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Villa-Lobos: maestro orfeônico das entranhas do Brasil



“E, por tudo o que escreveram os que o conheceram pessoalmente, Villa-Lobos nos é apresentado como um desses raros narradores que, à moda do que acontecia em tribos ancestrais, reuniam à sua volta amigos e familiares, inebriados com a contação de histórias sobre deuses e monstros, mitos e lendas.” (Leitão, 2017)

Mestre Villa era um genuíno contador de causos.


Numa das muitas lendas que rondavam seu nome, teria sido ele, “mais morto do que vivo”, quem tomava o lugar de Hans Staden como vítima de um rito antropofágico indígena nas profundezas do Brasil.


Essa estória, tantas vezes contada e descontada, vezes por ele, vezes não, é um dos exemplos da densa nuvem cacofônica que separa o homem do mito, em cuja biografia mesmo seus íntimos amigos teriam sido “incapazes de separar a verdade da ficção, (...) começando pela data do seu nascimento” (Peppercorn, 2000).


Carioca plenamente catequizado nos círculos boêmios dos chorões do Rio de Janeiro de princípios do século passado, aprendera desde cedo a arte de cantar e encantar seus ouvintes, fosse pelo dedilhar das cordas de seu violão – instrumento ao qual prestou tão reverencioso serviço –, fosse pelas palavras desse grande brasileiro que transbordava lábia e personalidade.


Sua habilidade para montar e desmontar seus causos denunciava uma versatilidade cativantemente brasileira que era replicada em suas obras. Sua dinâmica visceral de trabalho lhe permitia produzir motivos rítmicos e melódicos em profusão, que ele então arquivava para depois desenvolver em sempre novas direções, instrumentações e orquestrações a seu bel-prazer – para desespero dos copistas.


Sua música nunca se enrijeceu diante da frieza do papel: sempre em transformação, mesmo depois de escritas, suas notas e os lamentos de seu violoncelo são vulcão ativo que até hoje transborda de vida, evocando a cada escuta uma outra moda de viola, um outro cantarolar de bruços sobre a janela, uma outra roda de choro, em suma, outra imagem de Brasil.


Um fracasso no sistema de ensino musical formal, Villa-Lobos abriu a facão a trilha de seu próprio caminho rumo ao estrelato. Explorando no trajeto as vias sinuosas entre a selvageria primitiva dos russos e o refinamento sublimado dos franceses, ainda assim foi capaz de desembocar no lugar que seu coração habitava desde o princípio, que é o caldeirão de cheiros, cores e gentes que fazem a nossa terra.


Villa-Lobos foi uma formidável voz do Brasil. À sua maneira, foi o brado retumbante que, na forma de música, levou e leva o Brasil a tantos lugares onde ele jamais havia chegado. Foi uma voz que, das entranhas do país, soube carregar por surradas estradas de chão batido o espírito do Cantador brasileiro, elevando-o de sua profunda e encantadora particularidade para tocar o Universal.


Por sinuosos que tenham sido seus caminhos, essa é a voz que perdemos hoje há 63 anos, e que canta em nós desde então.


Viva Villa-Lobos, compositor do Brasil!



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Robson dos Santos Leitão. Heitor Villa-Lobos: da antropofagia às narrativas de Alejo Carpentier e Mário de Andrade. 2017.


Lisa Peppercorn. Villa-Lobos: Biografia ilustrada do mais importante compositor brasileiro. 2000.

1 comentário

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Natália Rodrigues
Natália Rodrigues
Nov 18, 2022

texto arrebatador! <3

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