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O nacionalismo cura



O povo brasileiro, após as eleições, vive num grande vácuo político. A polarização fanatizante nos entrega, por um lado, a direita que oferece um simulacro dos símbolos e cores nacionais numa paródia farsesca de nacionalismo; do outro, uma esquerda que se esqueceu há muito tempo de sua combatividade. Ambos abraçaram o cosmopolitismo, sonhando com Miami ou Paris e desaprendendo como ser aluno das massas. Duas seitas políticas se digladiam, enquanto a esmagadora maioria da nossa população não se sente representada. A prova disso é que, independentemente de em quem votaram, a maioria dos brasileiros não se associa diretamente às disputas eleitorais. Em suma, bolsonaristas e lulistas são minoria.


Estamos órfãos de uma representação do Espírito coletivo, que funcione como encarnação ideológica da essência do povo. O único caminho para que ecoe a real voz das massas é a construção de um verdadeiro nacionalismo brasileiro, redivivo em uma nova encarnação para o século XXI. Um nacionalismo que, aprendendo com os mestres do passado, seja pensamento atualizado que olha para o futuro. Precisamos construir um nacionalismo que respeite nossos antecessores mas que, antes de mais nada, pense nas gerações que virão. Um patriotismo pulsante, sem anacronismos ou apegos desnecessários. O passado é ensinamento e tijolo na construção do futuro, olhemos com paixão para o que vem! Nossa missão deve ser a das possibilidades do Brasil.


Um Brasil solar e festivo, longe da lamentável histeria daqueles que parecem preferir bandeiras de outros países. Não somos Israel, Estados Unidos ou Rússia, somos a terra do carnaval, da viola caipira e do forró. Nossa essência é a alegria e nossa política deve ser um Sol que dissipe as trevas com um sorriso do trabalhador. Nosso destino é outro. Um Brasil tropical parindo um moreno e mestiço nacionalismo trabalhista!


Por que insistimos nesse elemento mestiço da brasilidade? Na encruzilhada de três mundos nasceu um povo novo, do vazio da ninguendade descrita por Darcy Ribeiro brotou uma árvore chamada Brasil. Uma árvore de raiz tripla, que é o reflexo de sua alma mestiça: América, Europa e África. Seus frutos têm um sangue multicor, como o canto das três raças no famoso samba. O povo brasileiro, em sua mais profunda essência coletiva, em sua alma social, é mestiço. Nosso ser-no-mundo é uma existência singular fermentada num caldeirão com vários ingredientes. Obviamente a herança portuguesa é a que, num primeiro momento, nos guia. Falamos a língua de Camões e (ainda) somos um país majoritariamente católico. Mas também vamos à benzedeira, sincretizamos santos com orixás e batemos tambor. Nosso espírito é castanho, caboclo e mulato. A multiplicidade batizada Brasil é um Sol multicor.


Talvez alguém leia tudo isso e traga à baila as comunidades homogêneas de eurodescendentes, indígenas ou quilombolas. Pois bem, a presença desses povos, peças da miscelânea brasílica, demonstra ainda mais nossa capacidade de agregar novos elementos culturais em nosso mosaico social. Mesmo as comunidades que mantém a identidade de sua terra originária, sem se abrasileirar totalmente, são elementos que temperam com ainda mais pluralidade nosso Espírito mestiço do Povo. Aqui, nesse chão, o Volksgeist hegeliano é uma belíssima morena com pele cor de canela e cabelo crespo. E cada imigrante que em nossos portos desembarcava, deixava mais mestiça essa mulher-pátria, que pariu a cada um de nós e a todos nós como um povo só. Uma mãe bronzeada de irmãos multicoloridos. Deusa trigueira que também é árvore de três raízes, com benditos filhos-frutos de seu ventre Brasil.


Cada um de nós, apaixonados por essa terra, devemos parar de esperar a salvação vinda da política atual e nos transmutarmos em operários na construção de um pensamento verdadeiramente nacionalista que seja a representação mais perfeita desse mosaico que é o Brasil. Um patriotismo que sirva de argamassa que una sempiternamente em unidade as diversas faces de nosso povo, como raios do mesmo Sol. Que seja política que una irmãos, de nordeste a sul, negando esse ódio plantado atualmente e que apenas nos enfraquece enquanto unidade.


A tarefa é hercúlea, os obstáculos e inimigos são muitos. Todo edifício sólido depende de sólidas bases e nosso dever primordial, nesse momento tão obscuro de nosso país, é erguer nossa voz enquanto alternativa a essa falsa dicotomia. Voz essa que, de modo paciente, deve inculcar na mente das pessoas e também nos mais variados meios políticos o amor pelo Brasil em suas mais variadas formas: falemos sobre História, tradições, religiosidade, folguedos, música e muito mais. Todos os temas possíveis, até mesmo aqueles que parecem não ter relação nenhuma com a política, podem servir de ferramenta no despertar de nosso povo.


Aliás, o desprezo pelas singelezas culturais do povo é um erro infelizmente ainda muito comum entre pretensos nacionalistas. Um povo só pode adquirir a consciência de sua identidade coletiva quando compreender o que lhe torna esse povo. Só protegemos o que amamos, só lutamos por aquilo que compreendemos. O povo brasileiro só será uma massa verdadeiramente patriótica quando tiver orgulho de ser o que é, compreendendo suas raízes que devem ir fundo no solo do nosso passado ao mesmo tempo que se transforma em árvore que se ergue rumo aos céus das potencialidades. Sejamos nós os artífices dessa árdua missão, pois nosso amor pelo Brasil merece se tornar algo cada vez mais comum.




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