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O motim do Grupo Wagner e o futuro da Rússia

É muito cedo pra avaliar as repercussões do motim de Prigozhin na política interna russa. Não se sabem os termos exatos do acordão que parou a marcha do Grupo Wagner, nem os atores com os quais o mafioso pensava contar em sua tentativa frustrada de golpe. Não se sabe sequer o alcance que ele pretendia dar à sua ação, se derribar Putin ou isolá-lo de inimigos declarados de Prigozhin.


Mas a rebelião tornou explícito algo que eu apontava desde o assassino de Darya Dugina, que foi seguido por contínuos homicídios e atentados políticos nas capitais do país, que quase vitimaram o próprio Putin a certa altura.


"Não se tira daí que o próprio Dugin esteja implicado na tentativa de golpe contra Putin, ou, caso esteja, que tenha deixado algum rastro. Em suas declarações públicas após a invasão, o ideólogo sempre fez questão de demonstrar lealdade ao Presidente Russo, inclusive sugerindo que ele adotasse de vez a figura de um Líder Supremo, quase que seguindo um fuhrerprinzip".

[Claro que os russos sempre colocaram a culpa dos atentados nos ucranianos, nos ocidentais, na OTAN etc., mas não é crível que agentes de inteligência tenham tanta liberdade de ação em Moscou e arredores sem apoio de fatias do Deep State russo.]


Há uma divisão e uma disputa na alta cúpula do poder do país. Putin tenta se equilibrar e arbitrar embates bastante poderosos, o que significa andar no fio da navalha. E nesta semana, quase perde sem volta o controle da situação, expondo uma fragilidade e fazendo concessões que só ficarão claras com o decorrer do tempo.


A rebelião de Prigozhin já era prevista há meses por observadores do cenário político-militar russo. Há matéria de janeiro no New York Times apontando que o acúmulo de popularidade, poder e força bélica do mafioso, bem como sua crescente rede de contatos nas forças de segurança e inteligência, desequilibravam o círculo conflituoso próximo a Putin, e poderia representar uma séria ameaça e fator de instabilidade muito em breve.


Putin também previa, óbvio, tanto que no início deste mês obrigou que os mercenários do Wagner assinassem contratos com o governo, tomando controle das finanças do grupo. Prigozhin imaginou talvez que teria apoio suficiente para, em um brusco e ousado movimento, emparedar Putin e reverter a situação. E de fato conseguiu abalar a até então impassibilidade de Putin, que demorou a reagir enquanto Moscou era fortificada, cidades do sul protegidas e até rodovias do país danificadas para dificultar a passagem das tropas amotinadas.


Mas que apoios seriam estes com os quais o mafioso esperava contar? Não se sabe ainda. Mas é possível apontar que grupos mais extremistas e belicistas na Rússia exigem que Putin aprofunde a guerra na Ucrânia, realize uma mobilização geral do país, promova expurgos em massa, e dê início a um novo regime. Pressão similar, ainda que em grau ainda mais elevado, existe também sob Zelensky, bom lembrar.


Só para dar um exemplo, o ideólogo Alexandr Dugin é um dos que reiteradamente exigem de Putin o fechamento do regime e a prisão de alas pró-Ocidentais ou liberais da sociedade. Coincidentemente, a filha de Dugin, Darya Dugina, cujo assassinato já mencionei, era empregada de Prigozhin, responsável pela difusão ideológica no aparato midiático mantido pelo bilionário. Os laços de Darya com Prigozhin incluem também Konstantin Malofeev, fundador do Katechon, think tank que divulga análises duginistas.


Não se tira daí que o próprio Dugin esteja implicado na tentativa de golpe contra Putin, ou, caso esteja, que tenha deixado algum rastro. Em suas declarações públicas após a invasão, o ideólogo sempre fez questão de demonstrar lealdade ao Presidente Russo, inclusive sugerindo que ele adotasse de vez a figura de um Líder Supremo, quase que seguindo um fuhrerprinzip.


No entanto, Dugin deu uma escorregada quando do abandono de Kherson pelas tropas russas em novembro passado, usando a imagem forte de russos chorando em desespero pelo abandono da cidade "como se seus filhos fossem mortos diante de seus olhos", referência óbvia à sua própria experiência com o assassinato da filha. Com essa cartada moral, diz que a autocracia traz poder mas também a responsabilização total do governante. E mobiliza conceitos de Frazer sobre o assassinato ritual do Rei que perde a eficácia mágica em sociedades tradicionais para mandar um alerta pra Putin.


Uso o ideólogo aqui apenas para ilustrar as possíveis pressões extremistas que pairam sobre o Presidente da Federação Russa, que diferente do que boa parte da mídia gosta de pintar, é um sujeito moderado e ocidentalista, diferente de muitos elementos que saíram da Caixa de Pandora aberta nas últimas décadas.


E sendo assim, é apressado imaginar que a rebelião realizada pelo Grupo Wagner foi o último capítulo de instabilidade na Rússia. A cultura política russa se dinamiza em meio a sangrentas disputas no seu Deep State e expurgos em sua alta cúpula. Estamos assistindo a "versão nova de uma velha história", como diria o poeta.

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