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Centenário José Fortuna

Celebramos, neste 2 de outubro de 2023, os cem anos que, vivo estivesse, completaria o saudoso Zé Fortuna, um dos maiores compositores da história do país e sumidade da música sertaneja.


Filho de imigrantes italianos que migraram da Calábria para o Brasil e se assentaram numa fazenda de café em Itápolis, cidade onde por sinal veio à luz, Zé Fortuna é um desses génios precoces. Desde a mais tenra idade, enquanto assistia o pai na lavoura, demonstrava sua verve artística, gravando na terra alguns versinhos com uma vara de madeira. No entanto, só à porta dos dezenove anos é que compôs sua primeira música, em 1942.


Não tardaria muito a que ouvissem suas letras no rádio: dois anos depois, em 1944, Raul Torres e Florêncio gravariam 'Moda das Flores'. Talvez não se desse conta de quantas vezes ouviriam, a partir daí, as mais sublimes vozes da música brasileiras – suas canções, conquanto essencialmente vinculadas à vivência sertaneja, não escapavam à universalidade que lhes conferia a ternura que imprimia nos versos e seu imenso gênio inventivo – no rádio, na televisão e nos grandes palcos do país.

Nos idos de 1947, formou com seu irmão, Euclides Fortuna, a dupla ‘Zé Fortuna & Pitangueira’. Em pouco se mudariam para a capital paulista e, ali assentados, vieram a constituir o trio ‘Os Maracanãs’, cuja terceira vaga, religiosamente preenchida por um acordeonista, foi ocupada por diversos nomes que os acompanharam nas aparições em programas de rádio, apresentações ao público e, posteriormente, nas apresentações da Companhia Teatral Maracanã – fundada e dirigida por Zé Fortuna, para a qual escreveu mais de quarenta peças, cujos temas consagraram em algumas de suas músicas mais marcantes, tais e quais 'A Lenda da Valsa dos Noivos', 'Selo de Sangue', 'Punhal da Vingança. O mais destacado dentre os instrumentistas que integraram o conjunto foi o 'Zé do Fole', que esteve em sua companhia desde o poente da década de 1950 até meados de 1975, quando a Companhia foi desfeita para que José pudesse se dedicar exclusivamente à composição. Diga-se de passagem, o Trio marcou presença na inauguração, em 1950, do Canal 5, que posteriormente viria a fazer-se conhecer em todo o país por Rede Globo de Televisão.


Mesmo diante de toda a agitação desses compromissos, nunca deixou de escrever. Em 1952 compôs, a pedido de Cascatinha e Inhana, a versão da guarânia Índia, uma das mais celebradas canções do cancioneiro nacional, que entronizou a dupla no panteão da música nacional e depois ganharia regravações de Caetano Veloso, Maria Bethânia, Fagner, Gal Costa – que batizou um álbum com o título da música – etc. A colaboração não parou aí, escrevendo ainda, sobre a guarânia Lejania, a canção 'Meu Primeiro Amor', outro arrebatador sucesso para a carreira do casal – que recordou, em aparição no programa Especial MPB, de 1973, o compositor como o principal parceiro da dupla e o preferido de Inhana. Com essas duas adaptações, consagrou o gênero paraguaio, que já havia entrado discretamente na cena musical do país sob as bênçãos de Raul Torres & Florêncio no transcorrer da década de 1930, mas nunca tinha encontrado tamanha aceitação e repercussão.


De versatilidade ímpar, transitou entre os inúmeros ritmos da música sertaneja, compondo toadas, valsas, etc. Suas músicas imiscuíam de tal modo o particularismo e a universalidade em seus temas que ganhavam sem esforço o gosto do público, registrando incontáveis sucessos e canções, à feição de 'Berrante de Ouro' e 'Moça do Carro de Boi', vencedoras de grandes festivais de música sertaneja e merecedoras das impressionantes interpretações das maiores duplas do gênero.


Também foi escritor de diversos livros de estórias em verso e de livretos com as transcrições das letras de suas grandes canções. A tinta e a pena lhe eram mui familiares, sendo amplamente reconhecido em toda a música sertaneja como o maior de seus poetas. Tonico & Tinoco dedicaram às suas composições um álbum inteiro. Tião Carreiro & Pardinho gravaram inúmeras delas, a exemplo de ‘A Mão do Tempo’ e ‘Raízes do Amor’. Liu & Léu eternizaram em suas vozes o clássico 'O Ipê e o Prisioneiro'. O Trio Parada Dura gravou, para além da supracitada 'Moça do Carro de Boi', 'Vaquinha' e, em carreira solo, Barrerito popularizou 'Morto por dentro' e 'Luz Acesa'. Matogrosso & Mathias gravaram '24 horas de amor', uma das canções mais inesquecíveis de sua trajetória. Milionário & José Rico gravaram 'Lembrança'. Lista longa de sucessos que definitivamente não para por aí.


Dos inúmeros parceiros com quem dividiu a autoria desses clássicos, destacam-se Paraíso, da dupla Mococa & Paraíso, mas que chegou, nos idos de 1980, a fazer dupla com Tião Carreiro, e Carlos Cézar, compositor de sucessos da MPB que encontrou o sucesso definitivo em suas parcerias com o ilustre itapolitano.


Versando sobre o amor, o sertão, a saudade e narrando deliciosas e trágicas estórias em suas mais de novecentas composições, foi dessas sumidades da arte nacional, rompendo com altivez qualquer preconceito que houvesse em relação à sua gente simples, a quem nunca renunciou e com quem, servindo como serviu às suas letras, repartiu o sucesso. Um artista popular com refinamento e sensibilidade digno dos mais distintos homens de letras.


Incansável, conciliava seu tempo ainda com o rádio, em que transitou por um sem-número de emissoras com seu programa José Fortuna. Sendo, por toda a história do estilo, um dos seus mais refinados e geniais artistas, nada que cause espanto. Muito menos as inúmeras premiações e homenagens recebidas em vida, os títulos honorários e, talvez a que mais lhe tenha comovido, o batizar da antiga avenida boiadeira de sua cidade natal com o seu nome, fato que registrou na canção 'Avenida Boiadeira', sua última composição, que não chegou a gravar, falecendo pouco depois. Canção que ganhou o público nas vozes de Joaquim & Manuel, Daniel e tantos outros.


A 'Canga do Tempo', que recordou na música homônima, gravada por João Mulato & Douradinho, não o pouparia. Aos 60 anos de idade, combalido em razão da doença de Chagas, deixou-nos num 10 de novembro de 1983, mesma data de falecimento do cantor romântico Altemar Dutra, como à época recordaram seus companheiros Tonico & Tinoco no programa televisivo Na Beira da Tuia. Em sua lápide, no cemitério do Morumbi, leem-se duas das estrofes de sua canção 'O Silêncio do Berranteiro':


'Aqui estou, meus velhos companheiros

Olhem pra cima pra me ver passando

Em meu cavalo raio de luar

Pelo estradão de estrelas galopando


O meu berrante, hoje são trombetas

Que os anjos tocam chamando a boiada

De nuvens brancas no sertão do espaço

Vindo ao curral azul da madrugada!'


Certo é que a última de suas preocupações devia ser a que registrou na música derradeira 'Quando os meus versos para o céu voarem / Que em minha terra alguém os tenha lido'. Os versos de José Fortuna ecoarão por toda a eternidade, ao menos enquanto existir viva alma nesta terra frondosa, terra de paineiras velhas, de esteios de aroeira, terra tocada pela elegância e profundidade da obra sublime do velho poeta. Sejam cem de mil anos e mais a celebrar a grandiosidade do homem. A morte é a curva da estrada, morrer é só não ser visto, alertava o poeta. Sua voz jamais se apagará e tampouco a miríade de vozes a trazê-lo para si em cada vez que acode o coração a doçura de suas palavras.

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