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70 anos sem Jorge Lima

Hoje, aos 70 anos da morte de Jorge de Lima, relembramos a vida e a obra do poeta alagoano. Sua capacidade de transitar, unificar, realizar as potências poéticas das contradições entre tradição e modernidade não é trabalho para um poeta comum. Este trabalho é dado para um Herácles. Um Herácles, ou melhor, um Orfeu tingido de Mil Brasis, em que o apolíneo e o dionisíaco, sonho e realidade, dia e noite, mito e história, regionalismo e universalismo, origem e decadência, o fio e a navalha, correm entre seus versos. Não é à toa que sua principal obra, Invenção de Orfeu, de 1952, foi chamada por Murilo Mendes, seu companheiro de “armas espirituais”, de poema-rio no qual fluem inúmeras formas e técnicas poéticas. Um poema longo em que a face do poeta é desenhada e todas as suas fases aparecem, desde o parnasianismo (Poemas e XIV Alexandrinos), passando pelo regionalismo (Poemas Negros), elogiado por Gilberto Freyre, até a escrita automática dos surrealistas.



A “engenharia noturna” dos versos reapresenta a nós a origem de nossa civilização tropical, um canto mítico referencial de um passado originário que canta nosso destino:


Nobre apenas de memórias,

vai lembrando de seus dias,

dias que são histórias,

histórias que são porfias

de passados e futuros

naufrágios e outros apuros,

descoberta e alegria.

(Canto I, Poema I)


A partir dessas imagens em formas rigorosas e múltiplas, Jorge de Lima nos apresenta seu “épico moderno”. O poeta nos liberta do falatório e do estardalhaço cotidiano para conceber uma imagem originária, de um tempo diverso em que a memória auxilia o poeta. Mnemosyne, a deusa da memória, era glorificada pelos poetas em seu próprio ato de criação inspirada, em sua mania (loucura). A ela pertence o conhecimento da unificação dos êxtases temporais e das realidades ocultas. Sendo assim, compreende-se a poesia como uma forma de palavra originária do Ser. É através dela que o mito realiza-se linguisticamente de maneira representativa; uma cristalização presentificadora da origem reavivada pela leitura e enunciação dos versos. Não é sem motivo que a obra apresenta experimentações sonoras a partir da variada metrificação e versificação. Poderíamos, partindo destas reflexões, compreender a poesia como a linguagem do mito. Mesmo em um mundo automatizado como o nosso, ainda há espaço para as manifestações míticas através de referências simbólicas (conscientes ou não) na literatura.

Os mitos nos trazem, pela memória, uma possibilidade de comparação entre realidades bem como a possibilidade de visão crítica acerca de nossa decadente realidade. Podemos encontrar esta investida ainda no Primeiro Canto, quando o poeta fala da figura do índio de maneira material e histórica para, em um movimento platônico, partir para uma inteligibilidade, uma formação arquetípica:


Cravado de premissas e de olhares,

de holofotes e cines, eis teu índio,

grudado de tucanos e de araras,

operário sem lei e sem Rousseau,

incluído em dicionário filosófico;

metáfora, gravura, ópera, símbolo.


Utopia de santo e de sem-Deus,

teu índio, teu avô, teu deserdado

Adão, perfeito Adão sem teus pudores

falsos, consciências, dúvidas, receios,

Emílio bronco, pai de que Rousseau?

De que Montaigne? De que outra convivência


índio que te contém como moldura

guardando personagens obrigadas,

umas em redes, outras em gavetas,

em redomas de prata, umas vestidas,

outras despidas, umas tantas mortas,

retratos desbotados, faces idas

(Canto I, Poema 31)


Por esses motivos, compreende-se Jorge de Lima como um barroco e, simultaneamente, um surrealista à brasileira, capaz de dialogar com nosso imaginário. O mito da Ilha, as referências a Homero, Virgílio, Dante, Camões, as versificações livres e vanguardistas à Breton, à Apollinaire, criam uma obra de alta poesia. Um épico moderno que encontra seu lugar ao lado de Os Cantos de Ezra Pound e Os Peãs de Gerardo Mello Mourão, como a busca pelo “Poema da América”.

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