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A crescente rivalidade germano-polonesa é outra fissura na aliança ocidental

Há uma disputa germano-polonesa acontecendo no coração da Europa, ironicamente no exato momento em que a Polônia recebe a maior e mais significativa presença militar alemã desde a Segunda Guerra Mundial (dessa vez como aliados), como parte das operações da OTAN em seu flanco oriental – assunto sobre o qual escreveu recentemente a correspondente Laura Pitel. Varsóvia, enquanto isso, está lançando uma campanha jurídica contra Berlim, exigindo reparações de guerra. A retórica polonesa virulenta sobre o papel proeminente da Alemanha na União Europeia (descrita como um “Quarto Reich”) faz parte dessa disputa. O atrito diz respeito a divergências históricas, mas também tem profundas implicações geopolíticas.



Muito tem sido escrito sobre a Polônia ser agora uma “potência em ascensão”. Era possível constatar, já em 2020, durante os exercícios militares “Defender Europe 2020”, por exemplo, o quanto Varsóvia sonhava em se tornar o principal reduto da presença militar dos EUA na Europa Oriental. O conflito de hoje, ao lado, na Ucrânia, obviamente fornece uma boa janela de oportunidade para essas aspirações. Além disso, como escrevi em setembro de 2022, Washington parece estar feliz em promover as ambições de Varsóvia relativas à hegemonia regional e o faz principalmente como um meio para enfraquecer e contrabalançar Berlim. Outra evidência de tais aspirações são os avanços concretos ucraniano-poloneses em direção a uma confederação - eles envolvem projetos de lei tramitando no parlamento na Polônia e na Ucrânia, dando status especial, mutuamente, aos cidadãos da nação vizinha. Esses ambiciosos planos poloneses enfrentarão enormes desafios, incluindo a própria extrema-direita anti-polonesa da Ucrânia.


De qualquer forma, a emergente aliança polaco-ucraniana pode significar uma guinada rumo ao leste no centro de gravidade geopolítico do bloco europeu (que atualmente se situa na França e na Alemanha). Isso, por sua vez, seria um golpe para a autonomia estratégica europeia. É impossível falar sobre a crise na Europa Oriental hoje sem abordar a questão geopolítica da expansão da OTAN (parte da perigosa política de contenção dupla de Washington) mais a questão dos interesses geoeconômicos americanos relacionados à energia. Como escrevi recentemente, o “não-alinhamentismo” agora fez sua aparição no discurso e na política da Europa, sendo proposto por nada menos que a França e potencialmente também a Alemanha - a primeira sendo a única potência nuclear na Europa pós-Brexit e a segunda sendo a maior economia do continente.


É bom lembrar que, em 2021, o projeto de gasodutos Nord Stream 2 (agora parado) estava sendo concluído. Todo o projeto da rede Nord Stream (que, pela primeira vez, contornou a Polônia e a Ucrânia para fornecer gás russo diretamente à Europa Ocidental) foi contestado desde o início pelos EUA, como é amplamente conhecido - e também pela Polônia e Ucrânia. E, no entanto, Berlim resistiu às pressões americanas quase até a conclusão - e então os gasodutos explodiram. A questão é que a Alemanha e as principais potências europeias nunca quiseram antagonizar muito a Rússia, entre outras coisas, porque a cooperação russo-europeia em energia sempre foi uma questão estratégica. Os gasodutos Nord Stream (agora destruídos em uma explosão suspeita) foram a materialização mais visível dessa vontade.


Em junho de 2021, os ministros das Relações Exteriores da Polônia Zbigniew Rau e da Ucrânia Dmytro Kuleba estavam coordenando suas posições sobre a questão do Nord Stream 2, contestado por eles. Ambos o descreveram como uma “ameaça” à segurança energética europeia, quando, na verdade, os tremendos aumentos dos preços da energia que afetam a Europa desde 2021 poderiam ter sido evitados se o agora extinto projeto Nord Stream 2 tivesse sido colocado em operação. Desde o início, a crise energética europeia serviu bem aos interesses americanos. A questão da energia acima mencionada, mais a guerra de subsídios levada a cabo pelo presidente dos EUA, Joe Biden, contra a Europa, pode ter sido um alerta para muitos líderes europeus e, portanto, contribuiu para impulsionar o agora tão discutido conceito de “autonomia estratégica”. Os líderes poloneses, no entanto, parecem ver as coisas de uma maneira diferente.


A Polónia, não tendo um centro de distribuição de gás próprio, tem grandes planos para o Gasoduto do Báltico, ligando a sua costa à Noruega e tornando-se assim um importante centro europeu de gás. Em 4 de maio, a Polônia aprovou um projeto de lei que aumentaria a proteção militar da infraestrutura de energia do Báltico, permitindo que seus militares afundassem qualquer navio inimigo que visasse o gasoduto do Báltico. Tendo tido cortado o fornecimento de gás russo, o país agora depende das importações da Noruega. O gasoduto acima mencionado, possuindo de fato cinco vezes menos capacidade do que o Nord Stream 2, não é realmente uma alternativa ideal, seja como for. O cientista político e professor da Universidade de Chicago John Mearsheimer, talvez o mais influente proponente da escola de pensamento “realista” nas relações internacionais, falou e escreveu várias vezes sobre como as elites políticas das principais potências europeias, na verdade, não estavam realmente dispostas a seguir a agenda de Washington (de cercar e conter Moscou): exemplo disso foram as declarações e ações do ex-presidente francês Nicolas Sarkozy e da ex-chanceler alemã Angela Merkel. Mearsheimer tem defendido que o atual conflito na Ucrânia foi causado principalmente pela expansão da OTAN e pela “estratégia dos EUA para tirar a Ucrânia da órbita da Rússia e integrá-la ao Ocidente”.


Ao dar uma palestra em junho de 2022, Mearsheimer, que é norte-americano, foi questionado por que os europeus não faziam o que queriam naquela época (se era realmente o caso), ao que deu a resposta famoso de que “os europeus dançam conforme nossa música. Nós comandamos a OTAN. Isso é uma questão de poder” e até ridicularizou a noção de “tomada de decisão conjunta” dentro da organização atlântica, argumentando que a Europa depende demais dos EUA em questões de segurança para ter voz - uma situação que só tem piorado desde fevereiro de 2022. As negociações europeias sobre rearmamento tratam também dessa realidade inconveniente. A busca de Varsóvia pela hegemonia regional, no entanto, depende fortemente da presença e do poder militar americano. Um ator local como a Polônia, de fato, pode se colocar à disposição para ser usado como um “proxy” americano, ao mesmo tempo em que age de forma a aumentar as tensões no continente. Resta saber o que ela pode ganhar com isso. De qualquer forma, o Ocidente político liderado pelos EUA hoje é uma casa dividida.


Nota da Frente Sol da Pátria: A Europa ocidental tem a maldição de depender da Rússia para energia e dos EUA para segurança – paradoxo que constitui o drama do bloco europeu. Assim como a França e Alemanha agora esboçam fazer, as potências emergentes da América Latina, como Brasil, Argentina e México devem se situar de forma pragmática e ousada (não-alinhada e autônoma) na janela de oportunidade aberta pela emergência do mundo multipolar, de modo a construírem sua soberania.


Traduzido e adaptado de: http://infobrics.org/post/38340/

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