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A propaganda russa, os desinformados e os mal informados - a piauí, Moscou e eu (ou: quem checa os checadores de dados?)

A piauí publicou importantíssima matéria chamada "Os braços da desinformação russa": o artigo, assinado por Nathalia Watkins e por Cristina Tardáguila (diretora da Agência Lupa), traz, como já diz o subtítulo, uma séria denúncia sobre pessoas "e entidades" que "têm promovido no país [no Brasil] o programa político de Putin e seu guru, Aleksandr Dugin". Traz, ainda, uma impressionante revelação (tem mais, como veremos), a saber, o dado de que, em 2014, "Moscou invadiu e tomou a região de Donbass da Ucrânia". Essa é uma revelação tão desconcertante (quando a li, literalmente engasguei com o café), que é incrível que seja mencionada assim, en passant, na matéria - o certo seria estar em destaque, na manchete, e, mais ainda: na primeira página de todos os principais jornais do mundo.



É que, para todos os principais jornais do mundo, para todos os especialistas, pesquisadores e até para os próprios russos e ucranianos, as repúblicas rebeldes de Donetsk e de Lugansk (na fronteira russo-ucraniana) só foram anexadas pela Federação Russa, após um referendo local (sim, levado a cabo em meio à guerra e questionado pela comunidade internacional) em 30 de setembro de 2022; a anexação foi então ratificada pela câmara alta do poder legislativo russo em 4 de outubro de 2022 e, depois, pela câmara baixa. É a partir daí que, supostamente, começa a integração às estruturas estatais russas. O que Nathalia Watkins e Cristina Tardáguila nos revelam, acredito que em primeira mão, é que, oito anos antes desse teatrinho, já em 2014, Moscou (isto é, por metonímia, a Federação Russa) não só "invadiu" como também "tomou" a região de Donbass. Vou evitar fazer uma digressão muito longa, mas eu preciso fazer alguns comentários para que o(a) leitor(a) leigo(a) consiga perceber a seriedade dessa informação.


Ora, a Crimeia (anexada já em 2014) é uma península, quase ilhada, na costa norte do Mar negro: não fosse por um pedacinho de terra, chamado istmo de Perekop, conectando-a ao resto da Ucrânia, estaria totalmente rodeada pelo Mar Negro e pelo Mar de Azov. Já a região de Donbass é (ou, na prática, era) todinha parte do território contínuo da Ucrânia, sem istmo, fazendo fronteira com Rostov (Rússia). Além disso, a anexação da Crimea ocorreu, em 2014, após um referendo  (também controverso) no qual a maioria votou a favor de se reintegrar à Rússia - e, de fato, a maior parte da população era favorável a isso, segundo artigo ("To Russia With Love: The Majority of Crimeans Are Still Glad for Their Annexation", 3 de abril de 2020) da respeitada Foreign Affairs, assinado por John O'Loughlin (professor de Geografia Política da Universidade de Colorado), Gerard Toal (professor de Assuntos Internacionais na Virginia Tech e ganhador do prêmio ENMISA) e Kristin M. Bakke (pesquisadora associada do Peace Research Institute Oslo). Mas, mesmo assim, com referendo (de legalidade questionável, que seja) e com amplo apoio popular local, a secessão e anexação russa da Crimeia, em 2014, foi um problemão. Diferentemente da independência de Kosovo, também decretada após referendo (que o Ocidente reconheceu), rendeu uma baita treta e intensificou imensamente as tensões entre Ocidente e Rússia.


Entretanto, a invasão e tomada de Donbass inteiro, naquele mesmo ano conturbado de 2014, aparentemente passou desapercebida pela OTAN, a CIA, os serviços de inteligência ucranianos, e, na verdade, pelo mundo inteiro - e só veio à tona agora graças ao histórico artigo de Nathalia Watkins e Cristina Tardáguila. Tal revelação, bizarramente, não repercutiu ainda em nenhum jornal. Até agora, foi noticiada com exclusividade pela piauí/Folha de São Paulo. Não tenho TV em casa, mas passei o dia inteiro acompanhando, pela internet, as agências de notícias internacionais esperando para ver a repercusão. Acredito que seja algo tão impactante que, até agora, ninguém criou coragem ainda para repercutir ou comentar. Trata-se, afinal, de uma revelação (em grego, apokálypsis ou Apocalipse) que literalmente reescreve a História dos últimos dez anos. Como Moscou conseguiu ocultar uma operação dessa envergadura do mundo todo por uma década inteira? De fato, a propaganda russa deve ser uma máquina poderosíssima, capaz de fazer parecer vestido um imperador nu e de fazer o dia parecer noite e urubu, meu lôro. Felizmente, ainda existe jornalismo investigativo, sério e bem fundamentado; isto é, existem jornalistas corajosas e competentes como Nathalia Watkins e Cristina Tardáguila (diretora da Agência Lupa), graças a quem podemos dissipar o véu de fake news, mentira e desinformação e receber o clarão da verdade, que cura, liberta e redime. Contudo, essa não é a única revelação que o supracitado artigo nos traz:




A matéria também nos informa que um dos centros de desinformação russa atuante no Brasil era o Centro de Estudos da Multipolaridade, o CEM (com o qual colaborei brevemente). Até onde me lembre, foi ativo, parando e voltando, de meados de 2016 até 2018. Nathalia Watkins e Cristina Tardáguila revelam, sem citar fontes, que o CEM "chegou a reunir 2 mil pessoas". É outra afirmação impressionante. Para fins de comparação, a Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), a famosa "San Fran" (do Largo de São Francisco) inteira conta com cerca de 2.400 alunos de graduação. Ou seja, é praticamente uma San Fran inteira estudando a obra de um pensador russo obscuro. Uma San Fran inteira a serviço da desinformação russa. Trata-se, então, seguramente da maior operação de propaganda da História da humanidade. E não estamos falando de meros agentes de campo, mas de pesquisadores, que analisam dados e produzem conhecimento (ou pelo menos tentam) e são, portanto, no meio acadêmico ou para-acadêmico, o equivalente a oficiais de inteligência. Para contextualizar, a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) conta com 732 oficiais de inteligência apenas. Pelo que me recordo das reuniões por Skype do CEM e das duas ou três vezes em que estive na sede, no Centro velho de São Paulo, havia, no total, menos de uma dúzia de pessoas envolvidas, entre graduandos e doutores.



Apesar das fecundas discussões, pensava eu, o CEM não chegou a emplacar. Realizava discussões internas, como qualquer laboratório ou grupo de estudos. Publicou alguns textos, inclusive mais combativos (que foram depois republicados no portal russo Katehon) contra o golpe que derrubou a presidente Dilma Rousseff, contra as políticas do governo Temer, em defesa do legado da Era Lula (2002-2012) e, em 2018, publicou ainda a defesa de uma frente contra Jair Bolsonaro (que acabou se elegendo presidente da república) e de apoio ao então candidato à presidência Fernando Haddad, defesa esta que depois foi endossada por Dugin (é difícil recuperar esses textos hoje, estando o antigo portal do CEM fora do ar). Talvez não seria errado dizer que, em suas publicações mais políticas, o centro tinha um viés relativamente pró-petista (o que não necessariamente agradava plenamente todos os colaboradores). Pelo jeito, estava nos planos do "guru do Putin" de extrema-direita colocar o Partido dos Trabalhadores (PT) no poder no Brasil. Até onde sei, o CEM não chegou a publicar Cadernos, nenhum livro ou tradução nem a realizar congressos, conferências ou simpósios. Tais projetos ficaram no papel. Contudo, segundo Nathalia Watkins e Cristina Tardáguila, o centro "chegou a reunir 2 mil pessoas" e fazia parte de uma vasta rede de desinformação russa comandada pessoalmente pelo próprio guru do presidente russo Vladimir Putin. É evidente que as duas jornalistas checaram seus dados (com uma lupa, espero) antes de publicar uma alegação tão extraordinária e isso tudo, de alguma forma, me passou desapercebido - assim como passou desapercebido pela USP, pela Escola Superior de Guerra e por diferentes universidades brasileiras, como veremos. Ora, são denúncias tão graves que isso tudo precisa ser investigado pelas autoridades, pelo Ministério Público, pela Abin (com seus apenas 732 oficiais de inteligência, mas que seja).


A outra revelação trazida pela piauí tem, para mim, um sentido personalíssimo. Diz a matéria:


"Todas as traduções de Dugin no Brasil são feitas por Uriel Irigaray Araújo, doutorando em antropologia pela Universidade de Brasília (UnB), que ganhou popularidade entre os seguidores do guru ao entrevistá-lo em 2020."

Apesar do meu nome do meio estar grafado corretamente (o que é incrível), o meu sobrenome é Araujo sem acento. Com certeza, é apenas um typo. Eu realmente entrevistei Dugin, em mais de uma ocasião - só não sabia (descobri agora) que eu era popular entre os seguidores dele, para quem, até onde me constava, sou um desafeto e persona non grata. É sempre bom descobrir que somos mais populares do que achávamos, sem dúvida. Mas a revelação que mais me surpreendeu é a de que, no Brasil, sou eu que traduzo todos os textos de Dugin - coisa que nem eu sabia. Até onde minha memória alcança, eu traduzi, certa vez, uns oito parágrafos de um trecho de um dos livros de Dugin, trecho que postei nas redes sociais, dando ao post o título de "A crítica ao progresso no pensamento anti-racista conservador de Alexandr Dugin"(não encontro mais o link original). C'est tout.


Da extensa obra do intelectual russo, no Brasil, foram publicadas, salvo engano, duas traduções do livro "A Quarta Teoria Política", uma pela extinta Editora Austral e outra pela Editora Ars Regia. C'est tout. Em nenhuma delas, meu nome consta como tradutor. Ah, existe também o livro "Os Eua e a Nova Ordem Mundial : Um debate entre Alexandre Dugin e Olavo de Carvalho", de 2012, publicado pela ‎Vide Editorial e organizado por Giuliano Morais e Ricardo Almeida. Trata-se, como o próprio nome diz, de um debate (no sentido de embate, confronto) entre o brasileiro (pró-americano) e o russo (anti-americano). Não participei em nada nem traduzi nada, acho. Ou traduzi? Há ainda, pela internet afora, em primeiro de março de 2024, vários artigos do Dugin traduzidos ao português e, julgava eu, nenhum de minha lavra - acho. Não é difícil imaginar como eu estou confuso agora. Eu não sabia que os havia traduzido todos e estou ainda tentando lidar com o choque da notícia. Peço encarecidamente que quem encontrar mais textos traduzidos por mim, que mos envie, para que eu possa, se for o caso, pedir o devido crédito ou honorários cabíveis.


A outra revelação (elas não acabam), que está implícita no artigo de Nathalia Watkins e Cristina Tardáguila, é a de que eu próprio faço parte da rede de desinformação russa de Alexandr Dugin, mesmo eu tendo publicado textos criticando Dugin e o duginismo e putinismo, tendo participado de lives explicando e criticando as ideias de Dugin e dos duginistas brasileiros sobre identidade étnica, criticando o chauvinismo grão-russo messiânico e imperialista desse intelectual e sendo eu próprio um crítico da invasão russa da Ucrânia (vide a partir de 58 minutos e e 1h07min) pelo perigoso precedente que ela abriu e o desastre humanitário envolvido (sem contar ter saído pela culatra, com o fortalecimento da OTAN e sua expansão até o Báltico). Nos últimos anos, tenho escrito artigos de opinião sobre variados temas internacionais, que são publicados por portais como o Greek City Times; ocasionalmente meus pitacos são também publicados ou citados em diferentes idiomas, e, sim, também publicados na mídia russa, o que para aqueles com mentalidade de Guerra Fria é algum tipo de crime (lógica que, estranhamente, não aplicam nem a Israel nem aos EUA). Tenho sido um crítico da expansão da OTAN e do papel da extrema-direita na Ucrânia pós-Maidan, mas também da invasão russa. Quiçá seja parte do meu cover, a fachada ou disfarce de isentão adotado por nós agentes e espiões, especialistas que somos em compartimentalizar nossas vidas. Para mim, é impossível, reitero, escrever sobre esse tema sem adotar um tom pessoal: ora, nunca imaginei que poderia aprender tantas coisas novas (inclusive sobre mim mesmo) lendo um artigo. Serei eu um reles propagandista? A reflexão é sincera e me atormenta ao longo da madrugada.


"Desinformação" não é apenas uma informação errada: é um termo técnico para designar um tipo de propaganda que visa induzir ao erro propositalmente mediante técnicas sofisticadas - supostamente vem do russo dezinformatsiya (дезинформация). Contudo, apesar da origem do termo supostamente ser russa, é óbvio que, na era da guerra de informações e na Nova Guerra Fria, todas as potências fazem uso de Public Relations (PR), propaganda, contrapropaganda, desinformação, operações psicológicas etc. Também é óbvio que, mesmo em jornalismo e em ciências humanas e sociais, não existe posicionamento "neutro". Entretanto, é diferente ter posicionamentos (seja eles quais forem) de ser um mero propagandista - embora às vezes a linha seja tênue.


Quando da invasão do Iraque pelos EUA, o fato dividiu opiniões nos meios intelectuais. O jornalista e escritor de esquerda britânico-americano Christopher Hitchens, já falecido, por exemplo, foi a favor da ação americana (para ele, um suposto "antifascismo" vinha antes do "anti-imperialismo"). Não acredito que Hitchens, sujeito sofisticado, o tenha feito por ser um "propagandista" americano, mas simplesmente por acreditar mesmo no que escrevia, com base nas suas considerações - com as quais, no caso, tenho sérias discordâncias políticas e ético-morais. Mas assim é a vida. Ora, o fato de um cientista político estrangeiro (mesmo que polêmico) dar uma palestra ou participar de debate em uma universidade é um fato trivial, que acontece todo ano em diferentes instituições de ensino e pesquisa. Dugin, goste-se ou não dele, já debateu com Francis Fukuyama (o renomado economista liberal professor de economia política internacional na Universidade Johns Hopkins) e participou de debate, no Nexus Symposium 2019, com Bernard-Henri Lévy (famoso intelectual francês) - entre outros. Acusar pessoas e entidades de serem "propagandistas" de uma rede sinistra por meramente debaterem com alguém ou integrarem grupos de estudo etc seria leviano - e não acredito que Nathalia Watkins e Cristina Tardáguila fariam isso: tenho certeza de que elas têm fontes e evidências para corroborar suas alegações contra as várias instituições e acadêmicos (e inclusive contra eu próprio, sem ironia), do contrário estariam se sujeitando inclusive a medidas cabíveis.


O texto de Nathalia Watkins e Cristina Tardáguila é tão rico em informações e contem tantas revelações que eu poderia continuar comentando, maravilhado, o dia inteiro: por exemplo, elas revelam que Dugin é mesmo o "guru" de Putin (coisa que, na minha ingenuidade, eu achava ser alegação hiperbólica manjada - assim como as alegações sobre Ivan Ilyin - já refutada por especialistas renomados como Marlene Laruelle, Diretora Associada do Institute for European, Russian and Eurasian Studies - IERES - da Universidade George Washington). No campo da linguística e filologia, Nathalia Watkins e Cristina Tardáguila também revelam, de forma revolucionária, do alto de sua erudição inesgotável, que "eléctrico" não é apenas a grafia do português de Portugal, mas necessariamente uma palavra espanhola, facto este que decerto deixou perplexos e atónitos muitos portugueses que não imaginavam serem hispanohablantes.


Voltando um pouco, para mim, a notícia sobre Donbass ter sido invadido já em 2014, é pessoalmente impactante. Explico-me: a região estava em guerra civil desde 2014, a chamada Guerra de Donbass, que se iniciou após a revolução nacionalista ucraniana conhecida como Maidan (e após a anexação russa da Crimeia, que é outro assunto). Quando eu visitei a capital homônima da assim chamada "República Popular de Lugansk", em 2019, o confronto seguia, mas estava em fase de "conflito congelado", como dizem os especialistas - ainda havia, em todo caso, toque de recolher. Ao cruzar a fronteira da Federação Russa, nos limites do Oblast (província) de Rostov, tive que passar por check--points controlados pelos rebeldes separatistas. Ali, assisti o desfile cívico do 1o de maio. Em nenhum momento, vi bandeiras da Federação Russa, tanques russos. Somente as bandeiras e brasões da República de Lungask. Eu estava em uma autoproclamada república rebelde, em território que, até 2014, era parte da Ucrânia (de facto e de jure) e que, a partir de então, passou a ser território disputado de facto independente. Pelo menos era o que eu achava - eu e todos os jornais e deparatmentos universitários do mundo.


Além de ter participado de uma conferência anti-fascista em Lugansk, que foi, admito, também o pretexto que me permitiu conseguir adentrar o território controlado pelos rebeldes (embora eu simpatizasse com a causa do povo de Donbass, sob forte bombardeio e bloqueio ucraniano), eu estava, à época, realizando pesquisa de campo entre os cossacos em Rostov do Don, ali do lado, na condição de doutorando em antropologia social e também como pesquisador doutorando visitante do Instituto Max Planck de Etnologia em Halle (Alemanha), após ter feito um breve estágio na Higher School of Economics em Moscou. A artilharia ucraniana já havia alvejado a região várias vezes desde 2014, na tentativa de esmagar a revolta, o que veio a fazer novamente nos anos seguintes (antes de 2022), destruindo hospitais, escolas e infra-estrutura. As autoridades de Lugansk a que tive acesso reconheciam o apoio russo (econômico, humanitário etc), mas algumas, em off, se queixavam da falta de apoio militar russo e da falta de reconhecimento diplomático. À época, as autoproclamadas repúblicas de Lugansk e Donetsk só eram reconhecidas por uns três países e mais a Ossétia do Sul (que, por sua vez, não era reconhecida por mais ninguém). Infelizmente, com a invasão russa de 2022 e a escalada do conflito, a destruição que os moradores de Donbass vem enfrentando há anos agora é enfrentada também por ucranianos, dessa vez sob artilharia russa. O mundo pós-soviético no leste europeu e Cáucaso lembra partes da África pós-colonial, com zonas de conflito e territórios em disputa. O tema do conflito russo-ucraniano é extremamente complexo, tanto na dimensão geopolítica quanto na dimensão étnica ou identitária, dimensão esta que abordo em minha pesquisa de doutorado. Mas, para fins de conclusão, voltemos ao impressionante artigo de Nathalia Watkins e Cristina Tardáguila:


Diante da minha experiência pessoal, dos dados empíricos e da montanha de informações disponíveis, eu poderia concluir que Nathalia Watkins e Cristina Tardáguila não sabem do que estão falando; que, ao escreverem que a Rússia "invadiu e tomou" Donbass já em 2014 ou ao afirmarem que o Centro de Estudos da Multipolaridade "chegou a reunir 2 mil pessoas", cometeram o que os jornalistas chamam de uma barrigada; que não se trata de desinformação da parte delas, mas que apenas são mal informadas (até sobre a data da invasão da Ucrânia); eu poderia concluir que cometeram erros crassos, grosseiros (até reescrevendo a História geopolítica da Eurásia na última década) e que elas não sabem do que estão falando; que escreveram e publicaram, na piauí/Folha de São Paulo, em suma, um artigo sem pesquisar o mínimo suficiente sobre o assunto sem checarem dados (com ou sem lupa) e sem procurarem falar com as pessoas que citam nominalmente (ou que não citam nominalmente, mas só mencionam deselegantemente como "filha" de alguém, por exemplo). Essa seria uma opção. Eu me recuso a cogitar essa hipótese. Nathalia Watkins e Cristina Tardáguila são pessoas sérias, honestas, responsáveis e não fariam algo assim.


A segunda hipótese é de que elas se limitaram a confiar em informações incorretas constantes em um relatório no mínimo difícil de se encontrar produzido por uma organização relativamente obscura e o fizeram de forma preguiçosa sem checar fatos minimamente nem sequer googlar um pouquinho. Eu me recuso a acreditar que um instituto com um nome tão bacana quanto Centre for Information Resilience (CIR) publicasse um relatório cheio de erros e equívocos, em primeiro lugar pelo benefício da dúvida (presunção de inocência: eu não li o relatório, que não se acha) e, em segundo lugar, porque é um instituto estrangeiro e todos sabemos que as informações de institutos com nomes em inglês sempre são confiáveis - mesmo que no site do instituto em questão nem sequer conste o nome dos pesquisadores mestres ou doutores que o integram ou seu curriculum (o único nome identificável é o do misterioso advogado Tom Southern). É uma questão de se ter fé na humanidade, que é um princípio caro para mim. Se está no relatório (que não se encontra, até o presente momento, na internet, tendo sido citado, por enquanto, apenas por uma matéria da Veja e pela piauí), deve ser verdade, afinal, um homem bom acredita em tudo aquilo que lê. Ninguém seria capaz de distorcer informações tanto assim ou mentir descaradamente (só os russos, claro).


Mais ainda: eu me recuso a crer que Nathalia Watkins e Cristina Tardáguila tenham distorcido o que está no relatório. Se elas dizem que está lá, deve estar - e deve ser verdade. Quando elas não dizem a fonte (para Moscou ter "invadido" e "tomado" Donbass já em 2014 ou para o CEM contar com o número impressionante de "2 mil" pesquisadores ou para eu ser o autor de todas as traduções do Dugin no Brasil), eu devo pressupor que elas deixaram para citar a fonte em outro artigo, no prelo, com mais informações.


Preciso esclarecer que não se trata, aqui, em absoluto, de ironia: há momentos na vida em que precisamos repensar as informações, questionar verdades tidas como certas e corajosamente colocar em dúvida (por que não?) nossa própria sanidade mental.


Prefiro acreditar que, de alguma forma, eu sou, de fato, o autor de "todas as traduções de Dugin no Brasil", mesmo que disso eu não me lembre. Pode ter sido um lapso de amnésia e, mesmo às voltas com trabalho, mestrado, depois doutorado, em meio a um estado psicótico de surto maníaco incrivelmente produtivo, eu tenha mesmo traduzido e escrito tudo isso. Por que não? Peço que quem encontrar o Relatório do CIR e as tais traduções de minha lavra faça a gentileza de mas enviar (pelo email urielaraujo@hotmail.com) para que, assim, tomando conhecimento do que eu mesmo escrevi, eu possa reconstruir o fio da minha memória mutilada e retomar as rédeas da minha vida esfacelada, em uma jornada de cura e autoconhecimento.


É importante também que os acadêmicos doutores (que, estranhamente Nathalia Watkins e Cristina Tardáguila não nomearam) do Labsden, da Escola Superior de Guerra, da USP, da Uerj, da UFRGS e outros entrem em contato com a piauí e com a Veja (esta sim citou nomes - que incluem acadêmicos renomados) para parabenizarem seus editores pelas matérias e para pedirem mais informações sobre a própria participação deles em redes de desinformação russa. É possível que eles também, assim como eu, não saibam o que eles próprios andam aprontando. Felizmente temos as agências de checagem de dados!





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