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Duginistas brasileiros, o Grupo Wagner e alienação da realidade

Por André Luiz dos Reis


Fãs do grupo Wagner (organização paramilitar mercenária russa), os duginistas brasileiros chegaram a defender, em suas publicações, a “wagnerização” do Brasil e chegaram a descrever os mercenários desta empresa privada como “galantes cavaleiros” do mundo multipolar. Em uma “live” no Youtube com o geopolítico russo Alexandr Dugin, os duginistas brasileiros, entusiasmados, descreveram o grupo Wagner como algo maravilhoso e como uma “Männerbund” (irmandade de guerreiros) que teria inspiração nas ideias do barão tradicionalista Julius Evola. Dugin, ao vivo, sem tanto entusiasmo, concordou.



O recente motim levado a cabo pelo líder deste grupo pegou muitos de surpresa e a primeira reação dos duginistas foi afirmar que era tudo um “teatrinho”, uma “operação psicológica” ou “psy-op” (abreviação do inglês “psychological operation”): no fundo, afirmavam, Putin estava no controle de tudo e o motim seria falso, uma armadilha para detectar traidores e para aumentar o poder do presidente russo.


Enquanto os russófilos duginistas do Brasil se esforçaram para negar o motim de Prigozhin, sempre usando aspas ou o adjetivo ''suposto'' para se referir ao evento, o próprio guru do grupo, Alexandr Dugin, publicou artigo dizendo que a negação da rebelião é fruto de mentes anestesiadas e atemorizadas, despreparadas para lidar com a dor de um acontecimento que deixou o Estado russo próximo da catástrofe.

Sem querer, Dugin praticamente sintetizou o estado de ânimo dos duginistas brazucas, que usam “chapéus de alumínio” de modo tão sistemático e descuidado a ponto de perder qualquer noção de realidade.


Os duginistas poderiam ter a dignidade agora de discordarem do próprio guru, mantendo a argumentação de que tudo não passou de mera operação de distração, uma “psy-op” para fortalecer Putin, driblar a mídia ocidental e, finalmente, tomar Kiev através de Belarus.

Mas aposto que farão, na verdade, um ajuste fino de discurso pra se manter em linha com o pensamento que emana de Moscou, e do qual são meros difusores e propagandistas.

Dugin está aproveitando a ocasião pra clamar pela necessidade de expurgos, fechamento do regime e adoção de uma nova ideologia de cunho ''patriótico'' e natureza antiliberal. É o que ele tem feito em toda e qualquer oportunidade.


E, claro, é sempre bom demonstrar lealdade ao abalado Putin, ainda mais quando se sabe dos vínculos de Dugin e sua filha com Prigozhin: Daria Dugina era editora-chefe do United World International (UWI), jornal do Yevgeny Prigozhin, que também é dono do grupo Wagner. Talvez não seja adequado para Dugin chamar muita atenção ou demonstrar muita autonomia neste momento.

De todo modo, a pretensa análise de Dugin é de que há um racha na elite russa, e se Putin não for capaz de acumular poder suficiente para se impor, acabará engolido no processo. Como este está ainda em aberto, e ainda não há definição sobre os rumos do novo regime, haveria perigo da Rússia colapsar junto a uma possível queda de Putin.


De minha parte, não considero que isso vá acontecer. Se Putin cair, é pra dar lugar a alguém muito mais radical do que o moderado ocidentalista que sonha tomar a Ucrânia Oriental de volta para seu Império.

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