foi ao Ceará discursar em favor da libertação dos escravos – o que lhe rendeu grandes homenagens e, dois anos após a visita de Patrocínio, foi concedida a emancipação completa dos cativos naquele Estado. Em 1887, Patrocínio deixou a Gazeta da Tarde e fundou o Cidade do Rio. Foi na tribuna desse periódico que Patrocínio saudou a promulgação da Lei Áurea feita pela Princesa Isabel.


Aquele domingo foi marcado por grandes comemorações. Machado de Assis descreveu o dia nos seguintes termos: "Houve sol, e grande sol, naquele domingo de 1888, em que o senado votou a lei, que a regente assinou, e todos saímos à rua. Todos respiravam felicidade, tudo era delírio". Nesse clima de felicidade e delírio, Patrocínio aproximou-se da Princesa Isabel, ajoelhou-se e beijou-lhe as mãos. Após a vitória dos abolicionistas, foi a vez dos republicanos – outrora aliados – serem alvo de criticas da Gazeta da Tarde. Mas isso não passaria sem retaliação: sabendo ser Patrocínio o dono do jornal, e, possivelmente, o autor das criticas, seus adversários tentaram colar nele a pecha de “Negro Vendido”, mas, sendo Patrocínio homem inteligente e pouco dado a desaforos, logo retrucou: “Deus me deu a cor de Otelo para que eu tivesse ciúmes de minha Pátria!”.


Dali a um ano, em 1889, Patrocínio não teve participação na trama golpista que derrubou a monarquia, e, em 1891, após se opor ao presidente Floriano Peixoto, teve seu jornal empastelado e foi desterrado para Cucuí. No final de sua vida, Patrocínio voltou sua atenção para a aviação, chegando até a construir um balão, a que deu o nome de “Santa Cruz”. E foi durante discurso em homenagem a Santos Dumont, no Teatro Lírico, que Patrocínio foi acometido por uma hemoptise e faleceu pouco depois, aos 51 anos.

 

José do Patrocínio foi um homem de coragem, determinação e, principalmente, um apaixonado pela justiça e pela liberdade. O legado que este grande homem nos deixa é o de nunca medir esforços para que as injustiças não prevaleçam - para que, ao ver um compatriota em estado de degradação humana, a única resposta possível seja a luta pelos meios que cada um tiver ao alcance. Que a memória deste herói nacional seja restabelecida, e que seu exemplo seja seguido para que, assim, construamos juntos um Brasil melhor.


PÃO, TERRA E TRADIÇÃO!

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