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500 anos de Camões

Neste mês, a lusofonia (povos e nações que compartilham, em maior ou menor medida, a língua e cultura portuguesas) celebra os 500 anos de Luís Vaz de Camões, presumivelmente seu poeta maior, cuja obra dá continuidade aos versos de um Virgílio e de um Homero, cego como o vate português, que perdeu um olho.



Vate?! E por que ele era um vate? Esse vocábulo era amiúde associado a poetas que possuíam o dom espiritual, o de escutar a voz dos anjos, como se dizia a respeito do inglês William Blake, enfim, de prever o futuro e transmitir prescrições divinas.


No episódio da Ilha dos Amores (Cantos IX e X d'Os Lusíadas), a ninfa Sirena vaticina, por meio de Camões, sobre as glórias futuras das gentes lusas no Oriente. Nesse sentido, poderíamos incluir a epopeia brasileira, não só pelas agigantadas proporções territoriais do Brasil, como também pelo fato de o nosso país ter construído profícuo ambiente para a permanência e fermentação de mitos que, hodiernamente, quiçá nos sejam mais caros do que aos portugueses, como o sebastianista (vide os movimentos messiânicos brasileiros e o culto a D. Sebastião na Ilha dos Lençóis, situada no Maranhão).


O sebastianismo foi abraçado por caboclos e mulatos, o mestiço condenado, como afirmava Darcy Ribeiro, à pretensão de ser o que não era nem existia, isto é, o brasileiro, que, seja consciente, seja inadvertidamente, ainda anima o ideário de fausto e de glória que apenas um Camões podia entoar, devanear. Ou seja, nossa "ninguendade" se apropriou de e ressignificou esse mito luso, tão mais universal quanto mais local, até mesmo provinciano.


Digressões feitas, também há de se destacar a influência de Camões sobre a poesia popular brasileira: ele influenciou desde cordelistas (existe uma miríade de Camões de cordel) até a criação de tipos populares, como o picante Camonge (não vem ao caso elucidar o porquê do emprego de "picante"), uma espécie de fusão entre Bocage e Camões. Isto significa que sua poesia está mais presente no imaginário brasileiro do que se supõe.


Assim, este singelo tributo a Camões representa menos uma ode às glórias lusitanas do que a um poeta que, quer se queira ou não, concorreu para engendrar o "Gênio da Raça Brasileira". Sem qualquer chauvinismo: a verdade é que, contemporaneamente, somente aqui a seiva das glórias camonianas pode encontrar raízes, pois, como proclama Pessoa:


Grécia, Roma, Cristandade,


Europa — os quatro se vão


Para onde vai toda idade.


Quem vem viver a verdade


Que morreu D. Sebastião?



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