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A entrevista de Putin com Tucker Carlson - e o que dizem os especialistas


Muito se tem falado sobre a entrevista com Vladimir Putin apresentada pelo comentarista político americano Tucker Carlson, que estreou em 8 de fevereiro (a transcrição completa, em inglês, pode ser lida aqui). Foi a primeira entrevista concedida pelo presidente russo desde que este lançou a sua campanha militar em curso na Ucrânia. A imprensa ocidental, no geral, tem falado sobre a entrevista usando palavras como “propaganda” e “desinformação”. Um artigo do Guardian descreveu-a como “Putin dando um sermão ao apresentador conservador sobre as suas visões deturpadas da história russa e ucraniana”. O fato é que, quer gostemos ou não de Putin e quer concordemos ou não com as suas conclusões e decisões, a maioria dos historiadores e especialistas ocidentais reconheceriam pelo menos as premissas e os fatos históricos mencionados pelo líder russo como corretos - e não “distorcidos”.



Vejamos, por exemplo, a afirmação, muito criticada, de Putin de que os russos e os ucranianos ainda hoje são “um só povo”, afirmação que ele vem fazendo anos antes da referida entrevista, muitas vezes usando a palavra “narod”, isto é, um “povo” ou uma comunidade com uma história partilhada, e não “natsiia” (nação).


Quando o presidente russo começou a falar sobre a relação especial do seu país com a vizinha Ucrânia, comentou sobre o início do Estado russo em 862, e sobre Rurik (Príncipe de Novgorod), numa digressão que durou mais de vinte minutos e tem sido bastante ridicularizada por comentaristas ocidentais. O principal objetivo de Putin, porém, não apenas durante essa parte da entrevista, mas ao longo de toda a conversa, foi realçar que os laços estatal-nacionais russo-ucranianos são antigos e também sublinhar a relativa novidade de um Estado ucraniano independente. Esses são pontos realmente básicos da história dos eslavos-orientais.


Considere-se, por exemplo, o seguinte: em uma pesquisa nacional realizada seis meses antes da guerra russo-ucraniana (que se iniciou em fevereiro de 2022), mais de 40% dos ucranianos em todo o país (“e quase dois terços no leste e no sul”) concordaram com Putin que os ucranianos e os russos são “um só povo” - segundo Nicolai. N. Petro, professor de ciência política na Universidade de Rhode Island, que escreveu sobre isso em artigo para a Foreign Policy – não se trata aqui de uma afirmação do Tucker Carlson, note-se, nem algo vindo de algum “propagandista de Putin”. E não se trata, tampouco, de “História antiga”.


De qualquer forma, de volta à História, tomemos, por exemplo, o artigo acadêmico de Chris Hann, de 2023 chamado "On peoples, history, and sovereignty" ["Sobre os povos, a história e a soberania"]. O Sr. Hann é Director Emeritus do Instituto Max Planck de Antropologia Social em Halle (Alemanha) e especialista em povos da Europa Central e Oriental. No artigo acima mencionado, o etnólogo faz uma distinção entre povos “históricos” e “não-históricos”, porque, escreve ele,

"É razoavel supor que um povo como os ucranianos, que só é conhecido como tal desde o século XIX, está mais exposto aos caprichos da Geopolítica do que aqueles com um pedigree estatal e de Hochkultur mais longo e contínuo"

A ideia hegeliana (e marxista) de que alguns povos “não têm História” (geschichtslos) não implica, convém sublinhar, em qualquer tipo de “inferioridade”. Nesses termos, “nações históricas” são apenas aquelas que possuem uma longa tradição de Estado e uma identidade nacional claramente definida. Ora, é fato que, durante séculos, a identidade ucraniana fez parte de uma identidade russa mais ampla e, até hoje, milhões de ucranianos pensam nas categorias “russo” e “ucraniano” como alinhadas e compatíveis – e não totalmente separadas.


Na entrevista, Putin chegou a descrever retoricamente o conflito em curso como tendo “um elemento de guerra civil”, de modo a enfatizar o seu ponto de vista de que existiria uma profunda ligação histórica – mas o próprio Putin admite que ser supostamente parte do mesmo "povo", não implica necessariamente fazer parte do mesmo Estado:

“Eu digo que os ucranianos fazem parte do único povo russo. Eles dizem: ‘Não, somos um povo separado’. Se se consideram um povo separado, têm o direito de o fazer, mas não com base no nazismo, na ideologia nazi”.

Isto leva-nos a outro ponto-chave frequentemente levantado pelas autoridades russas (e, aliás, por acadêmicos de todas as tendências políticas), a saber, o papel do fascismo na construção do nacionalismo ucraniano.


Pode-se dizer que, na verdade, Putin foi até bastante “contido” ao falar sobre o tema nas suas respostas a Carlson. Ele nem sequer mencionou o infame regimento Azov, por exemplo, que foi descrito pela CNN, em 2022, como um “batalhão de extrema direita” com “um papel fundamental na resistência da Ucrânia”, que tem “uma história neonazista”. Não se trata apenas de uma milícia paramilitar transformada em unidade oficial dentro da Guarda Nacional Ucraniana, mas sim de um movimento social mais amplo. Os cientistas políticos Ivan Gomza e Johann Zajaczkowski detalham a política de extrema direita do movimento Azov em seu capítulo “Black Sun Rising: Political Opportunity Structure Perceptions and Institutionalization of the Azov Movement in Post-Euromaidan Ukraine”, publicado em 2019, pela editora da Universidade de Cambridge.



Mais uma vez, não se trata de “propaganda russa”, mas de fatos sobre o regime ucraniano actual. Já Ivan Katchanovski, que foi pesquisador visitante no Centro Davis para Estudos Russos e Eurasiáticos da Universidade de Harvard, escreveu, em 2016, sobre como os grupos fascistas, mesmo sendo uma minoria do eleitorado ucraniano, tiveram um papel fundamental na política nacional:


“A extrema-direita alcançou um papel significativo, mas não dominante, na política ucraniana durante e desde o 'Euromaidan'.… As organizações de extrema direita e as suas unidades armadas tiveram um papel fundamental nos principais casos de violência política durante e após o 'Euromaidan', e eles alcançaram a capacidade de derrubar pela força o governo de um dos maiores países da Europa”.

Ele acrescenta que

“como resultado do envolvimento da extrema-direita na derrubada violenta do governo de Yanukovych através do massacre do Maidan, as organizações de extrema-direita alcançaram a sua influência mais forte na Ucrânia desde a sua independência em 1991” e “devido ao seu envolvimento na derrubada do governo, na guerra do Donbass; à sua integração no governo e nas agências de segurança, e devido à sua capacidade de derrubar o governo, a influência das organizações de extrema-direita na Ucrânia tornou-se a maior em comparação com outros países da Europa”.

As várias menções de Putin à Polônia, na entrevista, também confundiram até pessoas cultas e jornalistas dos países de língua inglesa - mas, como escrevi noutro local, é simplesmente impossível falar sobre a identidade e o nacionalismo ucranianos sem mencionar as suas complicadas relações com os polacos desde o século XVI. Além disso, a Ucrânia homenageia e glorifica hoje o Exército Insurgente Ucraniano (UPA), que, em colaboração com a Alemanha nazi, cometeu genocídio contra os polacos, segundo respeitados historiadores ocidentais e ucranianos (como Yaroslav Hrytsak), um fato que, previsivelmente, não é bem recebido na Polônia.


É claro que qualquer chefe de Estado que dê uma entrevista durante um conflito também estará fazendo um exercício de Relações Públicas ("PR", em inglês) e seria ingénuo pensar o contrário. Tendo isso em mente, continua sendo verdade que, mesmo depois de alcançada uma paz (entre Rússia e Ucrânia), enquanto os russos étnicos e os filo-russos permanecerem marginalizados na Ucrânia e enquanto a expansão da OTAN continuar, ainda haverá espaço para tensões e conflitos - internos e internacionalmente. Já passou da hora de falar sobre essas questões. Ou pode-se simplesmente descartar tudo isso como mera “propaganda russa”. Mas fazê-lo seria uma postura mal informada.



Nota do Sol da Pátria:

Existem várias questões referentes à crise na Ucrânia que são, em geral, ignoradas pela impensa ocidental, incluindo o papel do ultranacionalismo ucraniano (com elementos neofascistas), as políticas chauvinistas de "ucranização" naquele país, o apoio do Ocidente ao Maidan, a política de expansão da OTAN mesmo após o fim da União Soviética etc etc. Isto dito, daí não se segue que patriotas brasileiros ou anti-imperialistas no geral tenham a obrigação de apoiar moralmente ou dar "carta-branca" a toda e qualquer decisão tomada por Putin, sobretudo no que diz respeito à invasão da Ucrânia, que envolve anexação de territórios e abre um precedente perigoso nas relações internacionais. Fazer essa crítica ao putinismo deslumbrado e a qualquer tipo de expecionalismo russo (mesmo que multi-nacional ou semi-"imperial"), por outro lado, não implica em fazer coro à propaganda ocidental. A realidade é mais complexa do que desejam os propagandistas.


As opiniões expostas neste artigo não necessariamente refletem a opinião do Sol da Pátria



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