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João Pacífico: o sertão em poesia

João Batista da Silva, vulgarmente conhecido como João Pacífico, um dos mais consagrados artistas da música caipira, compositor de 'Chico Mulato', 'Cabocla Tereza' e outras tantas canções icônicas, nasceu a 05 de agosto de 1909, na cidade de Cordeirópolis, interior de São Paulo. Dado à música desde a mais tenra idade, gostava de declamar poesia e tocava bateria numa orquestra de cinema na cidade de Limeira, também no interior paulista.



Por volta dos dez anos mudou-se para Campinas com a mãe, que passaria a trabalhar na casa da irmã do maestro Carlos Gomes, onde seria largamente exposto à vultosa cultura erudita, sem jamais, no entanto, preterir em seu favor a musicalidade a que se habituara no interior. Compelido à labuta desde a mocidade, dada a modesta condição financeira de seus pais, dividia seu tempo entre a paixão pela música - chegou a integrar a Orquestra Sinfônica da cidade - e pequenos trabalhos aqui e ali: serviu como estafeta numa fábrica de tecidos em São Paulo antes de regressar à companhia de seus pais, passando a trabalhar como copeiro na casa do bispo de Campinas, à época Dom Francisco de Barros Barreto. Na mesma época, incentivado por amigos, chegou a declamar no rádio algumas de suas poesias, em razão das quais chegou a ser contratado por um breve período pela difusora.


Finda esta passagem, tornou, então, à Cia. Paulista de Estradas de Ferro - empresa na qual seu pai ocupava a função de maquinista e para a qual também já havia trabalhado antes de se mudar para a capital -, onde o esperava a sua sorte definitiva: apoiado pelo chefe de cozinha do vagão-restaurante em que lavava pratos, aproveitou o ensejo de certa ocasião em que o poeta Guilherme de Almeida, dos maiores expoentes do Modernismo, estava a bordo do trem, tendo então uma carta de sua autoria, contendo alguns de seus versos, entregue a ele. Impressionado com a verve poética do rapaz, o escritor convidou-o a prestar uma visita à Rádio Cruzeiro do Sul, em São Paulo, da qual era diretor-geral à época. Começou, ali, a completa transformação de sua vida. O que até então fazia por satisfação própria passaria, em pouco, a emprestar-lhe enorme prestígio e também a alçá-lo, em boa parte de sua vida, a uma digna condição de existência - justos resultados da enorme contribuição que daria à arte brasileira.


Em 1933, bateu à porta da Rádio Record, recomendado pelo novo amigo e incentivador - apenas um dos grandes vultos do Modernismo que seriam conquistados por seu talento e simplicidade -, e defrontou-se com o jovem Raul Torres, conhecido como o 'Embaixador da Embolada', para mostrar-lhe uma embolada de nome 'Seu João Nogueira', que havia escrito em homenagem a um violinista que conhecera na difusora em que trabalhara nos tempos de Campinas. Foi ignorado de imediato, mas Torres se daria por vencido pela insistência daquele até então desconhecido e, pondo-se a par da letra, não mais o daria as costas: nascia, naquele momento, uma fecunda parceria e uma grande amizade entre os dois artistas, que culminaria na composição de canções imortais, tais e quais 'Chico Mulato', 'Cabocla Tereza', 'Mourão da Porteira' e tantas outras canções indissociáveis do imaginário caipira.


Mente por trás de alguns dos retratos musicados mais fidedignos da vida no interior paulista, de versos tão ricos e belos - contrastantes com a pobre educação a que tivera acesso - e revestidos da ternura que transbordava de si e pela qual foi batizado, por seus amigos, de Pacífico - apelido que acresceu a seu nome e que o acompanhou por toda a vida -, João Pacífico foi exaltado, para além do seu grande amigo Guilherme de Almeida, também por Mário de Andrade - outro grande interessado no desvelo do grande filão artístico que constituía e constitui o viver interiorano, fosse dos sertanejos do semiárido, dos 'tabaréus' da Paulistânia, dos caboclos amazônidas ou dos matutos dos Pampas - e pelo gigante Manuel Bandeira, e chegou a ser laureado, em 1954, por ocasião do sucesso de ‘Treze Listras’ - gravada por Nélson Gonçalves -, composição que aludia ao IV Centenário da cidade de São Paulo e era baseada no poema 'Nossa Bandeira' de Almeida, recebendo, das mãos do próprio, a medalha Anchieta, motivo de grande orgulho para o lendário compositor.


No decorrer dos anos 60, viu-se vítima, como talvez todos os grandes expoentes da música caipira, do apagamento que impunham as crescentes tendências à 'atualização' e à confluência com os novos ritmos que iam dominando o mercado fonográfico. Não tendo silenciado sua veia artística, passou, no entanto, a assumir funções alheias àquilo que já era bem claramente para si a grande vocação de sua vida. Só no introito da década seguinte, com o lançamento do LP 'Pingo d'Água' em 1970 pelo Duo Glacial, disco em que interpretavam doze das canções mais celebradas de Pacífico, é que voltou a ser alvo da curiosidade da imprensa e viu ainda, no obstinado resgate dos marcos iniciais do frondoso sucesso do gênero, empreendido por figuras do porte de Sérgio Reis e Rolando Boldrin, alguns de seus clássicos ganhando regravações que tornavam sua obra à ribalta.


Senão nestes esforços isolados e insuficientes para defrontar toda a força da 'modernidade' que se abatia sobre o a música sertaneja - com o amplo apoio da indústria fonográfica, que produzia duplas com roupagens e canções completamente alheias às origens do estilo e mesmo ao gosto do público (o que se prova dada a brevidade do sucesso desses tipos) -, testemunhou o vil esquecimento de sua obra e passou a se recolher à sua intimidade, fazendo pouquíssimas aparições públicas nas décadas seguintes. Nos idos de 90, já com seus oitenta e tantos anos, perdeu a esposa Deolinda Rodella, a 'Deda', com quem vivia desde o final de década de 50 e teve um filho, João Baptista da Silva, o Tuca. Passou a morar em sítio de um amigo, já privado das mesmas condições de que gozara na mocidade. No fim da vida, recebeu a notícia de que o consagrado ator Antônio Fagundes, que naquela mesma época gravava a novela 'Rei do Gado' pela Rede Globo, decidira, inspirado pelas conversas com Almir Sater e Sérgio Reis - que participaram da produção interpretando a dupla de violeiros Pirilampo e Saracura -, reverenciá-lo com a gravação do CD 'Tributo a João Pacífico', que reunia, na voz marcante do artista, algumas de suas toadas imortais. Por infortúnio do destino, João veio a óbito no dia 30 de dezembro de 1998, aos 89 anos de idade, não tendo tido a oportunidade de acompanhar o lançamento da homenagem, que seria publicada no dia seguinte pela gravadora Som Livre.

Inda que partindo desta vida pobre e abandonado pelos holofotes, sua obra ecoará por toda a eternidade como documento histórico e sociológico do existir caipira e como uma das sublimes expressões da 'flor amorosa de três raças tristes', como bem batizou o poeta Olavo Bilac a música brasileira, e confirmou o grande patrono da música caipira, Cornélio Pires, ao dizer, desta, que era 'um caldeamento de tristeza do africano escravizado em martírio contínuo, do português exilado e sentimental e do bugre (sic) perseguido e cativo'. De sua figura branda resta o testemunho de amigos e familiares, e da saudade de um tempo ido que eternizou em suas letras comungam milhares de admiradores espalhados por todo o país, das mais variadas idades e procedências. Onde houver uma só pessoa que seja tocada pela recordação dos folguedos, da fraternidade, da fé e dos dramas da gente do sertão, ali estará também João Pacífico.

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