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Morreu o poeta e tradutor Claudio Willer, o beat brasileiro




“ao emergir na tela do texto, repetem o ressoar das vozes de poetas e magos, poetas que foram magos, magos que foram poetas, poetas e magos que foram profetas.”


Claudio Willer, “Volta”.


No último dia 13 de Janeiro de 2023, numa sexta-feira 13, faleceu o poeta e tradutor Claudio Willer. Fruto de uma vanguarda subterrânea, a chamada “Geração 60”, a mesma de Roberto Piva, Roberto Bicelli e Antonio Fernando de Franceschi, influenciada pela poesia mística de Jorge de Lima e Fernando Pessoa, o surrealismo de André Breton, a literatura beat de Allen Ginsberg e Jack Kerouac, dos quais Willer foi tradutor e interferiram diretamente em sua prosódia poética (Willer manteve contato com Ginsberg até a morte do beat no final dos anos 90), assim tornando-se referência nacional no assunto e tendo alguns livros publicados. Também possui notoriedade por sua tese “Um Encanto Obscuro”, que apresenta a relação entre poesia e gnosticismo. Um episódio interessante é sobre Hilda Hilst. Analisando seus poemas, Willer constata a influência da religião pessoal que fala sobre o deus às avessas e recebe a resposta da autora: “É. Esse aí me entendeu”.


Estreou na coleção “Novíssimos”, do importante editor Massao Ohno e, em 1964, com seu primeiro livro solo “Anotações para um Apocalipse”. Sua escrita imersa em referências ao ocultismo, aos poetas malditos, aos escritores não canônicos e esquecidos como Antonin Artaud e Lautréamont, apresenta-nos as bases para a criação do movimento de contracultura que foi sua geração.


Podemos compreender esse movimento por trechos dos manifestos de Willer e Piva: “contra o dia pela noite, essência do ideário romântico, declarada nos Hinos à noite, de Novalis, para quem o mundo finito era aquele da luz: ‘Há que sempre retornar a manhã? Nunca findará o poder terrestre’. Luz e trevas com sinal trocado por representarem, respectivamente, o racionalismo criticado por românticos (e por nós), e o mistério cultuado por eles (assim como por nós)” (WILLER, Manifestos, p. 9). “Nós nos manifestamos contra a aurora pelo crepúsculo […] contra a rádio-patrulha pela Sama das Caméloas […] contra Hegel por Antonin Artaud […] contra o futuro pelo presente […] contra a responsabilidade pelas sensações […] a mecânica pelos sonhos […] contra o governo por uma convenção de cozinheiros contra […] contra a mente pelo corpo, […] contra a lógica pela magia” (PIVA, Um Estrangeiro na Legião, p. 141).


Os textos de Willer e Piva confluem em temática e proposta. Denunciam a necessidade de uma emancipação anárquica, uma revolta interna e externa que teria a linguagem poética como portadora da mudança. O poeta, através da palavra, interfere na realidade, mas isso nunca é um trabalho feito sozinho: “o autor é co-autor, ponto de confluência das vozes dos que o antecederam de seus contemporâneos” (WILLER, Volta, p.154). A recusa do pensamento binário, do cientificismo, do comodismo e realismo ingênuo na filosofia, nas artes, na literatura em prol da experiência abissal com a linguagem e suas manifestações.


A importância de Claudio Willer e sua geração de poetas apresenta-se como um símbolo de resistência contracultural. “Resistência”, palavra que deve ser escrita, poetizada, idealizada, concretizada, praticada, para a criação de um novo Brasil embebido em seus mistérios e tradições.


Claudio Willer vive em sua poesia. Aliás, não há separação entre vida e poesia, uma não há sem a outra, ambas são neste movimento de apropriação, oscilação essencial, e continuará como símbolo para as novas gerações de poetas que aguardam o momento propício para emergirem e espalharem a palavra mágica por estas terras em que afundamos os pés.

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