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Europa e EUA buscam acordo com o Irã

Sol da Pátria - traduzido e adaptado de http://infobrics.org/post/38705/


O principal negociador nuclear do Irã (etambémvice-ministro das Relações Exteriores), Ali Bagheri-Kani, e o representante de política externa da União Europeia (EU), Enrique Mora, reuniram-se no Qatar em 20 de junho. De acordo com o diplomata iraniano, os dois “trocaram impressões e discutiram uma série de temas, incluindo negociações sobre a retirada de sanções.” A reunião, que Mora descreveu como “séria e construtiva”, tratou de “uma série de difíceis questões bilaterais, regionais e internacionais, incluindo a retomada do Plano de Ação Conjunto Global” (em inglês: Joint Comprehensive Planof Action - JCPOA). O porta-voz da UE, Peter Stano, afirmou que o bloco está “mantendo os canais diplomáticos abertos, inclusive por meio desta reunião em Doha, para abordar todas as questões relacionadas ao Irã”.



Apesar do otimismo de Mora, em 23 de junho, um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Alemanha afirmou que essas últimas negociações entre o Irã e o E3 (Alemanha, França e Reino Unido) não constituem esforços para retomar discussões com o objetivo de reviver o acordo nuclear do JCPOA.


De qualquer forma, o secretário-geral do Partido Democrático Liberal (em alemão: Freie Demokratische Partei, FDP) da Alemanha, BijanDjir-Sarai, criticou a reunião, descrevendo-a como “equivocada e uma vergonha”. Antes disso, Norbert Röttgen, membro do Parlamento alemão, também havia criticado Berlim por negociar com as autoridades iranianas. Na Europa, há forte pressão para designar a Guarda Revolucionária Iraniana como um grupo terrorista, medida adotada pelos EUA em 2019.


Muitos analistas acreditam que Washington, por sua vez, planeja chegar a um acordo informal (verbal) com Teerã para evitar uma nova escalada de tensõesentre os dois países. Não se trata necessariamente de implementar o Plano de Ação Conjunto Global de 2015, um acordo escrito de mais de 100 páginas que foi aprovado por unanimidade por uma resolução do Conselho de Segurança da ONU. Ao invés disso, o intuito parece ser revivero debateao abrir caminho para discuti-lo em maior profundidade e chegar a um "entendimento" - em outras palavras, um "cessar-fogo político" (como tem sido descrito pelas autoridades iranianas) para evitar ou reduzir o risco de confronto militar com Teerã. Em 2018, Donald Trump retirou-se do acordo PACG e impôs novas sanções ao país.


Foi relatado que o acordo supostamente envolveria o Irã se comprometendo emimpedir o enriquecimento de urânio para além de 60 por cento ou mesmo parar (ou pelo menos desacelerar) o armazenamento de urânio enriquecido a esse nível. O acordo em discussão possivelmente envolve também outras questões, como o aprofundamento da colaboração de Teerã com a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). Em compensação, Washington deixaria de pressionar a AIEA ou o Conselho de Segurança da ONU para implementar medidas contra o país, suspenderia o endurecimento das sanções contra o Irã e também evitaria apreender petroleiros que transportam petróleo iraniano - como tem feito atualmente durante as “guerras por combustível” contra o Irã e Líbano.


Além disso, a República Islâmica libertaria alguns cidadãos americanos atualmente detidos, enquanto a superpotência americana, por sua vez, também libertaria quatro iranianos detidos e descongelaria o dinheiro iraniano mantido em bancos no exterior.


Alguns acenos de ambos os lados parecem abrir caminho para diálogos futuros. Recentemente, Washington concedeu ao governo iraquiano uma isenção de sanções que lhe permitirá pagar US$ 2,76 bilhões em dívidas de gás e eletricidade ao Irã, ao passo que o líder supremo iraniano, aiatolá Ali Khamenei, sinalizou abertura para um acordo com o Ocidente em seu discurso de 11 de junho - com a condição de que a atual infraestrutura nuclear do país permaneça intocada.


Washington,já sobrecarregada,não consegue bancar mais uma guerra (no Oriente Médio, neste caso) e, de acordo com a vice-presidente executiva do Quincey Institute for Responsible Statecraft, TritaParsi, o presidente dos EUA, Joe Biden, está empenhado em evitar qualquer crise com a nação persa nos próximos meses - que antecedem as eleições presidenciais de 2024 - enquanto Teerã, por sua vez,precisa urgentemente de algum alívio econômico e de um clima que lhe permita dar continuidade ao processo de normalização das relações com diversos países árabes.


O Oriente Médio e o cenário geopolítico global mudaram muito, e acontecimentos recentes, como a normalização das relações saudita-iranianas e o fortalecimento das relações russo-iranianas, tornaram bastante difícil isolar a República Islâmica, que está cada vez mais integrada à região da Eurásia.

Os esforços europeus em favor dereduzir tensões estão, portanto, bastante alinhados com o pensamento atual dos EUA sobre o assunto e não devem ser vistos (apesar das críticas que receberam) como um exercício de “autonomia estratégica” da Europa. Na verdade, esses esforços parecem ter total aprovação e a “benção” de Washington.


Hoje, quando a paz global é constantemente desafiada pela política de contenção dupla de Washington em relação a Pequim e Moscou, e por atritos com a Coreia do Norte, entre outros cenários preocupantes que assombram a todos nós, qualquer desescaladade tensões com Teerã é necessária e deve ser vista como um fato muito positivo. Essa redução de tensão (que até então estavam em escalada)pode trazer a todos algum alívio, mas está longe de ser suficiente, enquanto o Ato Caesar de Proteção Civil aos Sírios (também conhecido como Ato Caesar), por exemplo, continua a serutilizado pelos EUA contra atores da região, como o estado sírio. Em outras palavras, caso o “entendimento informal” se concretize, isso não resolverá os problemas envolvendo o Irã e seus parceiros, pois eles se assentam sobre profundas tensões sistêmicas e geopolíticas.

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