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O Identitarismo e Duna 2

Duna 2 é espetacular como cinema, mas ainda assim pode frustrar alguns fãs da obra de Herbert.


A essa altura já se pode dizer o porquê: Villeneuve fez modificações na narrativa para ajustá-la às sensibilidades da esquerda ianque. Óbvio que este ajuste não pôde ser nem de longe completo, ou então ele não contaria a história de Duna.


A primeira grande modificação foi descomplicar a política. Mencionei a ausência de Thufir Hawat, mas todo o círculo em torno da Corte Imperial é minimizado - o Conde Ferning é cortado da trama, embora sua filha seja mantida, já que o protagonismo feminino se tornou dogma em Hollywood. Assim como o papel da Corporação que domina as navegações a partir da especiaria. Discutir a influência de monopólios econômicos não dá 'ibope', pelo visto.



Villeneuve prefere se concentrar na crítica à religião e aos mitos ''fabricados'' por uma elite aristocrática - que supostamente impediriam uma verdadeira revolução vinda de baixo.


Chani não é mais a concubina de Paul Atreides, mas uma feminista igualitarista anti-religiosa que se torna a ''estrela guia'' do personagem principal. Diferente do livro, não é Paul que vai liderar os Fremen na revolta contra os Harkonnen formando uma elite de guerreiros que coloca em xeque a produção da especiaria. Na telinha, é o Duque que se coloca no papel de aprendiz das tradições Fremen [Chani é a professora, claro], se transformando num guerreiro da tribo sem qualquer privilégio e evitando, ao máximo, ceder às pressões religiosas nativas [as tribos estariam divididas em dois grupos, o do norte, que são irreligiosos e feministas como Chani, e o do sul, chamados de ''fundamentalistas''].


Óbvio que não há espaço para a tecnologia de guerra baseada em determinados sons cuja emissão potencializa a destruição material que o próprio Paul traria para os Fremen. Esse elemento do livro, que tem implicações esotéricas evidentes, foi abandonado pela produção hollywoodiana para não passar a impressão de que a Nobreza dos Atreides tivesse algo a ensinar aos habitantes de Arrakis.


O próprio componente religioso é visto como um ''colonialismo'' mental - porque Hollywood, claro, é ''decolonial''. Os Fremen acreditam no Lisan al Gaib tão somente pela propaganda das Bene Gesserit, que enviam missionárias ao sul e originam uma linhagem de sacerdotisas locais. Esse componente está presente no livro, mas aqui é maximizado para enfatizar a profecia como um ''mito fabricado'' por estrangeiros, como uma ''religião que vem de fora'' e também ''do alto'' [em termos sociais, claro].


As próprias crenças Bene Gesserit são 'descomplicadas'. Na obra de Herbert, as sacerdotisas/feiticeiras só tem acesso a memórias da ancestralidade feminina, e há locais da realidade em que sua presciência não consegue adentrar. As Bene Gesserit acreditavam que estes âmbitos estavam ''vetados para mulheres" e que surgiria um dia um homem [o Kwisatz Haderach] que reuniria em si as habilidades de uma delas com o potencial de controle mental da especiaria realizado por um navegador da Corporação galática [elemento desprezado no filme] e de um Alto Nobre [portanto, um líder militar aristocrático] e que seria capaz de ''olhar onde elas não conseguiam'': o Kwisatz Haderach era, assim, o poder mais absoluto possível, o ente supremo, capaz de unir tempo e espaço e até mesmo dominar todo o ''tempero''.


Bom, não pega bem pra Hollywood colocar uma figura masculina neste papel.


Enfim, para trazer à vida o Escolhido e ainda assim manter o controle sobre ele, as Bene Gesserit manipulam as linhagens nobiliárquicas de modo eugênico. Evidente que esse enredo também é simplificado no filme para não afetar demais as sensibilidades contemporâneas. Quando é mencionado de forma explícita, o tom de crítica se torna inevitável e se liga às próprias decisões de Paul - ele descobre que é descendente dos Harkonnen depois de tomar a água da vida, e é a partir desta descoberta que escolhe tomar o poder [no livro, esta descoberta ocorre muito antes na trama].


A mesma disposição faz com que Alia, irmã de Atreides, que se torna sábia como uma Reverenda Madre quando Jessica bebe a ''água da vida'', seja retratada como um feto que se comunica através da mãe. Villeneuve supôs que ninguém ia querer assistir uma menina de dois anos de idade empunhando uma faca e matando o Barão Vladimir Harkonnen.


A questão é que a história coloca obstáculos a toda essa tentativa de adaptá-la ao imaginário identitário. Muab Dib, depois de muito choramingar por Chani, aceita seu papel, se declara o Lisan al Gaib, assume que é Duque do planeta, convoca uma guerra santa, manobra com maquiavelismo político, destitui o Imperador e legitima seu acesso ao poder tomando em casamento a filha dele [Princesa Irulan]. Desafia o próprio primo para um duelo de vida e morte segundo as velhas tradições nobiliárquicas e funda uma Teocracia.


Na medida em que a história do livro é finalmente contada, o arco da personagem vivida pela ativista Zendaya se torna uma reclamação sem fim. Ela bate pé, prega o secularismo identitário como uma profeta no deserto, se magoa, confronta Jessica e, inconformada até mesmo por ajudar a realizar a profecia [mais uma invenção de Villeneuve, já que no livro Paul não precisa de Chani para transmutar a ''água da vida''] vai embora bufando no lombo de uma minhoca gigante, aparentemente se recusando a participar da Jihad.


Essa representação dos esquerdeiros através de Chani dá um sabor especial a Duna 2, já que eles têm de assistir os Fremen assumindo o poder por meio da proclamação de uma Teocracia Universal, da realização das profecias através de uma Casa Nobiliárquica ''estrangeira'' e de um Messias que se considera um Profeta quase Onisciente, a representação de um poder masculino que supera o das sacerdotisas Bene Gesserit.


Por outro lado, os fãs devem ficar preocupados diante de Duna 3. Está tudo montado para que o identitarismo dê a ''volta por cima'', destruindo a obra de Herbert. Hollywood vai cobrar seu tributo a Villeneuve.


Fica a esperança de que eles não destruam a história como fizeram com Guerra nas Estrelas. Mas eu não apostaria um níquel nessa hipótese.


O lance é aproveitar a adaptação como está, antes que a debaclé se concretize na tela. O que vier é lucro.

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