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A esquerda identitária não fala nossa língua

A esquerda identitária não fala nossa língua - ela é a consciência da pequena-burguesia cosmopolita.


A pauta da esquerda de costumes é inconciliável com o socialismo, com a defesa dos recursos nacionais e da cultura popular e direitos sociais. Grande parte daquela peculiar militância ainda não percebeu isso e imagina que seja possível conciliar a retórica socialista e popular com o discurso identitário pós-moderno, já que não dá a atenção devida às forças sociais que a dinamizam.


Qual é a base social das pautas identitárias? O trabalhador brasileiro? Não, em todo lugar é a classe média cosmopolita que pulula nos bairros de elite das principais capitais do mundo. Em geral, os proletários, as classes populares, os marginalizados de toda sorte (bem como o interior profundo dos demais países) estão alijados do círculo social que sustenta a expansão e disseminação desses valores.


O cosmopolitismo pós moderno e identitário está vinculado, portanto, a determinado tipo de existência social que emerge com o capitalismo neoliberal - sempre em diálogo através do grande mar de trocas que une as metrópoles do Norte Geopolítico; ou seja, na aldeia global, cujos valores já se tornaram incorporados na perspectiva de mundo de tal maneira que já deixaram de ser um simples ideário e projeto para se tornarem uma rede de sociabilidade encarnada.


Há muito o que se dizer sobre a gestação e o parto desses grupos sociais. O mais importante, no entanto, é apontar que as identidades pós-modernas nascem, se desenvolvem e se alimentam a partir de uma pequeno-burguesia, com gostos, estética, comportamentos e conceitos sobre a vida semelhantes a (e gravitando em torno de um) ferrenho individualismo. Um sujeito dessa pequena burguesia no Leblon enfatiza mais o que tem em comum com a pequena-burguesia em Londres do que com seus compatriotas de Madureira.



Desse modo, a esquerda identitária é só a ponta de lança do projeto de nascimento de uma sociedade de consumo global centrada nas principais metrópoles do Norte Geopolítico. Suas pautas são aquelas das multinacionais, que punem ao redor das grandes metrópoles ocidentais os funcionários que não se ajustam nos seus dogmas. A esquerda identitária fornece também justificativas para o imperialismo ocidental, que vê nesses dogmas a base ideológica com a qual justifica intervenções nos demais países - em prol dos interesses da alta burguesia e das finanças internacionais.


Por isso também, na Europa, na América do Norte e na América do Sul, esta nova esquerda tem sido desmoralizada por sua incapacidade de afetar os interesses do consumismo e dos empresários, por se abraçar à demolição do Estado, à financeirização da economia e à rendição abjeta às forças do mercado.


No nosso país vivenciamos isso de modo muito claro nos últimos vinte anos - extorquidos pela hegemonia dos bancos, pela terceirização do Estado, pelo financiamento à alta burguesia espoliadora e parasitária [agenda Fiesp etc.] e a divulgação do consumismo entre as classes populares como forma de pseudo-inclusão cidadã.


Em todo o planeta, a nova esquerda pós-moderna tem sido abandonada pelas classes populares não porque estas se tornaram autoritárias, doentes e perversas, que é como o discurso identitário as rotula. Na Europa, nos Estados Unidos e na América Latina, são os movimentos tachados de ''populistas'' que se oferecem como escudo contra a ação neoliberal.


Essa tendência vai se fortalecer. Aqueles que pretendem se opor ao mundo neoliberal, ao mundo do capitalismo triunfante e da sociedade global, têm de se abraçar às forças nacional-populares. Urge derrubar a hegemonia liberal, seja de esquerda e de direita, no discurso público.


Eis aí o único meio de construir uma sociedade legitimamente popular, patriótica, comunitarista. Já há movimentações de importantes intelectuais com críticas à ''esquerda de Oslo'', que é colonizada pelo discurso liberal-conservador e que precisa ter sempre os olhos fixos no que anda fazendo a classe média europeia e americana para imitá-la.

Essa esquerda (que é a esquerda que se tornou hegemônica nas últimas décadas), manipuladora de conceitos uspianos equivocados que criticavam o populismo como ''alienação'' e ''autoritarismo'', é um obstáculo às lutas populares. Bastou que chegasse ao poder para que seu caráter profundamente antipatriótico se tornasse explícito e sua base de classe se revelasse por inteira.


A esquerda identitária é a consciência da pequena-burguesia cosmopolita aliada ao avanço do neoliberalismo. Ela não fala nossa língua, não come nossa comida, não dança nossas danças.


Abaixo o identitarismo pós-moderno.


PÃO, TERRA, TRADIÇÃO!

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