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A discussão sobre Biden estar senil ou inapto já ocorre há anos - mas agora causou um curto-circuito na democracia americana

Adaptado e traduzido de "Biden senility and inappropriateness going on for long but has now short-circuited American democracy", originalmente publicado em 2 de julho de 2024

Se Biden é realmente incapaz de concorrer como candidato (ou mesmo de participar normalmente de um debate ), então como diabos ele pode governar? Além disso, como é que ele tem governado até agora, ou melhor, quem tem governado?

As principais figuras do partido Democrata e especialistas na imprensa reconhecem abertamente que o presidente Joe Biden claramente não tem condições de concorrer à reeleição como presidente após o debate presidencial Biden-Trump da CNN de 27 de junho. Biden resmungou, apresentou discurso errático e claramente perdeu a linha de pensamento várias vezes - ou seja, comportou-se como um idoso que deveria estar aposentado. Tudo isso é “notícia” (“news”) no sentido jornalístico, mas nada disso é realmente novidade; é só que, desta vez, ele estava realmente sob os holofotes. 


É digno de nota que o próprio New York Times (talvez o principal jornal dos EUA), em um editorial, pediu que Biden desista da sua candidatura. Esta conversa toda está vindo à tona, agora (com o devido destaque), um pouco tarde, na verdade. Em 2022, o The Independent, por exemplo, relatou (veja o vídeo aqui) que Biden parecia “confuso” ao sair de um evento da ONU. Em 2021, a Sky News descreveu Biden como “resmungando de forma incoerente”. Esse tem sido o comportamento padrão do Presidente dos EUA há algum tempo. Tais episódios, bem como suas “gafes”, geraram inúmeros memes e tweets na internet. Parece que a atual administração americana simplesmente tentou “gerenciar” a situação e continuou, por inércia, apenas “empurrando com a barriga” e esperando que as coisas dessem certo de algum jeito.


Não se trata da única fonte de constrangimento: já em 2007, Biden “elogiou” Obama desta forma: 


“Olha só, você tem o primeiro afro-americano não-radical (mainstream) que é articulado, inteligente, limpo e bem aparentado [“the first mainstream African-American who is articulate and bright and clean and a nice-looking guy”]. Quer dizer, isso é uma baita história, cara!”


Na época, uma imprensa americana em larga medida simpatizante podia descrever tais atitudes como meras “gafes” (com a ABC falando sobre um problema de “falar sem pensar” também em 2007), em vez de denunciar um caso óbvio de racismo – sem falar na falta de autocontrole, afinal de contas, além da questão de valores básicos, não seria politicamente conveniente demonstrar tais opiniões em público, considerando-se a base política (eleitoral) do sujeito.


Mas a coisa piora, em termos comportamentais, digamos assim. Em 2019, a NBC News questionava se a “mania de ficar tocando nos outros” (“touchiness”) de Biden não estava passando dos limites, enquanto a ABC News noticiava que ele estava sendo acusado de “passar a mão de forma desrespeitosa”. A questão foi levada mais a sério por esta história do Business Insider (clique no link), que inclui acusações de abuso sexual (que é a forma correta de descrever as coisas). Infelizmente, político do sexo masculino que assedia ou abusa de mulheres não é algo inédito, porém fungar no pescoço, falar no ouvido e apalpar mulheres e crianças mesmo diante das câmeras (e há inúmeras compilações de vídeos nos quais é possível ver tal comportamento) pode ser um indicativo de declínio da saúde mental (entre outras coisas). Incentivar o grande público a pensar que todos estão delirando, numa espécie de “gaslighting” coletivo e alegar que todos esses vídeos são apenas “falsificações baratas” ou cortes fora de contexto (alguns são, mas a maioria não é) tem sido o modus operandi da maioria da grande mídia dos EUA desde 2019, pelo menos. Porém, em algum momento, essa situação começa a ficar muito difícil de ser gerenciada.





Pouco depois do primeiro debate Trump-Biden, David Axelrod, um articulador do Partido Democrata de longa data e analista e consultor político dos EUA, disse que “haverá discussões sobre se ele [Biden] deveria continuar.” Axelrod foi estrategista-chefe da campanha presidencial e conselheiro sênior do ex-presidente dos EUA Barack Obama. No entanto, na rede social X (antigo Twitter), Axelrod também descreveu todas as conversas sobre a substituição de Biden como o cabeça da chapa Democrata como discussões irrelevantes, pois a situação já estaria decidida.

De forma parecida, Ian Bremmer observou num vídeo para a GZERO Media que Biden precisaria decidir renunciar ele mesmo, algo que “certamente ele não está preparado para fazer”. Bremmer é um cientista político, autor de vários livros sobre a política externa dos EUA e presidente e fundador do Eurasia Group. De acordo com esse especialista, Biden mantém uma equipe muito leal e empenhada durante décadas, e essas pessoas “não estão dispostas a desafiá-lo [Biden], especialmente quando ele tem uma opinião muito forte sobre um assunto específico”. Bremmer não diz isso, mas também podemos deduzir que o fato de que uma grande parte desses indivíduos perderá o emprego (no caso de Biden deixar o cargo) também pode ser considerado um fator a se levar em conta.


Curiosamente, na mesma opinião, Bremmer diz que o mesmo padrão ocorreu em relação à questão da Ucrânia: “vimos isto acontecer na Rússia-Ucrânia: Biden não estava disposto a falar sobre avançar para um acordo negociado”, já que os ucranianos estavam “indo cada vez melhor” (na opinião do presidente americano). Os conselheiros de Biden “não estavam tomando a decisão difícil que precisava ser tomada porque ninguém estava realmente disposto a desafiá-la” e, acrescenta, “então, a situação dos ucranianos começou a piorar”, e essas pessoas ainda afirmariam que “[os ucranianos] vão se virar razoavelmente bem.” Isso mostra como o problema pode ter consequências globais e trágicas.


Qualquer “solução” para isso exigiria muitas manobras políticas e criatividade institucional, com algum “hacking” jurídico e uma boa dose de intriga palaciana – tudo isso só pode enfraquecer ainda mais a credibilidade pública das instituições dos EUA e do sistema político norte-americano. A premissa acima, no entanto, levanta algumas questões sérias: se Biden é realmente incapaz de concorrer como candidato (ou mesmo de participar normalmente de um debate ou de sair sozinho de uma sala em público sem ajuda), então como diabos ele pode governar? Além disso, como é que ele tem governado até agora, ou melhor, quem tem governado?


Esta é uma questão que, estranhamente, não é levantada pelos comentadores e especialistas em geral. Pode parecer “conspiratório”, mas é de fato a coisa mais lógica a ser questionada, considerando-se tudo isso. Um bom palpite seria que o chamado “governo secreto” (como o Boston Globe descreveu em 2014) tem funcionado em “piloto automático” mesmo. Michael J. Glennon, estudioso de direito internacional, chamou este estado de coisas de um “governo duplo”, com um aparelho de defesa e segurança nacional quase autônomo operando sem prestar contas a ninguém (e independentemente de quem for o presidente da república eleito).


Resumindo, Biden tem 81 anos de idade e Trump, por sua vez, 78. Embora apenas cerca de três anos mais novo, o último (Trump) está obviamente em melhor forma. No entanto, o próprio Donald Trump poderá em breve estar numa posição muito semelhante à de Biden. Joe Biden pode ser o presidente mais velho da história americana, porém, se Trump vencer, ultrapassará Joe Biden como a pessoa mais velha já eleita presidente. Trata-se simplesmente de ser realista quanto às limitações biológicas inerentes a criaturas mortais como os humanos - nada disso tem nada a ver com gerontofobia. As pessoas mais velhas (geralmente do sexo masculino) frequentemente governam países, mas normalmente não são tão velhos assim.


Todo esse imbróglio do tipo “o rei está nu” relativo à senilidade de Biden agora em discussão (embora ignorando o seu já mencionado racismo e a tendência a tocar “de forma imprópria” em mulheres e meninas) sintetiza muito bem a condição de “império tardio” dos Estados Unidos da América. Embora se trate de uma nação jovem, já é uma superpotência em declínio: o regime e a máquina política do Partido Democrata não conseguem sequer substituir um governante senil de uma forma democrática adequada, e pior: parece não haver outra alternativa politicamente viável. O Partido Republicano, por sua vez, enfrenta uma situação semelhante. Trump e Biden são o que há. A democracia dos EUA entrou claramente em curto-circuito.



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