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O nacionalismo brasileiro não precisa do duguinismo

Dias atrás, um russófilo incomodado com as críticas que faço às posições de Alexandr Dugin (pensador russo), me acusou de ter "traído minhas convicções mais profundas" depois de ter "abandonado o barco" de uma organização hoje abertamente duguinista. Ele está equivocado, como o print abaixo demonstra.



Antes ainda, as ressalvas que eu tinha com o pensamento de Dugin impediram inclusive um engajamento meu mais forte no projeto do Centro de Estudos Multipolares [CEM]. Na época, critiquei diretamente a tentativa de Dugin de relativizar as diferenças entre o luteranismo e a Ortodoxia [cristianismo ortodoxo], coisa que era feita apenas para assim defender a política de Putin de integrar a infra-estrutura energética da Rússia e da Alemanha. De todo modo, meu envolvimento com uma organização hoje duguinista foi marcado desde sempre pela tentativa de 'atualizar' o Trabalhismo e abrasileirar as discussões daquela organização.



O meu discurso em julho de 2019 era exatamente esse exposto abaixo:


i. Não éramos duginistas, Dugin não era nosso guru e não tínhamos caráter de seita;

ii. Desejávamos construir uma “Quarta Teoria Política” brasileira [nem liberalismo, nem comunismo, nem fascismo] de acordo com nossa agenda de interesses brasileiros e latino-americanos;

iii. Não éramos tutelados pelo Movimento Eurasiano russo e nem devíamos satisfação ou sequer apoiávamos necessariamente os posicionamentos geopolíticos de Dugin.


Enquanto a “Quarta Teoria Política”, no Brasil, era apenas uma senha para defender um "Trabalhismo do séc. XXI" (brasileiro), como eu e outros fazíamos, ainda existia um caminho nacionalista possível ali - porém, sob a liderança de Dugin, e depois do citado “racha”, isso se tornou inviável.

As condições para que esse discurso existisse dentro da organização supracitada foram minadas com o tempo e se tornaram impossíveis com a saída da ala que rachou com a organização, cansada de enxugar gelo em torno de diversas questões. Enquanto a “Quarta Teoria Política”, no Brasil, era apenas uma senha para defender um "Trabalhismo do séc. XXI" (brasileiro), como eu e outros fazíamos, ainda existia um caminho nacionalista possível ali - porém, sob a liderança de Dugin, e depois do citado “racha”, isso se tornou inviável.


A prova disso é que as liderança atuais dos duguinistas brasileiros não conseguem criticar nenhum único ponto substancial da obra de Dugin; não se afastam nem um milímetro dos "dogmas da Quarta Teoria Política". Mais ainda, não são capazes de criticar em nenhum ponto ou de se distanciarem minimamente de qualquer orientação ou pronunciamento feito pelo intelectual russo. Eles são inoculados passivamente pelas ideias do guru e até aceitam publicamente integrar uma rede internacional de propaganda chamada pateticamente de "Movimento Russófilo", suprema humilhação para um movimento supostamente nacionalista que diz "permanecer de pé em meio às ruínas".


A defesa que, hoje, se faz, nos meios duguinistas, de tópicos "nacionalistas" e "trabalhistas" é meramente instrumental, e existe dentro dos limites estabelecidos pela real natureza deste movimento: ser objeto de propaganda dos interesses russos tais como interpretados por Alexander Dugin.


Faz parte dessa ''estratégia'' usar como escudo temas e assuntos que não estão necessariamente vinculados ao duguinismo. Ora, é claro que é sumamente necessário criticar a OTAN, mas ninguém precisa do duguinismo para fazer isso. Da mesma forma, é bom defender a multipolaridade, mas ela não precisa se dar sob a ótica e os interesses do Estado russo. De modo similar, críticas ao duginismo ou a seus representantes não são críticas ao "nacionalismo brasileiro". Duguinismo não se confunde com nacionalismo.


Como eu disse recentemente, os duginistas brasileiros podem provar que estou errado. Basta que revelem em que pontos os interesses russos se afastam substancialmente dos brasileiros, quais elementos da Quarta Teoria Política e do modelo desejado por Dugin são incompatíveis com o Brasil e precisam ser alterados ou abandonados. Ou seja, basta que frisem as diferenças que fazem deles realmente um movimento político brasileiro e não propagandistas russos.


Isso sim seria sinal de ''maturidade''.


É evidente que eles têm todo o direito de permanecerem como são, é uma decisão inteiramente da organização deles. Mas é sempre bom pontuar e relembrar que eu sempre reivindiquei e atuei com autonomia em relação ao duginismo, mesmo desde aquela época em que trabalhava com aqueles que hoje são plenamente duginistas. E, em algum grau, participava de um grupo que, desde aquela época, pressionava a organização deles a fazer o mesmo e com audácia cada vez maior.


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