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Gilberto Freyre velho, duplamente hispânico (II)

Leia a Parte 1 aqui e a Parte 3 a ser publicada em breve


O catedrático da Universidade de Salamanca e prefeito da cidade, Alberto Navarro González, amigo salmantino do antropólogo brasileiro Gilberto Freyre, deixou escrito, em 1987, nas páginas do jornal ABC, que a Espanha e a universidade espanhola ficavam em débito com Gilberto por sua enorme contribuição para enxergar e estreitar os laços culturais entre Brasil e Espanha.



Gilberto Freyre nasceu em 15 de março de 1900 e faleceu em 18 de julho de 1987; seu itinerário de vida percorre o coração do século XX. Seu pai, Alfredo Freyre, era juiz de direito e professor catedrático de Economia Política na Faculdade de Direito do Recife; possuía uma biblioteca de autores portugueses na qual não faltavam livros de Oliveira Martins ou de Antero de Quental - esses autores transmitiam uma visão ibérica da história da civilização ibérica e das causas da decadência dos povos peninsulares.


Gilberto Freyre herdou do pai o orgulho de levar o sobrenome galego “Freyre” – que significa frade – em sua grafia medieval, com ípsilon. Em 1982, o jornalista galego Jesús Iglesias do jornal Faro de Vigo entrevistará, no Recife, Gilberto Freyre e relatará a seguinte impressão: “Freyre tem algo do velho lavrador de Betanzos”.


Sua mãe, Francisca de Melo Freyre, foi uma mulher culta, filha da aristocracia açucareira. Segundo Freyre, era “pela origem materna, descendente, por via da chamada natural, daquele espanholíssimo fidalgo, Dom Francisco Ponce de Leon, que, no século XVII, estando o Brasil sob o jugo da Espanha, fixou-se em Pernambuco”.


Foi uma criança rebelde, que custou muito a aprender a ler e escrever. Até os oito anos expressava-se com desenhos. Sua avó morreu pensando que o neto era um deficiente mental. Gilberto se alfabetizou primeiramente em inglês, antes do português. Depois do curso secundário no Colégio Americano Batista, Freyre viaja, em 1918, aos Estados Unidos, permanecendo ali até 1922, entre a Universidade de Baylor, no Texas, e a Universidade de Columbia, em Nova York.


Em Nova York, visita o museu da Hispanic Society of America e conhece o salmantino Federico de Onís, diretor do Instituto de las Españas (Hispanic Institute) da Universidade de Columbia, onde terá contato com Valle Inclán. Federico de Onís, filho do bibliotecário da Universidade de Salamanca e amigo de Unamuno, estudou Filosofia e Letras na universidade salmantina, licenciando-se em 1905 e, em 1915, foi catedrático de Língua e Literatura Espanhola.


Freyre descobrirá, por acaso, em Nova York, a obra de Ángel Ganivet e, em particular, seu livro Idearium español, que o marcaria a ponto de considerar-se um “ganivetista”. Freyre lê os clássicos espanhóis: Lulio, Cervantes, El Greco, Vives, Velázquez, Gracián e Frei Luís de León. Da Geração de 98, ou dos próximos a ela, lerá Pio Baroja, Ganivet, Unamuno, Azorín, Valera, Galdós e Ortega. Freyre louva a atitude espanhola de introspecção nacional, assim como admira o misticismo medieval ibérico de Juan de la Cruz, Santa Teresa de Jesús, Diego de Estella y Frai Luis de Granada.


Recebe a ajuda e os conselhos, nos Estados Unidos, do diplomata Oliveira Lima, que coloca à sua disposição seus contatos e sua gigantesca biblioteca. Oliveira Lima porá em contato o escritor português António Sardinha com Gilberto Freyre. O hispanismo de Sardinha e em especial seu ensaio Aliança peninsular o influenciarão profundamente.


De visita a Oxford, Freyre se convence da maternidade hispânica do mundo português e da necessidade de aproveitar o prestígio da cultura espanhola para divulgar a cultura luso-brasileira. Considera-se um brasileiro com “consciência pan-ibérica”.


Ao regressar ao Brasil, em 1923, depois de sua estada de cinco anos entre Estados Unidos e Europa, Freyre encontra um Recife modernizando-se, mas sem preservar o melhor da tradição. Participa, com destaque, do movimento regionalista e, em 1925, coordena o Livro do Nordeste, comemorativo dos 100 anos do Diário de Pernambuco. Solicita artigos a diferentes autores, entre eles o Brasil, nação hispânica (encarregado a António Sardinha sendo que esse artigo, por motivo da morte de Sardinha, não chegou a ser realizado), cujo título Freyre recuperará para artigos e conferências próprias nos anos 60.


Em 1957, publicará, na Espanha, o artigo Notas sobre la cultura hispánica na Revista Cuadernos Hispanoamericanos, que reúne toda uma declaração de princípios de seu hispanismo multidisciplinar pan-ibérico: um itinerário intelectual que seguirá amadurecendo e não o abandonará até a morte.


Apesar de Freyre considerar, desde muito cedo no seu itinerário intelectual, que o mundo hispânico e o luso provinham de uma mesma matriz cultural, em Casa-grande & senzala, se mostra indeciso sobre se as colonizações espanholas e portuguesa na América seguiam um mesmo padrão antropológico, independentemente das diferenças de outras ordens e circunstâncias - isto é, se a atitude do colonizador espanhol na América era também – como a do português – propensa à interpenetração de culturas.

Continue lendo a Parte 3, a ser publicada em breve

Pablo González Velasco – Brasilianista espanhol, doutor em Ciências Sociais pela Universidade de Salamanca, coordenador de ELTRAPEZIO.EU e especialista em iberismo e neobarroco, bem como na vida e obra de Gilberto Freyre e Américo Castro. Possui um blog chamado “Observatório de Geopolítica Panibérica”.

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