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Trump, Putin, o "deep state" e o Brasil

Muitos russófilos vendem, ainda que de forma implícita, a ideia ingênua de que Donald Trump representa um perigo para o Deep State americano ou que vai desmantelar o Império ianque. Isso é nonsense - bobagem da grossa. É possível argumentar se esse ou aquele cenário na política norte-americana é melhor para o Brasil, mas imaginar que Trump é a expressão da derrocada das agências de inteligência, dos militares, do Establishment e da elite política e econômica norte-americana só pode ser piada de salão. O máximo que se pode apontar é que há divergência no Deep State sobre qual linha de ação seguir no século XXI.


A aposta do consenso anterior [formado pelos Neocons do Partido Republicado e pelos Democratas] era de que o neoliberalismo, a globalização financeirizada, e a expansão da OTAN rumo ao leste manteriam a hegemonia norte-americana. Mas essa estratégia se revelou problemática com a ascensão da China, que se aproveitou justamente destes parâmetros internacionais. Os EUA viram o dragão asiático se tornar a ''fábrica do mundo'' e batê-los até mesmo em áreas de ponta da economia atual, como o 5G. A incapacidade de manter a estratégia por meio apenas do soft power levou os EUA ao uso mais indiscriminado da força militar, com as invasões do Oriente Médio, o desmantelamento da Líbia, as Revoluções Coloridas. Trump parece representar uma ala que percebeu a incapacidade de sustentar esta estratégia a médio e longo prazo, e pretende reformulá-la, não para dar cabo do Império ianque, mas para revitalizá-lo. A prioridade é reindustrializar o país, sufocar a economia chinesa. Isto implica em reverter aspectos da globalização financeirizada, tirar peso do aparato militar, e atrair a Rússia para uma aliança tácita ao menos parcial em relação ao Ocidente [e contra a China] no alvorecer de uma nova Guerra Fria contra a ascensão asiática.



O retorno de Trump ao poder atenderia a alguns dos interesses imediatos de Putin, que parece estar disposto até a subir no palanque de Tucker Carlson para favorecer o cenário. Afinal, a situação atual é muito incômoda e perigosa para o Establishment russo. A OTAN comanda agora a maior parte do território ucraniano, e Suécia e Finlândia, além de Moldávia, se aproximaram da aliança atlantista ou nela estão ingressando. Atarantada com a guerra, a Rússia vai perdendo espaço em seu entorno geopolítico também no Cáucaso, assistindo, por exemplo, o agigantamento turco. Para piorar, caiu em séria dependência econômica em relação à China e Índia.


A Rússia sabe que tem problemas com a China em torno do Cazaquistão e da Manchúria, e essa dependência é um perigo para o país no longo prazo. Faz todo sentido que Putin faça figa para a vitória do trumpismo, que tem uma abordagem diferente da relação EUA-Rússia. Tudo o que Putin quer é diminuir a pressão militar e econômica sobre seu país, e se aproximar do Ocidente via conservadorismo e nacional-populismo. Afinal, ele é um ocidentalista moderado. Nem malucos como Dugin acreditam a sério que Putin seja uma entidade solar reconstruindo a Autocracia Ortodoxa e um Império euro-asiático (embora ele, Dugin, consiga hipnotizar a claque de que pode ser o caso).


Putin é um burocrata e homem do Estado (gosudarstvennik), saído das agências de inteligência russas, que luta pela sobrevivência de seu Estado e país após a debaclé soviética e da imensa retração geopolítica que eles sofrem desde então. A Rússia busca se contrabalançar entre a OTAN, a China e, cada vez mais, a Índia e a Turquia, e, ao mesmo tempo, sustar a retração que vem sofrendo desde o fim da década de 1980.


Em todo caso, os interesses de Putin são os da América Latina? Isso é risível. Sobreas relações com os EUA, por exemplo, nada indica que Trump terá uma abordagem diferente na América Latina. Durante seu mandato, a região passou por 'golpes' da nova direita, tentativa (risível, é verdade) de invasão da Venezuela e por governos neoliberais e profundamente americanófilos e sionistas.


A abordagem que devemos ter em relação às eleições ianques não pode ser, portanto, a mesma de Putin, mas sim uma muito mais matizada, e orientada para outras questões - as nossas questões. Os problemas de Putin não são exatamente os nossos problemas, nem de longe. Nem ele vai resolver qualquer dos nossos problemas. Até ano passado, alguns tresloucados russófilos ainda vendiam a ideia de que se a Amazônia fosse invadida pelos ianques [????!!!!!!], Putin surgiria montado num cavalo branco para nos ajudar. Trata-se de pura maluquice e fantasias desmioladas.


Putin está suando frio pra manter a Crimeia livre de atentados terroristas e a OTAN fora de Kherson. Além disso, ele não contesta a hegemonia ianque em seu ''quintal'' [é assim como o Norte inteiro, incluindo Rússia, nos vê]. Ele só deseja que o Ocidente reconheça que a Rússia tem direitos sobre ''seu [próprio] quintal'' também.


O Brasil tem de sobreviver como uma voz autônoma no século da Nova Guerra Fria. Ao mesmo tempo, não nos interessa, tampouco, que sejamos absorvidos economicamente pela indústria chinesa. A adesão irrestrita a qualquer dos lados da política ianque é deletéria ao país, pois nos faz refém de um cenário internacional que não necessariamente reflete nossos melhores interesses. Infelizmente, o que se vê no país é abraço acrítico a um dos lados da política ianque, deslumbramento bocó com Putin e Xi Jinping (quesão variações do Complexo de Vira-Lata), e quase nenhuma discussão realista sobre o futuro do Brasil (tema que deveria interessar a todos os patriotas, de todas as vertentes políticas). Se depender dessa prosa, estamos a reboque dos Barões do Mundo.

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