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Extrema-direita normalizada na Europa com aliança entre Meloni (Itália) e Von der Leyen (presidente da Comissão Europeia)

Tradução de Maurício Oltramari. Traduzido e adaptado de Europe’s Far-Right Mainstream with the Meloni-Von der Leyen Political Alliance


Já houve uma época na Europa em que a menor associação com qualquer coisa que lembre fascismo (mesmo sendo algo tomado fora do contexto) seria o suficiente para arruinar a carreira de um político. Agora, Imagine a ala jovem do partido da própria Primeira-Ministra fazendo literalmente saudações fascistas durante uma enorme manifestação numa grande capital europeia, e nada acontecer a essa líder. Agora, imagine que a mesma Primeira-Ministra, depos disso, continue sendo aliada da atual presidente da Comissão Europeia depois do ocorrido. Bem, é precisamente este, em poucas palavras, o caso de Giorgia Meloni, Primeira-Ministra da Itália. Com a aliança política entre Meloni e Ursula von der Leyen (Presidente da Comissão Europeia), as correntes de extrema-direita e até o neofascismo tornaram-se agora oficialmente normalizados ("mainstream") na Europa - desde que apoiem o próprio bloco da União Europeia e a Aliança Atlântica.



Anchal Vohra, colunista da Foreign Policy, escreveu recentemente sobre como a Primeira-Ministra italiana, Giorgia Meloni, passou de uma “atriz secundária” uma articuladora-mediadora importante (“power broker”). Ao contrário do que acontece com outros líderes europeus que são frequentemente tachados de “extrema direita”, ela defendeu abertamente a OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) contra Moscou e, como Vohra descreve, “mostrou-se útil para o Establishment da União Europeia (EU) quando convenceu o presidente húngaro Viktor Orban a concordar com um pacote de ajuda para a Ucrânia em fevereiro.”


O governo de Meloni faz parte de uma coligação juntamente com a Liga do Norte (Lega Nord), o partido populista liderado por Matteo Salvini, que é o vice primeiro-ministro da Itália. O partido Liga do Norte de hoje é o sucessor informal do partido de extrema direita Lega Nord per l'Indipendenza della Padania. O próprio partido de Meloni tem ligações abertamente fascistas como se viu em janeiro, quando, num evento em Roma, os seus membros realizaram publicamente a saudação fascista, o que provocou indignação. Ainda assim, até agora a Primeira-Ministra tem mantido boas relações com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, que é a principal candidata do Partido Popular Europeu (PPE), o maior bloco conservador do continente.


No chamado Debate de Maastricht, von der Leyen sugeriu que poderia cooperar com os Conservadores e Reformistas Europeus (ECR), que são conhecidos por serem eurocéticos, e são apoiados por Meloni. De acordo com as pesquisas, o próximo Parlamento Europeu poderá ser o mais “de direita” dos últimos anos – isso demonstra que a declaração de Von der Leyen não é, em realidade, uma surpresa. Neste cenário, Meloni poderia tornar-se, ela própria “um centro de poder paralelo num Parlamento Europeu de orientação direitista e, assim, exercer uma influência incomparável sobre a presidente da comissão para empurrar a política do órgão ainda mais para a direita”, afirma Vohra.


Se nos lembrarmos do escândalo envolvendo Yaroslav Hunka, em setembro de 2023, é fácil perceber que o fenômeno vai além da Europa e que o Ocidente no geral está pronto para abraçar, abafar, "passar pano" ou normalizar até mesmo o nazismo, por incrível que pareça. Hunka, de 98 anos, lutou nas SS, o braço militar do partido nazista alemão (Divisão Galícia Ucraniana da Waffen-SS) e, ainda assim, foi convidado a falar na Câmara dos Comuns do Canadá (câmara baixa, análoga à câmara dos deputados) como um "herói", onde vangloriou-se de ter lutado "contra o comunismo" e foi aplaudido de pé. Isso é apenas a ponta do iceberg. Recentemente, um monumento no Canadá em memória aos soldados ucranianos da Divisão Waffen-SS Galícia (nazista) foi removido após protestos.


Há uma década que o Ocidente tem ajudado, financiado e acobertado os grupos armados mais violentos e radicalizados e muitas vezes abertamente neonazistas na Ucrânia, país que se tornou um centro mundial para a extrema-direita e o chamado "nacionalismo branco", de acordo com a revista TIME.


Ironicamente, em junho do ano passado, escrevi sobre como uma onda neo-macarthista na Europa (e não somente na Polônia) estava perseguindo partidos políticos dissidentes, não apenas a extrema-direita, mas também dentro do chamado campo populista - por supostos laços com a Rússia.


Algo que lembra muito os acontecimentos na própria Ucrânia pós-Maidan: naquele país, uma guerra tem sido travada contra parte da Igreja Ortodoxa, e, até agora, ao menos 11 partidos políticos foram banidos devido às suas posições “pró-Rússia”. Volodymyr Ishchenko, pesquisador membro do Instituto de Estudos do Leste Europeu (Freie Universität Berlin), explica que, desde a revolução do Maidan de 2014, a acusção de ser “pró-Rússia” tem sido de fato usada como um rótulo para marginalizar “qualquer um que defenda a neutralidade da Ucrânia” assim como para marginalizar “discursos estatal-desenvolvimentistas, antiocidentais, iliberais, populistas, de esquerda e muitos outros”. De forma semelhante, o atual sentimento anti-russo no Ocidente também se alimenta de uma tradição de discurso anticomunista e do nacionalismo extremista.


Na verdade, não há contradição, na Europa, entre, de um lado, se travar uma guerra contra os “dissidentes” políticos e, de outro lado, a normalização de parte da extrema-direita. Meloni, por exemplo, mudou a sua postura crítica em relação ao atual bloco europeu (a União Europeia), talvez justamente porque percebeu que precisa dele.


Ao invés de fazer parte de uma tomada de poder radical/populista da Europa, Giorgia Meloni, que (como Anchal Vohra a descreve) atua como uma “ponte” entre os “conservadores tradicionais” e a “extrema direita”, faz parte não somente da “fascistificação” da Europa (que é real): trata-se também de cooptar e domesticar populistas, radicais, a extrema-direita e quaisquer correntes que se oponham ao alinhamento europeu com a OTAN liderada pelos EUA (hoje, por uma série de razões, esses dissidentes são encontrados principalmente na direita europeia). Em outras palavras, o que ocorre atualmente é a maidanização da Europa e um continente radicalizado e “OTANizado”.



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