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José Murilo de Carvalho - Um pensador brasileiro

O falecimento de José Murilo de Carvalho priva o país de um seus maiores intelectuais. Historiador e cientista político, suas obras são indispensáveis para para entender a formação do Estado Nacional e a natureza de nossa República. No fim da vida, se mostrava cético quanto as nossas possibilidades futuras de realizar o ideal de cidadania plena que sempre norteou seus escritos. Zé Murilo olhava com dor nossa incapacidade quase estrutural de integrar parte considerável da população, tanto política quanto economicamente.


Essa preocupação sempre presente fez com que sofresse incompreensões e estigmas. Zé Murilo percebia de forma aguda que a Proclamação da República não nos trouxe um espírito republicano. E que este, por contraditório que possa parecer, era mais evidente no período monárquico, em que pese o ônus do escravismo. Percebia também que a Monarquia tinha aparatos institucionais que permitiam solucionar conflitos políticos de modo menos traumático que nossa tumultuada República.



Por isso foi taxado de ''monarquista'', como se houvesse de fato alguma vantagem abstrata e absoluta na forma de Estado quando se trata de consolidar uma sociedade justa. Afinal, por que um regime monárquico em que o povo se sinta nacionalmente representado no Imperador seria necessariamente menos democrático do que uma República cujo Presidente é visto e se vê como líder de facção e despreocupado com o bem comum?


Zé Murilo trouxe contribuições essenciais para que pensássemos a manutenção da unidade territorial brasileira quando da Independência e a formação do Estado-Nacional. Com sólidas bases em vertentes da ciência política norte-americana, que se foca nas características e treinamentos de grupos dirigentes específicos como fator explicativo de processos sociais intrincados, concluiu que a unidade brasileira foi resultado não de fatores econômicos ou de interesses de classe, mas da decisão política de um grupo dirigente que partilhava uma mesma ideologia e os mesmos espaços de sociabilidade [Universidade de Coimbra, a Corte no rio de Janeiro etc.], e que, tendo certa autonomia diante das classes e dos grupos regionais, iniciou a construção de um país independente.


As teses de Carvalho foram criticadas por se preocuparem antes com a formação do Estado do que com a da Nação. Seus métodos foram considerados não históricos por Evaldo Cabral de Mello, e seu olhar foi rotulado de 'neosaquarema' por José Carlos Reis. Segundo alguns, seu olhar era testemunha da perene preocupação dos intelectuais cariocas e fluminenses com o período imperial e uma unidade nacional que seria continuidade do ímpeto 'colonizador', 'europeizante' e 'embranquecedor'.


Todas as ressalvas perdiam de vista o ponto principal, como é comum nas Universidades atuais, mais preocupadas em militar do que em conhecer. A América Portuguesa manteve de fato a unidade, e a fragmentação da América Espanhola não deu aos países surgidos a partir dela nenhuma grande vantagem na construção de nações democráticas e igualitárias. E sim, a República no Brasil é de fato um projeto de exclusão sem compromisso com a representação dos cidadãos. Aliás, a própria ideia de cidadania vigente entre nós é restrita, limitada, trespassada por hierarquias de um certo caráter estamental. Por fim, nossas instituições republicanas são disfuncionais.


José Murilo de Carvalho sonhou com um país ideal, mas sem perder de vista as realidades de nosso processo civilizatório. Não demonizou as construções passadas, pois são elas que abrem o rol de possibilidades presentes e futuras. Ele disputou sim o passado, mas com a reverência necessária que todo intelectual tem de ter por seu tema: construiu seu objeto sem imaginar que fazia uma criação ex nihilo. Fez ciência no sentido mais nobre do termo, não política oculta por trás de um discurso acadêmico.


Oremos para que não estejamos vendo a despedida de um dos últimos baluartes da verdadeira intelectualidade brasileira e sim mais um elo indispensável de uma linhagem tão inquebrantável quando frutífera.


E viva o Brasil! Obrigado, professor José Murilo.

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